Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sábado, 25 de janeiro de 2014

O VELHO, O FANTASMA E A MORTE



Durante uma eternidade, creio, habito sonhos. Por séculos participo da vida, desejos e medos de pessoas que nunca conheci, existo nesta região entre o ser e o nada. Imortal, busco a mortalidade, pois a solidão de um espectro chega a ser palpável.

Todo este tempo, esta infinita sequencia de momentos, percorro vastidões imensas de vazios, como desertos, a procura de alguém que queira sonhar-me. Por vezes o desespero alcança-me, qual uma desgraça, e contra a vontade do sonhador, invado sonhos.  Nessas horas sinto-me guerreiro a frente de uma batalha, e como guerreiro, procuro a vitória, procuro derrotar este tormento que é existir e ser ignorado, a possível eterna solidão, o inferno de tantas crenças. Nestas investidas comporto-me como bárbaro: destruo, com armas ou com minhas mãos de urso; amo, uma mulher ou um amanhecer; odeio, causo terríveis pesadelos ou prazerosos tormentos.  Exercito todas as fraquezas e virtudes humanas que tanto busco.

Mas, passados estes acessos, procuro ser prático, preocupo-me em encontrar quem queira sonhar-me, o que já me aconteceu várias vezes, milhares, talvez milhões, na verdade, embora ainda, e infelizmente, não de uma maneira definitiva.

Dão-me forças estas experiências em que estive perto de ser sonhado, em detalhes, o que é absolutamente necessário. São essenciais os detalhes. Da cor dos meus olhos aos pelos que cobrirão meu corpo; do meu sorriso à maneira de fechar as pálpebras quando durmo. Durante muito tempo aprendi a me ver primeiramente, não adiantava, pois, como já me acontecera, investir em sonhos se eu próprio não me via inteiramente e, portanto, não me apresentava ao sonhador em minha plenitude, tal uma manhã que persistisse em existir durante a noite.

Atualmente habito os sonhos de um velho e de seu filho adolescente. Os velhos e os moços têm, em geral, o dom de desejar mais do que aqueles, que algo possuem um destino a ocupar-lhe os sonhos: jovens guerreiros centrados em suas batalhas; aedos em busca, unicamente, do amor de uma musa; ou os bêbados às suas garrafas.

O que ocupa a vida deste velho de olhos fundos, pele seca e as mãos ainda firmes é relembrar a juventude, o tempo em que as intempéries não o incomodavam, ou melhor, não o venciam. Quando o seu corpo e seus desejos agiam juntos como o mar e as ondas, tal qual acontece ao seu filho, em que tanto pensa e admira, apesar de lhe dedicar pouquíssimo do seu tempo; o mesmo que seu avô ao velho fizera.

Nos sonhos do velho passo-me por ele, e nestes exercícios tenho que ocultar-lhe o seu próprio aspecto; deixo que sua memória apresente-me o mundo que ainda não senti, deixo que sua experiência guie-me por desertos, guerras, amores, rancores e vinganças, que me apresente aos sentimentos que nortearam sua vida, mas, principalmente, que o velho me veja, conheça-me, se acostume a mim como algo real, que me observe os detalhes e deseje que eu exista.

Quanto ao filho do velho, apenas habito os seus sonhos sem preocupar-me que me deseje como ser vivente. Na maioria das vezes, por pura brincadeira, sou seu comparsa em aventuras ou seu companheiro em outras empreitadas. Busco assim conhecer o homem jovem e o homem velho, poder enfim decidir, entre ser, ou não ser, o que desejar: um monge ou um assassino; um crente ou um ateu; um empreendedor ou um mecenas; um liberto ou um escravo; um opressor ou um oprimido, mas antes de tudo ser, em toda plenitude, o que me propuser.

Sinto, depois de séculos e séculos, que os sonhos do velho sejam a última etapa de minha peregrinação, estarei próximo à cidade sagrada? Há forças que já possuo.  Percebi inicialmente que podia respirar e, como um prisioneiro que percebe a porta do seu cárcere escancarada, experimentei o ar, sofregamente, sedento, e os meus pulmões encheram-se de força e de alegria. Apesar da dor inicial muito me emocionei com o impulso que me chegou. Sou filho e pai de mim mesmo.

Atemoriza-me um pouco notar que o velho sofre de crise de asma cada vez mais constante e que associo – tenho que admitir a realidade, embora ela revolte-me por ser injusta – a sua debilidade ao meu vigor. Exerço sobre ele a força de um vampiro sobre sua vítima, percebo que lhe sugo as energias e recordo de outros sonhadores como se tudo fosse um mesmo pesadelo, uma roda do destino, o horror!

Na noite passada desesperei-me. Assim que pude movimentar meu braço esquerdo, o velho acordou com dores, seu filho e a moça com quem dorme e mora há algum tempo, puseram-lhe compressas e ministraram-lhe chás, bálsamos, mas seu braço ficou imóvel, paralítico. Nada pude fazer, não mais controlo o meu nascimento... Creio, na verdade tenho certeza, que o mesmo não mais acontecerá, mais uma vez, mas uma vez... À primeira batida de meu coração, parou o coração do velho e, incompleto, volto à minha peregrinação, espectro insaciável, morte – como me chamam alguns, a sedenta, a indesejável.


(Itárcio Ferreira)