Aos Mestres, com carinho!

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sábado, 20 de agosto de 2022

Para refletir (116)



“O crime não compensa, mas enquanto um trabalhador comum tem que exercer a sua atividade nos momentos e nos lugares em que o obrigam, da maneira como os patrões exigem, o criminoso pelo menos pode escolher a hora, O local e o método do trabalho.” (1955).

(MILLÔR FERNANDES, “Livro vermelho dos pensamentos de Millôr”, página 64, Editora Nordica, 3ª edição, 1973).


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Saudação aos que Vão Ficar, poema de Millôr Fernandes

Millor_Fernandes, por Cynthia_Brito

Saudação aos que Vão Ficar

Como será o Brasil 
no ano dois mil? 
As crianças de hoje, 
já velhinhas então, 
lembrarão com saudade 
deste antigo país, 
desta velha cidade? 
Que emoção, que saudade, 
terá a juventude, 
acabada a gravidade? 
Respeitarão os papais 
cheios de mocidade? 
Que diferença haverá 
entre o avô e o neto? 
Que novas relações e enganos 
inventarão entre si 
os seres desumanos? 
Que lei impedirá, 
libertada a molécula 
que o homem, cheio de ardor, 
atravesse paredes, 
buscando seu amor? 
Que lei de tráfego impedirá um inquilino 
- ante o lugar que vence - 
de voar para lugar distante 
na casa que não lhe pertence? 
Haverá mais lágrimas 
ou mais sorrisos? 
Mais loucura ou mais juízo? 
E o que será loucura? E o que será juízo? 
A propriedade, será um roubo? 
O roubo, o que será? 
Poderemos crescer todos bonitos? 
E o belo não passará então a ser feiura? 
Haverá entre os povos uma proibição 
de criar pessoas com mais de um metro e oitenta? 
Mas a Rússia (vá lá, os Estados Unidos) 
não farão às ocultas, homens especiais 
que, de repente, 
possam duplicar o próprio tamanho? 
Quem morará no Brasil, 
no ano dois mil? 
Que pensará o imbecil 
no ano dois mil? 
Haverá imbecis? 
Militares ou civis? 
Que restará a sonhar 
para o ano três mil 
ao ano dois mil? 

Millôr Fernandes

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

POEMINHA DE LOUVOR AO "STRIP-TEASE" SECULAR, poema de Millôr Fernandes


Eu sou do tempo em que a mulher
Mostrar o tornozelo
Era um apelo!
Depois, já rapazinho, vi as primeiras pernas
De mulher
Sem saia;
Mas foi na praia!

A moda avança
A saia sobe mais
Mostra os joelhos
Infernais!

As fazendas
Com os anos
Se fazem mais leves
E surgem figurinhas
Em roupas transparentes
Pelas ruas:
Quase nuas.

E a mania do esporte
Trouxe o short.
O short amigo
Que trouxe consigo
O maiô de duas peças.

E logo, de audácia em audácia,
A natureza ganhando terreno
Sugeriu o biquíni,
O maiô de pequeno ficando mais pequeno
Não se sabendo mais
Até onde um corpo branco
Pode ficar moreno.

Deus,
A graça é imerecida,
Mas dai-me ainda
Uns aninhos de vida!

domingo, 19 de abril de 2015

Poesia Matemática


Às folhas tantas 
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia 
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide, 
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida 
paralela à dela
até que se encontraram 
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação 
traçando 
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas. 
E enfim resolveram se casar
constituir um lar, 
mais que um lar, 
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade 
integral e diferencial. 
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes 
até aquele dia 
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu 
O Máximo Divisor Comum
frequentador de círculos concêntricos,
viciosos. 
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade. 
Era o triângulo, 
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração, 
a mais ordinária. 
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser 
moralidade
como aliás em qualquer 
sociedade.

Millôr Fernandes

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

03 poemas de Millôr Fernandes


Poeminha sobre o Trabalho


Chego sempre à hora certa, 
contam comigo, não falho, 
pois adoro o meu emprego: 
o que detesto é o trabalho. 

Poeminha sobre o Tempo


O despertador desperta, 
acorda com sono e medo; 
por que a noite é tão curta 
e fica tarde tão cedo? 

Poeminha de Homenagem à Preguiça Universal


Que nada é impossível 
não é verdade; 
todo o mundo faz nada 
com facilidade.

Millôr Fernandes