Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
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terça-feira, 23 de maio de 2017

Mural dos deuses, poema de Carla Andrade


Neste nenhum
trocadilho da alma
há insônia de Baco

Há o profano em
células
cume de ossos
em câncer
trópicos.

O eterno na esquina
no tráfego das mãos,
na romaria de dúvidas.

O fogo de cupim:
no cérebro e sexo.

Há babas do mar
em despedidas de trovões
ressaca de barcos
no veludo de vozes.
O humano a se render.

Nos homens, a morte
imersa na arte.
Léxico dos deuses.
Sopro com sede
no inferno.

Nos homens,
a pitada da ironia:
ser divino em pele de fungos,
em bactérias de dor,
em cascas do tempo.

Carla Andrade 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Epiderme, poema de Carla Andrade


A primeira vez que vi um
sapato velho na fiação
entendi o abandono
de se ter uma alma

Preferia ter só asas
Assobio de pássaros.
Folhagem pisada.

Mas me colocaram uma alma
Dentro de um buraco,
Bem na hora que o mundo deu um soluço.

Depois do sapato velho na fiação,
não adiantou mais ver quitanda e
suas cores gentis.
Nem mão de moço no rosto de moça

Tudo parecia chuva
corroendo carroça
na contramão.
Vento de través.
Telhas encardidas
sem promessa de
aventura de criança.

Tentei adestrar as gotas das lágrimas.
Enlouqueci cada palavra do silêncio
até que elas curassem.
Sentei e ri da melancolia.
Não adiantou.

A alma e sua falta de carne
continuaram enterradas
em caverna
de mãos vazias...
Como uma canção
Sem sintonia
de um rádio
prestes a ser desligado
antes de dormir.