Aos Mestres, com carinho!

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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Chuva, poema de Juan Gelman


hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo.
meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher que vive com ele
e cozinha para ele e lava a roupa para ele e faz amor com ele
e parece sua sombra
meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta se entra em muitos lugares
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher
nem na alma
quer dizer
nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje
que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e somente a alma sabe onde os dois se encontram
e quando
e como
mas o que pode a alma explicar?
por isso meu vizinho tem tormentas na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na mesma noite em que amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que há entre duas rosas
ou como eu
que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva
à chuva
ao meu coração desterrado.




Tradução: Andityas Soares de Moura e Leonardo Gonçalves

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Juan Gelman: uma oração de comover as entranhas

 


Sua poesia é de grande leveza, lirismo e especialmente cheia da verdade humana, feita de dores, alegrias, buscas, encontros e muita fé. Para ele o encontro com São João da Cruz e com Santa Tereza d’Avila no exílio  conferiram-lhe uma aura nova à existência.

Por Leonardo Boff

Aos 83 anos morreu um dos maiores poetas argentinos Juan Gelman que vivia há muitos anos no México. Sofreu todas as tribulações de tantos  sob a terrível ditadura militar argentina. Sequestraram-lhe os filhos Nora Eva e Marcelo Ariel junto com sua nora María Claudia que estava grávida de sete meses. O filho e a nova desapareceram. Durante anos esteve à procura da neta Maria Macarena e no ano 2000 finalmente a identificou no Uruguai.

Sua poesia é de grande leveza, lirismo e especialmente cheia da verdade humana, feita de dores, alegrias, buscas, encontros e muita fé. Para ele o encontro com São João da Cruz e com Santa Tereza d’Avila no exílio  conferiram-lhe uma aura nova à existência.

Transcrevo aqui um poema “A oração de um desocupado” que eu coloquei no meu livro “O Pai Nosso: a oração da libertação integral” na parte que fala do “Pai Nosso que estais no céu”. É profunda e sentida. Como nos salmos apresenta suas lamúrias diretamente a Deus, como que desafiando-o para que desça e venha ver o que fizeram com sua criatura que passa fome e está absolutamente abandonada. Não entende mais nada, mas grita: “Pai, desce se estás…desce!”

A oração de um desocupado

“Pai,
desce dos céus, esqueci
as orações que me ensinou minha avó,
pobrezinha, ela agora repousa,
não tem mais que lavar, limpar, não tem mais que preocupar-se,
andando o dia todo atrás de roupa,
Não tem mais que velar de noite,
penosamente,
rezar, pedir -te coisas, resmugando docemente
Desce dos céus, se estás, desce então
pois morro de fome nesta esquina,
não sei para que serve haver nascido
olho as mãos inchadas,
não tem trabalho, não tem,
desce um pouco, contempla isto que sou, este sapato roto
essa angústia, este estômago vazio,
esta cidade sem pão para meus dentes,
a febre, cavando-me a carne
este dormir assim,
sob a chuva, castigado pelo frio, perseguido.
Te digo que não entendo, Pai, desce!
Toca-me a alma, olha-me o coração,
eu não roubei, nem assassinei, fui criança
e em troca me golpeiam e golpeiam,
te digo que não entendo, Pai, desce,
se estás, pois busco
resignação em mim e não tenho
e vou esconder-me de raiva e afilar-me
para brigar e vou gritar
até estourar o pescoço de sangue,
porque não posso mais, tenho rins
eu sou um homem,
desce! Que fizeram de tua criatura, Pai?
Um animal furioso
que mastiga a pedra da rua?”

(Transcrição e tradução de L.Boff)

domingo, 19 de janeiro de 2014

JUAN GELMAN E OCTAVIO PAZ

Juan Gelman (Foto: Cubadebate/Opera Mundi)


Por Atilio A. Boron(*), sociólogo e cientista político, no jornal argentino Página/12, de 16/01/2014.


Encontrei no excelente Evidentemente


Dois poetas, duas posturas diametralmente opostas: Gelman foi um poeta excelente e, ao mesmo tempo, um notável e comprometido estudioso da realidade contemporânea. O maior da Argentina e um dos maiores da literatura hispano-americana. Mas, a essas qualidades pode-se acrescentar uma virtude que não teve Octavio Paz, o outro dos grandes poetas da nossa língua: o mexicano mudou de lado e, no auge da batalha, desertou e saltou para o outro lado da barricada. Gelman, ao contrário, fiel aos seus princípios, sempre esteve onde tinha que estar. Paz, que havia sido um ardente revolucionário em sua juventude, terminou seus anos convertido num repugnante apologista do imperialismo e do neoliberalismo.



Com a queda da União Soviética, Paz deu rédea solta a um visceral anti-comunismo e sua figura serviu como polo de aglutinação para reacionários que andassem soltos pelo mundo. Com o generoso (e caudaloso) apoio do governo de Salinas de Gortari e da Casa Branca, organizou um grande evento chamado acadêmico no México – transmitido ao vivo pela Televisa (a maior emissora de TV do país) e pela cadeia Cablevisión dos Estados Unidos! – para celebrar a boa nova e, de passagem, promover a organização internacional dos intelectuais de todo o mundo para colaborar na desonrosa tarefa de criar o novo senso comum que requeria um neoliberalismo que abria alas para a força de ajustes, corrupção e repressão.



Contrapondo-se a esta decadente trajetória se ergue a figura de Gelman, que permaneceu firme em seu posto enquanto crescia o tsunami neoliberal. Contrariamente ao ocorrido com Paz, os tormentos da época jamais o levaram a exaltar o que havia repudiado ao longo de toda a sua vida. Por isso, foi um inimigo implacável do imperialismo, enquanto Paz se convertia em seu bem recompensado apologista. À excelência de sua poesia Gelman acrescentou uma coerência exemplar que se manifestava, semanalmente, na solidez de seus artigos jornalísticos publicados no Página/12, onde expunha com minúcias os crimes, as maquinações e os mecanismos econômicos, políticos e culturais da dominação imperialista. Suas matérias foram ao longo de muitos anos uma fonte obrigatória de consulta para quem queria combater de verdade – não com gestos e palavras vazias – o monstro que põe em questão a sobrevivência da humanidade.



Por isso podemos dizer que partiu um dos “imprescindíveis”, como dizia Brecht. Teremos saudades de suas incisivas colunas semanais, mas mesmo assim a obra de Gelman continuará sendo fonte de inspiração para todos os que acreditam que devemos, e podemos, construir um mundo melhor. Semeou palavras e ideias que já estão germinando com força nos corações de milhões de militantes anti-imperialistas da nossa América.



* Diretor do PLED, Centro Cultural da Cooperação Floreal Gorini.

Tradução: Jadson Oliveira





Observação do Evidentemente:



Uns mudam de lado, outros ficam e muitos começam



Lendo o artigo do nosso bravo combatente pelo socialismo Atilio Boron, me lembrei de gente como o jornalista Paulo Francis, que conheci rebelde dos tempos do Pasquim, na época da ditadura. Em especial dum artigo escrito por ele no Pasquim – se não me equivoco, logo que ele e sua turma saíram da prisão – esculhambando Roberto Marinho; a ilustração foi um bocado de moscas voando pela página, por entre as letras do texto, como a caracterizar o fedor do lixo do qual ele estava falando. Pois é, depois, até o fim da vida, Paulo Francis ficou mais conhecido como aquele pau mandado da Globo (do mesmo Roberto Marinho), que, de Nova Iorque, passou a meter o pau em tudo que cheirasse a coisa da esquerda.



Me lembrei do Roberto Freire, velho companheiro de lutas contra a ditadura, pernambucano retado, daquele grupo combativo dos chamados autênticos do MDB, do qual fazia parte nosso aguerrido e saudoso baiano Chico Pinto. Era do Partidão, o PCB (Partido Comunista Brasileiro, dirigido pelo lendário Luiz Carlos Prestes). Hoje Roberto Freire virou deputado paulista (seus conterrâneos o cassaram, negando seus votos), do tal do PPS, aderindo de malas e bagagens à direitona.



Me lembrei do nosso grande poeta Ferreira Gullar, maranhense, militante também do velho Partidão. Sabia de cor um seu poema, esqueci, aquele que dizia “clandestinamente a vida bate”, animava a gente na época dura da militância política sob a ditadura. Pois é, já li coisa de Gullar nos dias atuais elogiando o nefasto “vice-reinado” de Sarney no Maranhão e já li coisa dele metendo o pau na luta dos chavistas na Venezuela. Dá uma dor no coração...



Mas, apesar deles e de tantos, tantos mais, temos que seguir adelante, pois a luta dos povos continua, às vezes tropeça, cai, se levanta, cambaleia, se firma e segue adelante. Assim é a vida.