Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O EXÍLIO DE CASANOVA

(Veneza, 2 de abril de 1725 — Duchcov, Reino da Boémia, 4 de junho de 1798)

   
   Chamo-me Giacomo Casanova. Aqui no meio destes livros que tanto aprendi a amar, penso que sou feliz, pois tanto quanto amei as mulheres, as conquistas, as viagens, amei o saber, a ciência. E onde suas fontes senão nos livros? Depósito da erudição dos homens, do produto de suas mentes.

  Já me cansavam as intermináveis viagens à cata de aventuras e dinheiro, o que se diga, a bem da verdade, as ciências, a lucidez, a mente arejada, qual uma sala em que as grandes janelas estivessem sempre abertas aos ventos e a o sol ou a lua, ajudaram-me. Mas tudo que consegui tomou-me sabiamente o destino, como ocorre a todo imprudente.

   O convite do Conde W. veio resgatar uma vida, já em seu declínio, deu-me a segurança e a paz, apesar de não fazer justiça, em sua remuneração, aos meus dotes intelectuais. E que não me ouçam ouvidos maldosos, pois que não reclamo a indulgência do valoroso Conde, mas a fatalidade do meu arrebatamento a um exílio.

   Por outro lado, nunca minhas faculdades estiveram tão voltadas para a leitura e a introspecção. Sou um filósofo, e o digo sem importar-me com as opiniões e zombarias de pseudossábios, de invejosos, que me julgam, não pela retidão e imparcialidade de meu pensamento, mas pela minha vida passada, a que renunciei. Não sei bem se me julgam por uma verdadeira moral reflexiva e ética, ou se por inveja de minha outrora licenciosidade.

   Criticam-me também, e as críticas partem dos mesmos pseudossábios e seus asseclas, pelo meu vestir. Mas, pergunto eu, que posso fazer se nestas terras alemãs se vestem tão mal as pessoas? Não posso renunciar aqui as minhas vestimentas francesas e italianas. Basta-me a renúncia que faço dos alimentos que tanto saboreei e aprecio e que agora as lembranças gastronômicas assaltam-me, em pesadelos.

Tenho dúvidas se os criados alemães, que o Conde pôs a minha disposição são estúpidos, ou rebeldes, a ponto de, apesar de minha insistência, só servirem-me esses desagradáveis e insabores pratos natais. Se fosse jovem, e a esgrima ainda me servisse como em tempos passados, não ficariam sem respostas obedientes, as minhas ordens.

    Mas os livros que me rodeiam serão testemunhas de minha vitória final, paixões de minha existência a quem escolhi, ou escolheram-me, para companheiros de minhas últimas impressões sobre a terra.

    A vida assemelha-se a certas frutas exóticas dos trópicos, a quem, um amigo, às vezes fazia-me presentear, de indicações afrodisíacas, o que com a minha vida de aventureiro e conquistador, sempre me chegavam a bom tempo. Pois bem, essas frutas não serviam para o suco, apesar de não serem pequeninas, quando espremidas não se conseguia resultado satisfatório, a não ser com uma grande quantidade, sendo, pois, mais interessante comer-lhe a polpa saborosa. 

A vida da mesma forma, depois de saborearmos os seus melhores pedaços, o que reunimos no final? Se esquecermos das suas melhores passagens, dos seus prêmios, das nossas glórias – e o tempo faz com que esqueçamos, e que nos turvem as lembranças, principalmente aqueles pequenos prazeres ou as nuances dos corpos, sobramo-nos o nada: o desenho de um seio, um sorriso, um olhar, um carinho. As tão exuberantes nádegas da Marquesa C. escapam-me das lembranças – e o que se nos sobra, pergunto-me novamente? Nem ao menos um amor, alguém que na velhice nos acompanhe, sendo uma lembrança concreta, um troféu, de nossas conquistas. 

Talvez a Divina Providência, negando-me uma companheira na velhice, livrou-me de ranzinza mulher, que na juventude bela e sábia, na velhice passasse a amargurar-se pela perda da beleza e se tornasse acre, quitinosa. Planos maiores me reservou a decadência, creio, que o de aturar uma Xantipa.

   Não almejo mais nenhuma glória em vida, talvez rever Veneza, mas as cansativas viagens e seus custos me desestimulam as ideias. Aqueles poucos que têm acesso as minhas memórias sabem e compreendem, que não busco com elas glórias literárias, apesar de meu belo estilo, e sim um expurgo.

Minhas conquistas, a vida que vivi, são para mim, hoje, as suas lembranças, suplícios. Portanto que instrumento maior de humilhação, de punição do que a confissão pública de nossos pecados? Sou corajoso hoje com a pena, como já o fui com a espada, na juventude e maturidade.

    Mas a minha intenção, que faço questão de expor logo no início das memórias, servirão de apoio às chacoalhas de críticos e pseudo-filósofos. Lobos que se vestem de cordeiro, e que são os piores tormentos aos que pretendem regenerar-se moralmente. Quando os meus escritos atingirem o público – e para isso alguns amigos tratam de apresentarem-me a editores – serão públicas as minhas amarguras e públicas serão as chacoalhações.

    Poderia compor, se poeta fosse, nesta noite, a mais bela canção de amor. Mas presto-me apenas a deixar aqui registradas as impressões de um velho, carcomido pelo reumatismo, já no fim de sua caminhada. Angustiada caminhada. É noite. Atingi-me o cansaço.  Deixo as emoções e busco o descanso, o sono.


    (Itárcio Ferreira)