Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
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domingo, 4 de outubro de 2020

Formas de abençoar, poema de Alberto da Cunha Melo

 

Fique aqui mesmo, morra antes

de mim, mas não vá para o mundo.

Repito: não vá para o mundo,

que o mundo tem gente, meu filho.

 

Por mais calado que você

seja, será crucificado.

Por mais sozinho que você

seja, será crucificado.

 

Há uma mentira por aí

chamada infância, você tem?

Mesmo sem a ter, vai pagar

essa viagem que não fez.

 

Grande, muito grande é a força

desta noite que vem de longe.

Somos treva, a vida é apenas

puro lampejo do carvão.

 

No início, todos o perdoam,

esperando que você cresça,

esperando que você cresça

para nunca mais perdoá-lo.

 

Alberto da Cunha Melo

sexta-feira, 12 de maio de 2017

CASA VAZIA, poema de Alberto da Cunha Melo


Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos,

uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas
seu deserto particular,

ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

Alberto da Cunha Melo

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Lições Tardias, poema de Alberto da Cunha Melo


Não devemos aprender a esperar.
Devemos, sim,
esquecer as coisas esperadas.
Ainda que nos digam:
"espere-me, à tal hora, em tal jardim",
o jardim nos deve bastar.
Que a chegada daquilo
que nos fez esperar
seja algo normal naquele mundo,
como a morte de uma borboleta
ou a fuga de um lagarto nas pedras.
Se nada chega,
se ninguém aparece,
não notaremos a sua falta.

Alberto da Cunha Melo

segunda-feira, 10 de abril de 2017

RELÓGIO DE PONTO, poema de Alberto da Cunha Melo



Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor. 

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.

Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu. 

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas. 

Alberto da Cunha Melo

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

AVISO PRÉVIO, poema de Alberto da Cunha Melo


Por motivos inconfessáveis,
antes de ajustar o papel
na máquina, o mundo me chama
(aos gritos) mas vou devagar.

Teus escravos têm outro jeito
de caminhar sobre o tapete,
e se curvam de outra maneira
às tuas novas injunções.

Não participo dessa urgência
com que te vestes para o fim,
e não me deves mais a casa
alta, diante dos nascentes.

Preciso apenas de um espaço
onde gravar uma palavra:
só não a gravo no teu corpo
porque ele dura muito pouco.

Ó terra, terra, que serias
sem teus poetas pequeninos,
que bebem tanto e cavam tantas
fontes na tua superfície?


Alberto da Cunha Melo

segunda-feira, 23 de março de 2015

Um Cartão de Visitas



Moro tão longe, que as serpentes
morrem no meio do caminho,
Moro bem longe, quem me alcança
Para sempre me alcançará.

Não há estradas coletivas
com seus vetores, suas setas
indicando o lugar perdido
onde meu sonho se instalou.

Há tão somente o mesmo túnel
de brasas que antes percorri,
e que à medida que avançava
foi-se fechando atrás de mim.

É preciso ser companheiro
do Tempo e mergulhar na Terra,
e segurar a minha mão
e não ter medo de perder.

Nada será fácil: as escadas
não serão o fim da viagem;
mas darão o duro direito
de, subindo-as, permanecermos.


Alberto da Cunha Melo

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Para os Mestres, com desrespeito


Dizem que meu povo
é alegre e pacífico.
Eu digo que meu povo
é uma grande força insultada.
Dizem que meu povo
aprendeu com as argilas
e os bons senhores de engenho
a conhecer seu lugar.
Eu digo que meu povo
deve ser respeitado
como qualquer ânsia desconhecida
da natureza.
Dizem que meu povo
não sabe escovar-se
nem escolher seu destino.
Eu digo que meu povo
é uma pedra inflamada
rolando e crescendo
do interior para o mar.