Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
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quinta-feira, 4 de outubro de 2018

A LETRA "P", poema de Viviane Barroso


Na minha máquina de escrever faltava a letra ‘P’.
E eu ia substituindo a letra ‘P’
Por ‘T’, por ‘F’, por ‘V’.
O tempo passava e tudo que existia com ‘P’
Se desfez na minha máquina:
‘Paz’, ‘ponte’, ‘pássaro’.
No começo era triste não haver ali ‘palhaço’,
‘Pipoca’, ‘picadeiro’.
Mas aos poucos fui aprendendo a criar novas palavras
Me aproveitando da ausência da letra ‘P’.
E com o passar do tempo fui me sentindo um descobridor,
Um inventor, um desbravador.
Às vezes sim... Eu chorava a saudade da letra ‘P’.
(Chorava só um pouco, nunca fui bom em longos diálogos com a Dor)
Fui crescendo sem ‘pressa’.
E percebendo que essa falta se apequenava
à medida em que eu me transformava num grande mágico
De um circo só meu!
Sempre sem ‘pessoas’,
sem ‘plateia’.
Então, depois de muitos espetáculos mudos
realizados à sombra da minha lona,
pude finalmente compreender
que Poesia sempre se escreveu com ‘S’:
‘S’ de sonho, de sozinho, de silêncio.

Viviane Barroso

Este poema é parte integrante da Coletânea Sarau da Boa Vista
Lançamento da Coletânea Sarau da Boa Vista 
Rua do Hospício, em frete ao Teatro do Parque, Boa Vista, Recife – PE
Dia 27 de outubro, sábado,  às 19h
Mais informações: Sarau da Boa Vista no Facebook

domingo, 14 de agosto de 2016

Esqueletos de Zinco


E agora, pai?
E agora que a memória é água velha de açude,
E todos os peixes expõem seus esqueletos de zinco?
E agora, pai?
As conchas renegaram as pérolas
Antes de parirem a circunferência de sua luz.
Olha, pai!
Teu reflexo é silhueta sobre estas folhas secas
Que bóiam nas horas órfãs de correnteza.
Prepara-me tuas palavras
Na escravidão dessas águas
E como uma oferenda deposita-me aos pés.
Talvez santos e orixás
Possam segurar-nos as mãos.
Perdoando-nos do silêncio
Que teu abraço sacrificado
Jamais esmagou.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Divã, poema de Viviane Barroso



Há um medo escondido
No papel que a Mulher carrega
Nas bordas do seu vestido.
Há um quase existir
Preso nas suas costuras malfeitas.
Há uma identidade inaudível
Ressoando lúcida
Pelas pregas amassadas da sua saia
Querendo virar poema.
Há a nula pretensão
Dilacerada pelo silêncio
Abrigado debaixo da sua nudez
Pura e retalhada,
Quase nada,
Árvore ainda
Antes de ser divã.
Há na Mulher poesia.
Essa brisa imatura
Que balança suas vestes
Até que o Tempo possa desaparecer
Porque há nela o trauma do espelho.
E seu ventre cansado implora sossego
Numa voz submissa
Que se esvai querendo virar palavra.
Mulher que cala.
E atravessa toda ponte
Para tocar a linha reta de um horizonte
Onde caibam os versos de eternidade
De suas sempre esquecidas promessas.


Viviane Barroso

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Ciranda, poema de Viviane Barroso

Ciranda.
Não sei quantas mulheres
Trago escondidas
Entre uma e outra de mim.
Nem sei quantas delas
De fato se escondem
Ou são compelidas
(por mim a quem desconheço)
A preencherem o vácuo
Dessa comunidade rachada
Onde habitam as partes
De que sou parte.
Talvez eu nem faça parte
Daquilo que a mim
Se apresenta como inteiro.
E já não sei se rezo baixinho
Por tantas mortes de mim
Que sobre meus próprios ombros
Recaem,
Ou se grito em desespero
Pelas vidas de mim
Que comigo disputam uma dança
Nessa ciranda
De mulheres loucas.

Viviane Barroso