"Não tem porque interpretar um poema. O poema já é uma interpretação." (Mário Quintana)
Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
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quarta-feira, 15 de abril de 2020
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Campanha recria foto clássica para mostrar que Machado de Assis era negro
Via DCM
Do Globo:
Embora mais da metade da nossa população seja negra, milhões de jovens brasileiros passam todo o período escolar— e, por vezes, a vida — sem saber que um dos maiores (se não o maior) escritores do país, Machado de Assis, era como eles: negro. Por muitos anos, como se sabe, as imagens do grande escritor foram retocadas — chegando ao ponto de, em 2011, a Caixa escolher um ator branco para interpretá-lo num comercial (depois das críticas, o banco reconheceu o erro e refez o vídeo, agora com um ator negro).
Pois bem. Para reparar essa “injustiça histórica”, a Faculdade Zumbi dos Palmares e a agência Grey lançaram a campanha “Machado de Assis Real”. A partir desta imagem clássica à esquerda, que “muda a cor da sua pele, distorce seus traços e rejeita sua verdadeira origem”, a equipe da campanha criou a foto da direita, respeitando o tom de pele e os fenótipos negros do autor de, entre outros, “Dom Casmurro” (1899). Trata-se de uma “errata histórica feita para impedir que o racismo na literatura seja perpetuado e para encorajar novos escritores negros”, informa a campanha.
A ideia é que cada um entre no site, imprima a foto nova e cole sobre a antiga em seus livros. Há também um abaixo-assinado para que as editoras e livrarias “deixem de imprimir, publicar e comercializar livros em que o escritor aparece embranquecido”.
domingo, 9 de julho de 2017
Por que Machado de Assis é o maior escritor brasileiro?
Por Pâmela Carbonari
Se você está lendo este post é porque
está online, logo deve ter visto na sua página inicial de buscas do Google o
doodle feito em homenagem ao 178º aniversário de Machado de Assis. Nas
ilustrações do artista brasileiro Pedro Vergani, o precursor do realismo no
país aparece cercado por elementos que remetem à sua vida no Rio de Janeiro e
às cenas icônicas de suas obras-primas, como as batatas de Quincas Borba e Bentinho e Capitu, de Dom Casmurro.
“Em 1839, Joaquim Maria Machado de
Assis nasceu de uma família simples no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro,
Brasil. Ele era neto de escravos libertos, em um país onde a escravidão não foi
totalmente abolida mesmo 49 anos depois. Machado enfrentou muitos desafios por
ser mestiço no século 19, dentre eles acesso limitado à educação formal. Mas
nada disso o impediu de estudar literatura. Ao trabalhar como tipógrafo, ele
experimentou poemas, romances, romances e peças de teatro. ”, descreveu
a empresa na homenagem. O doodle à Machado de Assis foi elogiado nas
redes sociais sobretudo por ter representado o autor negro como de fato era e
não com a pele clareada como costuma ser retratado.
São
muitos os motivos que fazem de Machado o gênio das letras no Brasil. Ao
contrário da maioria dos grandes escritores do país, Joaquim Maria Machado de
Assis é de origem humilde, era neto de escravos alforriados, cresceu no Morro.
Se quase dois séculos depois pessoas negras ainda têm menos acesso à educação,
a primeira metade do século XIX estava longe de ser um período de igualdade
racial. Machado estudou em escola pública, não frequentou a universidade – o
que fez Joaquim virar Machado de Assis foi sua grande ambição intelectual.
Autodidata, ele aprendeu francês
quando trabalhou em uma padaria e, posteriormente, enquanto tipógrafo teve
contato com poesias, romances e outros tipos de literatura. Aos 16 anos já
participava de um grupo de escritores e, na mesma época, publicou seu primeiro
poema, Um Anjo.
Depois
disso, Machado explorou quase todos os gêneros literários e se a versatilidade
impressiona, a quantidade de material produzido também: escreveu nove romances,
200 contos, mais de 600 crônicas, diversas peças teatrais, cinco coletâneas de
poemas e sonetos. Sem contar que trabalhou como tipógrafo, revisor, funcionário
público e colaborou para revistas e jornais do Rio de Janeiro. O carioca
assistiu ao fim do Império e o surgimento da República – e isso não passa
despercebido na sua obra. Vale notar os reflexos dessa mudança política tanto
em seu trabalho como escritor quanto jornalista.
Assim que completou 40 anos, suas
crises de epilepsia pioraram e ele quase perdeu a visão, mas foi nesse período
que seus escritos ganharam ainda mais força: Machado foi fundamental para a
transição do romantismo para o realismo no país, tendo Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)
como marco inaugural. No entanto, falar de sua obra-prima apenas como um
primeiro passo para um movimento literário seria reducionista, para não dizer
burro. A começar pela dedicatória provocativa do livro escrito em primeira
pessoa por um narrador-defunto: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do
meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”.
O romance racional em que um morto
escracha a decadência da burguesia, seus vícios, mesquinharias e frustrações é
o ponto alto de Machado de Assis como Machado de Assis. A partir de Memórias Póstumas,
ele se consagrou como um profundo conhecedor da psique humana, explorando as
hipocrisias e vaidades de seus personagens em narrativas irônicas onde o
pessimismo se veste de bom-humor sem perder a profundidade e a oportunidade de
alfinetar a política e a sociedade da época.
Não
à toa, esse é seu livro mais reconhecido fora do país. Para a crítica Susan
Sontag, Machado é o melhor escritor da América Latina, superando o argentino
Borges; o poeta Beat Allen Ginsberg o descreveu como outro Kafka; Philip Roth o
comparou ao dramaturgo Samuel Beckett e Harold Bloom foi ainda mais longe
dizendo que Machado é o maior escritor negro de todos os tempos.
Apesar de Memórias Póstumas ter aberto as portas para o
realismo no país, ser um hino literário do Niilismo e de Quincas Borba também ser
uma obra de destaque, muitos leitores brasileiros são mais apegados ao hino da
desconfiança, Dom Casmurro (1899). O público nacional se
envolveu tanto mais nos olhos de Capitu que nas batatas humanitistas de Quincas
Borba que existe um boato de que o ciúme da obra tenha pinceladas
autobiográficas: alguns dizem que o filho do também escritor José de Alencar
foi fruto da traição de sua esposa com Machado de Assis. A história, assim como
a de Capitu e Escobar, amigo de Bentinho, nunca foi confirmada. Entre a
publicação desses dois grandes livros, Machado participou da fundação da
Academia Brasileira de Letras e, dado o reconhecimento que tinha entre seus
colegas, foi o primeiro presidente da ABL.
Em
69 anos, o Bruxo do Cosme Velho conseguiu abordar uma pluralidade de assuntos
tão densa e diversa quanto os gêneros que trabalhou. Caçoou dos jogos políticos
e do cinismo dos mais abastados, expôs as fraquezas, os arrependimentos e as
ilusões humanas com a mesma concisão com que tratou temas universais como o
amor, a ganância e o ciúme. Morreu na primavera de 1908 cercado de amigos e,
dali em diante, tornou-se ainda mais imortal. Difícil não concordar com Harold
Bloom.
domingo, 14 de maio de 2017
Machado de Assis é maior que Dickens, Balzac e Eça de Queiroz, diz crítico e escritor espanhol
Imagem de perfil do escritor Machado de Assis em 1904 (Foto: Divulgação)
Antonio Maura
fará conferência no Egito para falar do brasileiro. Sócio correspondente da
Academia Brasileira de Letras, ele diz que o autor ainda é ‘um grande
desconhecido’.
Publicado no G1 - 05/05/2017
Escritor e crítico espanhol, Antonio Maura
acredita que Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), o grande gênio da
literatura brasileira, não foi devidamente valorizado pela crítica e mereceria
ser reconhecido como um dos melhores escritores do século XIX.
“Acho que Machado é um dos grandes nomes do
século XIX. Não acredito que se compare nem a [Charles] Dickens, [Honoré de]
Balzac, Eça de Queiroz ou ao nosso [Benito Pérez] Galdós. São grandes
escritores, mas estão abaixo nos quesitos riqueza, crítica e análise da
sociedade e versatilidade. Não chegam aos pés”, diz.
Sócio correspondente da Academia Brasileira de
Letras, Maura está no Cairo para a conferência “El autor y sus máscaras: Una
aproximación a Cervantes y Machado de Assis” (“O autor e suas máscaras: Uma
aproximação de Cervantes e Machado de Assis)”, no Instituto Cervantes local.
Ele afirma que, fora de suas fronteiras, o
escritor brasileiro “é um grande desconhecido”. Em sua opinião, até mesmo no
Brasil os estudos sobre Machado de Assis “não refletiram bem” sua faceta de
grande crítico do sistema de sua época e da escravidão.
Para Maura, o cronista e poeta teve que recorrer
à ironia para falar “na surdina” de um tema que não podia ser encarado
abertamente por ele ser neto de escravos.
Um exemplo disso é “Memórias póstumas de Brás
Cubas” (1881). De acordo com Maura, a verdadeira intenção do autor é “colocar o
dedo na ferida” da sociedade e para isso se serve de uma sutil alegoria para
denunciar que o morto é o próprio Brasil.
A escolha do nome do protagonista, que coincide
com o início do nome do país, “não é à toa” para alguém tão “inteligente e cuidadoso
com a linguagem” quanto era Machado de Assis. Para Maura, “a crítica brasileira
foge” desta interpretação porque “não é fácil aceitar que seu país é um país
morto ou esteve morto”.
O crítico espanhol defende que as obras que o
romancista e dramaturgo escreveu depois de “Memórias póstumas”, como “Dom
Casmurro” ou “Quincas Borba”, são dos livros “mais importantes de sua geração,
não apenas do Brasil, mas de todo o mundo”.
Segundo ele, alguns autores de língua espanhola,
como Jorge Edwards, Julián Ríos e Carlos Fuentes, destacaram a importância de
Machado de Assis, mas o mestre brasileiro ainda carece do merecido
reconhecimento mundial.
segunda-feira, 18 de julho de 2016
Coisas fundamentais que aprendi com Machado de Assis, por Mariana Basílio

1)
A arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal.
2)
O tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo.
3)
Muitas coisas melhor se diz calado, pois o silêncio não tem
fisionomia, mas as palavras sim têm muitas faces.
4) Tudo
é aliado do homem que sabe querer.
5) Há
amigos de oito dias e indiferentes de oito anos.
6)
Esquecer é uma necessidade.
7)
Defeitos não fazem mal, quando há vontade e poder de os corrigir.
8) O
olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve
de eco ao silêncio.
9) Há
pessoas que não sabem, ou não se lembram, de raspar a casca do riso
para ver o que há dentro.
10) Cada
criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para
fora, outra que olha de fora para dentro.
segunda-feira, 6 de junho de 2016
O primeiro parágrafo de Dom Casmurro, de Machado de Assis

"Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho
Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de
vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos
ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode
ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava
cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele
interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso."
Machado de Assis
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
10 de novembro, crônica de Machado de Assis
Venho pedir o seu voto
na próxima eleição para deputado.
– Mas, com o senhor,
fazem setenta e nove candidatos, que...
– Perdão: oitenta. Que
tem isto? A reforma eleitoral deu a cada eleitor toda a independência, e até
fez com que adiantássemos um passo. Em rigor, e pelo antigo sistema, há dois
modos de fazer eleição – ou por designação de um chefe ou por acordo dos eleitores
em reuniões públicas. Não contesto que o primeiro modo dá a unidade e o segundo
a liberdade do voto. Nós, porém, inventamos um terceiro meio mais próprio de
família, mais adequado aos sentimentos bons e sossegados: – a candidatura de
paróquia, de distrito, de rua, de meia rua, de casa e de meia casa... Quem é
que não tem um ou dois companheiros de escritório ou de passeio?
– Bem; pede-me o voto.
– Sim, senhor.
– Responda-me
primeiro. Que é que fazia até agora?
– Eu...?
– Sim, trabalhou com a
palavra ou com a pena, esclareceu os seus candidatos sobre as questões que lhe
interessam, opôs-se aos desmandos, louvou os acertos...
– Perdão, eu...
– Diga.
– Eu não fiz nada
disso. Não tenho que louvar nada, não sou louva-deus. Opor-me! é boa ! Opor-me
a quê ? Nunca fiz oposição.
– Mas
esclareceu...
– Nunca, senhor! Os
lacaios é que esclarecem os patrões ou as visitas: não sou lacaio. Esclarecer!
Olhe bem para mim.
–Mas, então, o que é
que o senhor quer?
– Eu quero ser
deputado.
– Para quê?
– Para ir à câmara
falar contra o ministério.
– Ah! é contra o
Dantas?
– Nem contra nem pró.
Quem é o Dantas? eu sou contra o ministério... Digo-lhe mesmo que a minha ideia
é ser ministro. Não imagina as cócegas com que fico em vendo um dos outros de
ordenanças atrás... Só Deus sabe como fico!
– Mas já calculou, já
pesou bem as dificuldades a que...
– O meu compadre Z...
diz que não gasta muito.
– Não me refiro a
isso; falo do diploma, o uso do diploma. Já pesou...
– Se já pesei? Eu não
sou balança.
– Bem, já calculou...
– Calculista? Veja lá
como fala. Não sou calculista, não quero tirar vantagens disto; graças a Deus
para ir matando a fome ainda tenho, e possuo braços. Calculista!
– Homem, custa-me
dizer o que quero. O que eu lhe pergunto é se, ao apresentar-se candidato,
refletiu no que o diploma obriga ao eleito.
– Obriga a falar.
– Só falar?
– Falar e votar.
– Nada mais?
– Obriga também a
passear, e depois se torna a falar e votar. Para isto é que eu vinha pedir-lhe
o voto, e espero que não me falte.
– Estou pronto, se o
senhor me tirar de uma dificuldade.
– Diga, diga.
– O X. pediu-me ontem
a mesma coisa, depois de ouvir as mesmas perguntas que lhe fiz, às quais
respondeu do mesmo modo. São do mesmo partido, suponho!
– Nunca: o X. é um
peralta.
– Diabo! ele diz a
mesma coisa do senhor.
domingo, 6 de dezembro de 2015
Afinal, Capitu traiu Bentinho?

Por Alexandre De
Santi, via Superinteressante
Bento Santiago,
o narrador do romance Dom Casmurro, é um advogado de meia-idade, herdeiro da elite fluminense,
que decide contar suas memórias, em especial a suposta traição de Capitu, sua
mulher, com Escobar, seu melhor amigo. Bentinho, como era mais conhecido, passa
a ter certeza do envolvimento amoroso entre os dois no velório do amigo, em que
percebe Capitu olhando fixamente para o morto. A partir daí, começa a enxergar
sinais do adultério em todo lugar, até no rosto do próprio filho Ezequiel, que
seria parecido com Escobar.
Mas nem Bentinho
nem Machado oferecem provas da traição. O leitor só tem acesso ao depoimento do
marido. E a ausência do contraponto de Capitu fez do livro material perfeito
para um eterno e delicioso debate sobre o que "de fato" teria
ocorrido entre a mulher e Escobar - uma improvável caçada pela verdade em uma
obra de ficção. No início, muitos críticos literários aceitaram a versão de
Bentinho sem muito questionamento. Parte do viés bentinista se explica pelo
perfil da sociedade do início do século 20, ainda mais machista do que hoje.
Como o personagem gozava de posição social de respeito, a visão do marido era
suficiente para muitos. Bentinho é convincente. Em várias partes, se dirige
diretamente ao leitor, como se estivesse conversando com um amigo, confessando
sua tristeza. Difícil não se apiedar do tristonho (ou amargurado, ou casmurro)
Bento Santiago.
Ao longo das
décadas, porém, a sociedade mudou, assim como a interpretação do livro. As
mulheres ganharam direitos e liberdades. Aos poucos, Capitu ganhou defensores
e, sobretudo, defensoras. Uma pergunta ficou cada vez mais forte: por que
devemos acreditar no homem rico e branco? Tudo o que estava oculto na obra
emergiu definitivamente nos anos 60, quando uma crítica literária americana
confrontou Bentinho no mundo acadêmico pela primeira vez. Em O "Otelo Brasileiro de Machado
de Assis", lançado em 1960, Helen Caldwell chega a sugerir que Capitu
não traiu Bentinho. O crescente poder da mulher deu uma nova leitura ao
romance, uma interpretação que coloca Capitu como uma vítima de um marido
neurótico. "Alguém já afirmou, em tom de pilhéria, que, se ela não traiu
Bentinho, devia ter traído", diz o professor de literatura Marcelo Frizon.
Na visão de Helen Caldwell, Bentinho é como Otelo, o personagem de Shakespeare
que mata a mulher, Desdêmona, uma inocente, após ser convencido de uma traição
a partir de intrigas do vingativo Iago. As múltiplas interpretações revelam por
que a obra continua sendo adorada por leitores e reverenciada por críticos: ela
guarda mistérios insolucionáveis. Dom Casmurro é um livro de enigmas.
O romance
obrigou críticos e leitores a prestar mais atenção num aspecto decisivo do
texto literário: o narrador. Parece óbvio pensar que o relato de uma pessoa é
um relato parcial sobre as coisas, mas não é tão evidente assim quando se está
em pleno deleite de uma obra-prima - ainda mais quando o narrador tem um texto
elegante, como um lorde inglês
tomando chá da tarde (que merda),
e está precisando de um ombro amigo. O leitor acaba sendo fisgado pelo
envolvente discurso de Bentinho e nem se dá conta de que só está vendo um lado
da história. Esse é um dos trunfos de Dom Casmurro, mas está longe de ser o
único.
(...) Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas...
O professor de
literatura Sergius Gonzaga diz que há dois textos no romance. Um é aquele em
que Bentinho afirma a traição. Há um outro em que o próprio Bentinho solta
pistas de que tudo não passa de neura da sua cabeça. Essa contraprova é
apresentada quando o narrador afirma que Capitu era muito parecida com a mãe de
Sancha, mulher de Escobar, o suposto amigo traidor. Ou seja, a semelhança entre
o filho de Bentinho e o melhor amigo poderia vir daí - e não de um adultério.
São passagens que revelam que Machado semeou a discórdia de propósito entre
leitores. Casmurro se tornou uma ode às coisas não ditas, às entrelinhas, aos
discursos ocultos (muitas vezes, mais importantes do que as declarações
explícitas).
Dom Casmurro é
também considerado um retrato de como funcionava a sociedade na metade do
século 19. Na época, apenas 20% da população brasileira era alfabetizada. A
obra disseca a nobreza e a elite (onde Bento e sua família se encaixavam), os
homens livres para quem trabalho era algo malvisto (a labuta era considerada
coisa de escravos) e os escravos, que não têm tanta participação no livro.
Além disso, a
Capitu descrita por Bentinho é uma rebelde que diz o que pensa e que dissimula
com naturalidade, como na passagem em que o ex-marido mostra como ela se saiu
bem de uma situação em que eles foram pegos namorando escondidos e que deixara
Bentinho desconcertado. Essas atitudes seriam impensáveis a uma mulher oriunda
de uma classe social baixa, num Brasil ainda escravocrata. "É uma
narrativa que aponta o início da rebelião da mulher diante de uma sociedade
patriarcal", comenta o professor Marcelo Frizon. Machado de Assis previu
uma mudança que viria a tomar forma meio século depois.
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