"Não tem porque interpretar um poema. O poema já é uma interpretação." (Mário Quintana)
Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
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quarta-feira, 24 de abril de 2019
quinta-feira, 6 de dezembro de 2018
O mundo de Deus, por Mario Quintana
Aquele astronauta
americano que anunciou ter encontrado Deus na lua é no
fim de contas menos
simplório do que os primeiros astronautas russos, os quais
declararam, ao voltar,
não terem visto Deus no céu.
Porque, se Deus é paz
e paz é silêncio afinal, deve Ele estar mesmo muito mais
na lua do que nas
metrópoles terrenas.
E, pelo que me toca, a
verdade é que nunca pude esquecer estas palavras de um personagem de Balzac:
“O deserto é Deus sem
os homens.”
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
Se o poeta falar num gato, poema de Mario Quintana
num
vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade…
se falar numa esquina mal e mal iluminada…
numa antiga sacada… num jogo de dominó…
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que morriam de verdade…
se falar na mão decepada no meio de uma escada
de caracol…
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá… Que importa?
e nunca chegou à cidade…
se falar numa esquina mal e mal iluminada…
numa antiga sacada… num jogo de dominó…
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que morriam de verdade…
se falar na mão decepada no meio de uma escada
de caracol…
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá… Que importa?
Todos
os poemas são de amor!
Mario Quintana
quarta-feira, 24 de maio de 2017
A luta amorosa com as palavras, por Mario Quintana
Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal
coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu
sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha
vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula
que não fosse uma confissão. Há! Mas o que querem são detalhes, cruezas,
fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se
está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a
eternidade.
Nasci do rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima
prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava
pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill
nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton! Excusez
du peu.
Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto.
Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha
altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta
satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão,
introspectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por
não poderem ser chatos como os outros?
Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese.
Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das
palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de
farmácia durante 5 anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de
Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo – que bem sabem (ou
souberam), o que é a luta amorosa com as palavras.
Mario Quintana
Revista “Isto É” de 14/11/1984.
segunda-feira, 1 de maio de 2017
quinta-feira, 20 de abril de 2017
Sonhar é acordar-se para dentro, poema de Mário Quintana
Sonhar
é acordar-se para dentro:
de súbito me vejo em pleno sonho
e no jogo em que todo me concentro
mais uma carta sobre a mesa ponho.
Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!
E quase que escurece a chama triste...
E, a cada parada uma pancada,
o coração, exausto, ainda insiste.
Insiste em quê? Ganhar o quê? De quem?
O meu parceiro... eu vejo que ele tem
um riso silencioso a desenhar-se
numa velha caveira carcomida.
Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce...
Como também disfarce é a minha vida!
de súbito me vejo em pleno sonho
e no jogo em que todo me concentro
mais uma carta sobre a mesa ponho.
Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!
E quase que escurece a chama triste...
E, a cada parada uma pancada,
o coração, exausto, ainda insiste.
Insiste em quê? Ganhar o quê? De quem?
O meu parceiro... eu vejo que ele tem
um riso silencioso a desenhar-se
numa velha caveira carcomida.
Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce...
Como também disfarce é a minha vida!
Mário Quintana
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
quinta-feira, 21 de abril de 2016
Torre Azul, poema de Mario Quintana

É
preciso construir uma torre
- uma torre azul para os suicidas.
Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
É preciso construir-lhes um túnel
- um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto-mar perdida.
- uma torre azul para os suicidas.
Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
É preciso construir-lhes um túnel
- um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto-mar perdida.
É
preciso construir uma torre…
É preciso construir um túnel…
É preciso morrer de puro,
puro amor!…
É preciso construir um túnel…
É preciso morrer de puro,
puro amor!…
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Os Poemas, poesia de Mario Quintana
Os poemas são pássaros
que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…
sábado, 7 de novembro de 2015
A Rua dos Cataventos, poema de Mario Quintana
Da vez
primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Bilhete com endereço (e nesse tempo ainda não havia a internet...), poema da Mario Quintana
Num amor à distancia,
Num tele-amor?!
Num amor de longe...
Eu sonho é um amor pertinho
Um amor juntinho...
E, depois,
Esse calor humano é uma coisa
Que todos - até os executivos - têm.
É algo que acaba se perdendo no ar,
No vento
No frio que agora faz...
Escuta!
O que eu quero,
O que eu amo,
O que desejo em ti,
É o teu calor animal!...
Mario Quintana
quarta-feira, 6 de maio de 2015
terça-feira, 5 de maio de 2015
Vinte e Um Anos Sem Mario Quintana

O gaúcho Quintana é sem sombra de dúvidas um dos maiores poetas brasileiros. Jornalista de profissão, nunca se casou nem deixou filhos. Viveu grande parte da sua vida no Hotel Majestic , em Porto Alegre, hoje tombado pelo Patrimônio do Estado e transformado em Casa de Cultura Mario Quintana. Faleceu na data de hoje em 1994, tendo nascido em 1906.
O nome ele sempre escreveu sem acento, e por três vezes concorreu a uma cadeira na ABL não conseguindo os votos necessários.
Isso jamais impediu de ser hoje dos mais consagrados e conhecidos literatos do País.
Trabalhava no Correio do Povo, que quando faliu ele perdeu seu quarto no Hotel Majestic e com estoicismo, indo morar num, quarto menor no Hotel Royal disse com estoicismo uma das mais belas frases poéticas do País: "Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas".
Deixou uma fantástica obra literária. Amo um de seus menores poemas, o “Poeminha do Contra”:
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
quinta-feira, 2 de abril de 2015
As mãos de meu pai

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
- como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas…
essa chama de vida – que transcende a própria vida…
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
- como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas…
essa chama de vida – que transcende a própria vida…
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.
Mário Quintana
segunda-feira, 9 de março de 2015
BILHETE

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
Mário Quintana
segunda-feira, 2 de março de 2015
Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas..., poema de Mário Quintana
"Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas.
Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha,
nem desconfia que se acha conosco desde o início
das eras. Pensa que está somente afogando problemas
dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar
inquietação do mundo!"
Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha,
nem desconfia que se acha conosco desde o início
das eras. Pensa que está somente afogando problemas
dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar
inquietação do mundo!"
Mário Quintana
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
DAS UTOPIAS

Se as coisas
são inatingíveis... ora!
Não é motivo
para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença
distante das estrelas!
Mário Quintana
quinta-feira, 5 de junho de 2014
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Três vezes Quintana
Uma vez:
"Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando problemas dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo!"
Duas:
"Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...Eu passarinho!"
"Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha, nem desconfia que se acha conosco desde o início das eras. Pensa que está somente afogando problemas dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar inquietação do mundo!"
Duas:
"Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...Eu passarinho!"
Três:
"Mas o que quer dizer este poema? – perguntou-me alarmada a boa senhora.
E o que quer dizer uma nuvem? – respondi triunfante.
Uma nuvem – disse ela – umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo…"
E o que quer dizer uma nuvem? – respondi triunfante.
Uma nuvem – disse ela – umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo…"
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