Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

terça-feira, 26 de março de 2019

Daíra Saboia - "Pesadelo"


Composição de Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro.

Soneto do amor total, poema de Vinícius de Moraes


Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
Vinícius de Moraes

quarta-feira, 20 de março de 2019

Ney Matogrosso - "Sensual"

03 poemas de Antônio de Pádua




O vira-lata é todo zelo
Não desgruda do carroceiro
Que nem pulga no seu pelo

*****

Na mente do trouxa
Há um parafuso a menos
Ou uma porca frouxa?

*****

Encontrarei o sentido da vida
Entregue à própria sorte
Num leito de morte?


Antônio de Pádua

sexta-feira, 8 de março de 2019

POEMA DA DESPEDIDA, por Frei Betto

Lula e seu netinho Arthur. Foto: Ricardo Stuckert

Para Arthur Lula da Silva

Você pode derramar lágrimas porque ele se foi
Ou pode se alegrar por ele ter vivido.
Você pode fechar os olhos e desejar que ele volte
Ou abrir os olhos e ver tudo que ele deixou.
Seu coração pode estar vazio porque agora você não pode vê-lo
Ou ficar repleto do amor que compartilharam.
Você pode voltar as costas ao futuro e viver do passado
Ou ser feliz no futuro por causa do passado.
Você pode se lembrar dele e de que ele se foi
Ou cultivar com carinho a sua memória para que ele permaneça.
Você pode chorar e se fechar, isolar-se e se queixar
Ou fazer o que ele gostaria: sorrir, abrir os olhos e prosseguir.
Frei Betto

sexta-feira, 1 de março de 2019

Júlia Vargas - "Desabafo"

Meu poema preferido, poema de Carlos Drummond de Andrade



Outro dia me perguntaram qual era meu poema preferido
Não pude responder
Ninguém ousaria entender

Já li Camões, Fernando Pessoa
Cora Coralina, Vinícius de Moraes
Hilda Hilst, minha conterrânea
Augusto dos Anjos, Paulo Leminski
Manuel Bandeira, Drummond
Gonçalves Dias, Olavo Bilac

Mas meu poema preferido não é de nenhum desses autores
E não está em nenhum livro

Meu poema preferido está fora dos padrões literários
É um poema escrito em linhas tortas
Sem métrica, sem regras
Sem ritmo, sem melodia

Meu poema preferido não precisa rimar pra ser bonito
Ele não tem estrofes
Tão pouco um título

Meu poema preferido é poema só por existir
E não tem um dia sequer que eu não o recite

Meu poema preferido é composto por boas lembranças
Muitos sentimentos
É de carne e osso
E vive em meus pensamentos

Meu poema preferido é livre
Tem sobrenome, endereço, RG
E um par de olhos negros
Que eu não consigo me esquecer

Pudera eu declama-lo pra todo mundo ouvir
Gritaria em alto e bom tom:
“Esse poema é meu, só meu e de mais ninguém!”
Mas esse poema é tão dele
Que prefiro lê-lo sozinho
E interpretar cada verso
Com a certeza de que ele é único nesse universo

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Família Passos - "Marcha do General | Cuidado Capitão"

Família Passos - "Marchinha do 'Reaça' pobre de direita"

Família Passos - "Talquey Talquey A culpa é do PT"

CONHEÇA A FAMÍLIA PASSOS, QUE FAZ SUCESSO COM MARCHINHAS POLÍTICAS NO YOUTUBE


Conheça, nesta entrevista concedida a Carlos Hortmann, para o 247, uma família que na sua intimidade tem por hábito fazer paródias musicais por "tudo e por nada", que tem como forma de vida o deboche e a ironia e que ficou conhecida nas redes sociais recentemente com a marchinha de carnaval "Talquey Talquey A culpa é do PT".

Por Carlos Hortmann, especial para o 247

Uma família que na sua intimidade tem por hábito fazer paródias musicais por "tudo e por nada", que tem como forma de vida o deboche e a ironia. Todavia, ao publicarem um vídeo numa rede social, a "Família Passos" ganhou uma notoriedade retumbante com a marchinha de carnaval "Talquey Talquey A culpa é do PT", mas não parou por aí, depois vieram outras melodias e letras debochadas que colaram no ouvido de muitos brasileiros, como: "Marchinha lava-jato, morô?!", "Marchinha do 'Reaça' pobre de direita" entres outros sucessos das redes. Por meio da música e letras afiadas eles conseguem fazer sínteses políticas que nenhum politólogo conseguiu: "cuidado capitão com a bota do Mourão", ou "O rapaz do lava-jato me enganou só lavou o lado esquerdo do meu carro".

Essa família criativa e musical, que reside na "república de Curitiba", concedeu uma entrevista exclusiva ao Brasil 247. Dessa forma, os nossos leitores poderão conhecer um pouco mais da matriarca Marília, do pai Nilson Reni e das filhas Isis e Lígia Passos.
247 - A família toda trabalha profissionalmente com música?

Isis: sou funcionária pública, porém desde pequena desfrutei de atividades artísticas em casa, visto que a minha mãe é professora de música e a minha irmã é violinista. Mas também participei em eventos musicais de MPB em Curitiba.
Lígia: sou violinista e professora num projeto social. Trabalhamos com crianças financeiramente e psicologicamente vulneráveis, e a partir dessa realidade podemos constatar cotidianamente o quanto a arte é transformadora na vida dessas crianças (voz emocionada).
Marília: sou professora de português e música, só que agora aposentada. Também fui regente de coros infantis e de empresas. Atuo como compositora e arranjadora, tanto que no ano de 2008 fui finalista num concurso de Marchinhas de Carnaval do Rio de Janeiro: "O ET de Copacabana".
Nilson Reni: trabalhei como metalúrgico desde 1977 até me aposentar, mas também atuei uma época como músico na noite e em bandas de carnaval. A nossa família uma época montou um grupo de Música Popular Brasileira (MPB) aqui em Curitiba.
247 – A vossa família tem um histórico de militância política?

Família Passos: grande parte da família nunca teve uma atividade político partidária, mas sempre estivemos comprometidos com os valores progressistas e pelo fim da desigualdade social. Por outras palavras, não somos ligados a nenhum partido.
Nilson Reni: eu particularmente desde muito cedo lutei contra a ditadura militar brasileira, ainda no Rio Grande do Sul. Hoje trabalho no Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, já fiz muitas assembleias em porta de fábrica.
247 – Quando surgiu a ideia de fazerem as marchinhas com temáticas políticas?

FP: começamos a brincar em família quando começou o período eleitoral. Como dissemos anteriormente, a ironia faz parte do nosso modo de ser em família. Tiramos sarro de tudo. Mas ocorreram várias situações que nos puseram a pensar sobre a atual conjuntura, principalmente esses movimentos reacionários de extrema-direita com um discurso anti-cultura em geral: "artista é tudo vagabundo". O exemplo mais impactante desse movimento anti-artista foi os ataques e agressões que o Chico Buarque sofreu, artista de uma importância ímpar na nossa cultura recente. E esses movimentos reacionários foram se alastrando para muitos campos, como a literatura, as artes plásticas e até a educação. Pois estão a tentar criminalizar até uma figura como Paulo Freire, o pensador brasileiro mais lido em universidades estrangeiras. À volta de todo esse contexto é que começamos a tratar de política em nossos convívios familiares, por meio da música e do deboche.
247 – Como reagiram ao perceber que da noite para o dia o vosso vídeo ("Talquey Talquey A culpa é do PT") viralizou na internet?

FP: foi inesperado! Era mais uma brincadeira de família, pois foi uma música que compusemos em meia hora e achamos que ficou "legal", então decidimos colocar no Facebook para os nossos amigos se divertirem também. Muitos desses amigos começaram a partilhar em grupos e em pouco tempo percebemos que o vídeo estava a viralizar. Acreditamos que o aumento de visualizações se deu quando o youtuber, Felipe Neto, divulgou o nosso vídeo nas suas páginas de rede social. Realmente nós não estávamos preparados para tanta repercussão.
247– Vocês tinham a noção de que iriam conseguir furar a bolha da polarização política vigente no Brasil?

FP: Isso foi algo que não premeditamos. Mas realmente ficamos um pouco espantados pelo fato de muitas pessoas que se dizem de direita partilharem as nossas marchinhas, principalmente o primeiro vídeo. Muitas dessas pessoas não perceberam a ironia que estava por detrás de cada frase, por exemplo, "o bozo é mito", ou que nós mesmos estávamos nos chamar de "corja vagabunda de artista" como uma forma de debochar o próprio Bolsonaro.
Gostaríamos de ressaltar que quem nos fornece todas essas ideias de ironia e gozação são a própria turma do Bolsonaro. Vejamos por exemplo, "Jesus na goiabeira", "Mamadeira de piroca" e entre muitas outras. Não é difícil de criarmos porque está tudo tão pronto que só nos resta encaixar os textos nas rimas e depois colocarmos a música. Mas é evidente que gostamos de colocar uma pitada de acidez nas letras: "mamãe eu vou comprar uma arma". Risos!
247 – Vocês têm a consciência de que estavam a fazer um trabalho de politização?

FP: nós sabíamos que ao ironizarmos algumas situações políticas recentes, estávamos a cutucar no atual governo. Nós não nos identificamos com esse governo reacionário, com um presidente que propaga o ódio e a violência como forma de vida. Um governo que olha para os artistas como seus inimigos.
Muitos blocos de carnaval de todo o Brasil, que têm um histórico com pensamento da esquerda ou de resistência nos contactaram a fim de pedir as músicas para serem tocas no carnaval. Nesse sentido podem ser utilizadas como forma de politizar a nossa atual situação política.
Acesse aqui a página da família no Facebook e confira alguns vídeos da Família Passos.