Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

domingo, 10 de junho de 2018

Europa, França e Bahia, poema de Carlos Drummond de Andrade


Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.
Paris. A torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo.
Os cais bolorentos de livros judeus
e a água suja do Sena escorrendo sabedoria.

O pulo da Mancha num segundo.
Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes nas docas.
Tarifas bancos fábricas trustes craques.
Milhões de dorsos agachados em colônias longínquas formam um tapete
para Sua Graciosa Majestade Britânica pisar.
E a lua de Londres como um remorso.

Submarinos inúteis retalham mares vencidos.
O navio alemão cauteloso exporta dolicocéfalos arruinados.
Hamburgo, embigo do mundo.
Homens de cabeça rachada cismam em rachar a cabeça dos outros
dentro de alguns anos.
A Itália explora conscientemente vulcões apagados,
vulcões que nunca estiveram acesos
a não ser na cabeça de Mussolini.
E a Suiça cândida se oferece
numa coleção de postais de altitudes altíssimas.

Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa.

Não há mais Turquia.
O impossível dos serralhos esfacela erotismos prestes a declanchar.
Mas a Rússia tem as cores da vida.
A Rússia é vermelha e branca.
Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam o filme bolchevista
e no túmulo de Lenin em Moscou parece que um coração enorme
está batendo, batendo mas não bate igual ao da gente...

Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a "Canção do exílio".
Como era mesmo a "Canção do exílio"?
Eu tão esquecido de minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
onde canta o sabiá.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 31 de maio de 2018

O Mal e o Sofrimento, poema de Leandro Gomes de Barros




Se eu conversasse com Deus
Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?

Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?

Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?

Leandro Gomes de Barros

domingo, 27 de maio de 2018

E agora, mané?, por Elika Takimoto

Aroeira

E agora, mané?
A gasolina acabou,
a pobreza aumentou,
o gás subiu,
o patrão se irritou,
e agora, mané?
e agora, você?
você que não passou fome
que zombou dos pobres,
você que é perverso
que trama, “protesta”
e agora, mané?

Não respeita mulher,
Não respeita o discurso,
Não respeita carinho,
já não pode receber,
já não pode gastar,
divertir já não pode,
a noite esfriou,
o uber não veio,
o táxi não veio,
o motorista não veio
não veio a empatia.

A democracia acabou
A democracia sumiu
A democracia mofou,
e agora, mané?

E agora, mané?
Sua estúpida palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
seu raciocínio furreca,
sua palavra de agouro,
seu neurônio de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com o celular na mão
se faz de morta,
não há quem lhe suporta;
quer correr para conversar,
mas a paciência acabou;
quer ir para Miami,
Vôos não há mais!
Mané, e agora?

Se você pensasse,
se você algo lesse,
se você lembrasse
das aulas pertinentes,
se você ouvisse,
se você raciocinasse,
se você estudasse...
Mas você não acorda,
você é burro, mané!

Com o exército na rua
qual capitão do mato,
sem democracia,
sem algo que usufrua
para ostentar,
sem cavalo preto
Para fugir a galope,
você pasta, mané!
Mané, até quando?

(Revisitando Carlos Drummond - E agora, José?)