Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Se houvesse degraus na terra..., poema de Herberto Helder



Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

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Por Edson Caldas
Você nem precisa estar em época de vestibular: se curte literatura, estudá-la é o máximo. E que tal fazer isso sem sair de casa? Diversas instituições e até professores independentes disponibilizam vídeos gratuitos na web. Selecionamos sete alternativas para você:
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Introdução à Teoria Literária, Yale
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Palavras, palavras, palavras!, TED
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Cervantes' Don Quixote, Yale
As aulas comandadas por Roberto González Echevarría facilitam uma leitura aprofundada de Don Quixote, situando seu contexto artístico e histórico. Em inglês.

Robyn Adele Anderson - "Smells Like Teen Spirit"

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Fale com ela

SOLO DE PIANO, poema de Nicanor Parra



Já que a vida do homem não é mais que uma ação a distância
Um pouco de espuma que brilha no interior de um copo;
Já que as árvores não são senão móveis que se agitam.
Não mais que cadeira e mesas em movimento perpétuo;
Já que nós mesmos não somos mais que seres
(Como o próprio deus não é outra coisa senão deus);
Já que não falamos para ser escutados
Senão para que os outros falem
E o eco é anterior às vozes que o produzem;
Já que nem sequer temos o consolo do caos
No jardim que boceja e se enche de ar,
Um quebra-cabeças que é preciso resolver antes de morrer
Para poder ressuscitar depois tranquilamente
Quando usamos a mulher em excesso;
Já que também existe um céu no inferno,
Deixei que também eu faça algumas coisas:

Eu quero fazer um ruído com os pés
E quero que minha alma encontre seu corpo. 

Nicanor Parra

Tradução de Antonio Miranda

Sartre Por Ele Mesmo (Sartre par lui même)

Sons de Porto Rico - Calle 13 (2)


Via Cidadã do Mundo

Por Athena *

A música do vídeo acima é uma homenagem a Filiberto Ojeda Ríos, lutador pela independência de Porto Rico. O líder independentista foi brutalmente assassinado, em 2005, pelo FBI, a polícia federal do país que se gaba de ser o maior defensor dos direitos humanos, da liberdade e democracia...

* Saudades, amiga.

domingo, 4 de dezembro de 2016

A morte é apenas uma ilusão: nós continuamos a viver em um universo paralelo


Por quanto tempo filósofos, cientistas e religiosos têm ponderado o que acontece após a morte? Existe vida após a morte, ou nós simplesmente desaparecemos no grande desconhecido?

Há também uma possibilidade de que não existe tal coisa como geralmente definimos como a morte.

Uma nova teoria científica sugere que a morte não é o evento terminal que pensamos.

Um tempo atrás, os cientistas relataram que encontraram a primeira evidência de universo paralelo.

Esta descoberta nos leva a um assunto instigante chamado de “Biocentrismo” Robert Lanza, MD, cientista, teórico e autor de  “O biocentrismo” – Como vida e consciência são as chaves para entender a verdadeira natureza do Universo, pensa que há muitas razões pelas quais não vamos morrer.

Para ele, a morte não é o fim, como muitos de nós pensamos. Acreditamos que vamos morrer, porque é o que nos foi ensinado, Robert Lanza diz em seu livro.
Será que você continuar a viver em um universo paralelo?

Há muitas experiências científicas que questionam seriamente o termo morte, tal como a conhecemos.

De acordo com a física quântica certas observações não podem ser previstas com certeza. Em vez disso, há uma gama de possíveis observações cada uma com uma probabilidade diferente.

A interpretação “de muitos mundos”, afirma que cada uma dessas observações possíveis corresponde a um universo diferente, o que é geralmente chamado de “multiverso”. Robert Lanza tomou estas teorias ainda mais interessantes.

Ele acredita que “há um número infinito de universos, e tudo o que poderia acontecer ocorre em algum universo.


Sua energia nunca morre


A morte não existe em qualquer sentido real nesses cenários. Todos os universos possíveis existem simultaneamente, independentemente do que acontece em qualquer um deles. Embora corpos individuais estão destinados a auto-destruição, o sentimento vivo – o “Quem sou eu?” – É apenas uma fonte de 20 watts de energia operando no cérebro. Mas esta energia não desaparece com a morte. Uma das mais seguras axiomas da ciência é que a energia nunca morre; ele pode ser criada nem destruída “. Esta energia pode transcender de um mundo para outro.

A importância da consciência


“Considere o princípio da incerteza, um dos aspectos mais famosos e importantes da mecânica quântica. Experimentos confirmam que está integrada no tecido da realidade, mas ela só faz sentido de uma perspectiva biocêntrica. Se há realmente um mundo lá fora, com partículas saltando ao redor, então devemos ser capazes de medir todas as suas propriedades. Mas nós não podemos. Por que isso deveria importar a uma partícula que você decidir para medir?

A morte pode não ser verdadeira em todos os...

Considere a experiência da dupla fenda: se um “relógio” uma partícula subatômica ou um pouco de luz passa através das fendas em uma barreira, ela se comporta como uma partícula e cria batidas de aspecto sólido por trás das fendas individuais sobre a barreira final que mede os impactos.

Como uma pequena bala, que logicamente passa através de um ou do outro furo. Mas se os cientistas não observam a trajetória da partícula, então ela exibe o comportamento de ondas que permitem que ela passe através de ambos os furos, ao mesmo tempo.

Por que a nossa observação pode mudar o que acontece? Resposta: Porque a realidade é um processo que requer a nossa consciência “, diz Lanza.

Você não existiria sem a consciência. Uma das razões para Robert Lanza achar que você não vai morrer, é porque você não é um objeto. Você é um ser especial. De acordo com biocentrismo, nada poderia existir sem consciência. Lembre-se que você não pode ver através do osso que circunda o cérebro.

O espaço e o tempo não são objetos duros, mas as ferramentas de nossa mente usa para tecer tudo junto.

Tudo o que você vê e experimenta agora é um turbilhão de informações que ocorre em sua mente. O espaço e o tempo são simplesmente as ferramentas para colocar tudo junto.


Lanza recorda que a morte não existe em um mundo sem espaço atemporal.
Não há distinção entre passado, presente e futuro. É apenas uma ilusão teimosamente persistente.

A imortalidade não significa uma existência perpétua no tempo sem fim, mas reside fora de tempo completamente.

Albert Einstein disse uma vez: “A realidade é meramente uma ilusão, embora um muito persistente.”

Como podemos dizer o que é real e o que não é? Como podemos saber com certeza que o nosso cérebro não está nos dando a ilusão de um mundo físico?

Recebido por e-mail - fonte original desconhecida

Leiam também o lado B:

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Epiderme, poema de Carla Andrade


A primeira vez que vi um
sapato velho na fiação
entendi o abandono
de se ter uma alma

Preferia ter só asas
Assobio de pássaros.
Folhagem pisada.

Mas me colocaram uma alma
Dentro de um buraco,
Bem na hora que o mundo deu um soluço.

Depois do sapato velho na fiação,
não adiantou mais ver quitanda e
suas cores gentis.
Nem mão de moço no rosto de moça

Tudo parecia chuva
corroendo carroça
na contramão.
Vento de través.
Telhas encardidas
sem promessa de
aventura de criança.

Tentei adestrar as gotas das lágrimas.
Enlouqueci cada palavra do silêncio
até que elas curassem.
Sentei e ri da melancolia.
Não adiantou.

A alma e sua falta de carne
continuaram enterradas
em caverna
de mãos vazias...
Como uma canção
Sem sintonia
de um rádio
prestes a ser desligado
antes de dormir.

A casada infiel, poema de Federico Garcia Lorca



(A Lydia Cabrerae à sua negrinha)


E eu que fui levá-la ao rio
Certo de que era donzela,
Mas bem que tinha marido.
Foi a noite de São Tiago
E quase por compromisso.
As lâmpadas se apagaram
E se acenderam os grilos.
Já nas últimas esquinas
Toquei seus peitos dormidos,
Que de pronto se me abriram
Como ramos de jacinto.
A goma de sua anágua
Vinha ranger-me no ouvido
Como seda que dez facas
Rasgassem em pedacinhos.
Sem luz de prata nas copas
As árvores têm crescido
E um horizonte de cães
Ladra bem longe do rio.

Após franqueadas as brenhas,
Franqueados juncos e espinhos,
Por baixo de seus cabelos
Fiz um ninho sobre o limo.
Eu tirei minha gravata.
Ela tirou seu vestido.
Eu, cinturão e revolver.
Ela, seus quatro corpinhos.

Nem nardos nem caracóis
Têm cútis com tanto viço,
Nem os cristais sob a lua
Alumbram com igual brilho.
Sua coxas me escapavam
Como peixes surpreendidos,
Metade cheias de lume,
Metade cheias de frio.
Galopei naquela noite
Pelo melhor dos caminhos,
Montado em potra nácar
Sem rédeas e sem estribos.
As coisas que ela me disse,
Por ser homem não repito
Faz a luz do entendimento
Que eu seja assim comedido.
Suja de beijos e areia,
Eu levei-a então do rio.
Contra o vento se batiam
As baionetas dos lírios

Portei-me como quem sou.
Como gitano legítimo.
Dei-lhe cesta de costura,
Grande, de cetim palhiço,
E não quis enamorar-me,
Pois ela, tendo marido,
Me disse que era donzela
Quando eu a levava ao rio.

Federico Garcia Lorca

Se você gosta de H.P. Lovecraft,... Então precisa conhecer Neil Gaiman



Deuses Americanos, o melhor e mais ambicioso romance de Neil Gaiman, é uma viagem assustadora, estranha e alucinógena que envolve um profundo exame do espírito americano. Gaiman ataca desde a violenta investida da era da informação até o significado da morte, mantendo seu estilo picante de enredo e a narrativa perspicaz adotados desde Sandman. 


Neil Gaiman oferece uma perspectiva de fora para dentro, e ao mesmo tempo, de dentro para fora da alma e espiritualidade dos Estados Unidos e do povo americano: suas obsessões por dinheiro e poder, a miscigenada herança religiosa e suas consequências sociais, e as decisões milenares que eles enfrentam sobre o que é real e o que não é. (Editora Intrínseca)

Edith Veiga - "Vem Chegando a madrugada"

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Nu, cores e olhares

Demasiado humano, poema de José Regio


Escancarei, por minhas mãos raivosas,
As chagas que em meu peito floresciam.
Versos a escorrer sangue eis escorriam
Dessas chagas abertas como rosas…

Assim vos disse angústias pavorosas
Em versos que gritavam… ou sorriam.
Disse-as com tal ardor, que todos criam
Esse rol de misérias fabulosas!

Chegou a hora de cansar…, cansei!
Sabei que as chagas todas que aureolei
São rosas de papel como as das feiras.

Que eu vivo a expor minh’alma nas estradas,
Com chagas inventadas retocadas…
Para esconder bem fundo as verdadeiras.


José Régio

VOCÊ SABIA?


Olha-se no espelho e se acha linda. Lembra-se de quando, insegura, nada lhe agradava, nenhuma roupa, nem maquiagem – roubada da irmã mais velha. Chorava. Desesperava-se e terminava os seus sonhos de Cinderela cansada, sozinha, no seu quarto. As únicas testemunhas de seu desespero eram seus livros, as roupas jogadas pelo chão.

Estava alegre demais. Temia, embora não acreditasse, que algo, um cometa – e ria -, estragasse aquela noite. Sentia-se uma debutante. Era uma debutante. Maquiagem perfeita, com a ajuda da mãe e da irmã – o que só era possível após o seu pai ter saído de casa. O velho era um coronel. Não sabia como sua mãe aguentara tanto tempo aquele casamento.

Olhava pela janela do seu quarto. Sétimo andar. A noite estava escuramente bela. Poucas nuvens. Nenhum astro visível. As luzes da cidade denunciavam vida, mesmo dentro daqueles minúsculos apartamentos onde crescia verticalmente a solidão. Mas nada tirava o sorriso do seu rosto. A mãe dava os últimos retoques nas filhas a caminho da noite, da diversão, da paquera.

Abraçam-se as três. Maria chora de alegria. Marina, sua irmã também. Rúbia, a mãe sorri e tenta esconder sua emoção - lembra-se do ex-marido autoritário, senti-se liberta. Bate na bunda das filhas. Ri e fala alto: - Vamos, meninas, vamos! Preciso dormir. Vocês são jovens, divirtam-se. A noite é uma criança. Mas não exagerem. Qualquer coisa liguem. Não desliguem o celular.

Nunca mais se viram. O celular dava fora de área...

O mundo é machista, misógino, assassino. No Brasil há um caso de estupro notificado a cada 11 minutos. Por dia 13 mulheres são assassinadas. Você sabia?

Na contra-mão da era da imagem midiática



"Na contra-mão da era da imagem midiática" é o título dessa Brava Conversa com Marcos Fabris, Professor de História da Arte e da Crítica da Imagem e doutorando da FFLCH - USP, realizada em 18 de março de 2011 no Sacolão das Artes - SP - Brasil.

Ação integrante do Projeto Brava Companhia contemplado pela Lei de Fomento ao Teatro para a cidade de São Paulo.

Teca Calazans - "Coco Verde"

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Meu sofrimento dobrado..., poema de Julio Cortázar



Benditos sejam os meus olhos 
                                                                           por terem olhado tão alto.

E também não estar triste,
não crescer com as fontes, não se dobrar nos salgueiros.
Larga é a luz para dois olhos, e a dor dança
nos peitos que aceitam sem fraqueza seus frios escarpins.
E não chamar-te de distante nem perdida
para não dar razão ao mar que te retém.
E elogiar-te na mais perfeita solidão
na hora em que teu nome é o primeiro lume em minha janela.

Julio Cortázar
                                                      

Sedução, poema de Adélia Prado



A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

A arte Uwe Ommer - "Asian Ladies"








Via Uwe Ommer

Oliveira de Panelas - "Amor Cósmico"

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Cuba socialista

Para refletir (61)

Antonio Candido 

"...Mas o fato é que... o regime cubano conseguiu o que nenhum outro tinha conseguido na América Latina: tirar o povo da sujeição torpe e dar-lhe o sentimento da própria dignidade, graças à aquisição dos requisitos indispensáveis – saúde, alimentação, relativa equivalência de oportunidades, afastamento mínimo possível entre os salários mais altos e os mais baixos.” (in Recortes, Companhia das Letras, 1993)

(Antonio Candido, sociólogoliterato e professor universitário brasileiro)

Pensamentos noturnos, poema de Li T'ai Po


Diante da cama
Brilha o luar
Que mais parece
Gelo no chão.

Se levanto a cabeça
Contemplo a Lua.
Ao baixá-la
Sonho com a terra natal.

Li T'ai Po

Os Rubaiyat, poema de Omar Khayyam


Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?
 
Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida.

É inútil a tua aflição;
nada podes sobre o teu destino.
Se és prudente, toma o que tens à mão.
Amanhã... que sabes do amanhã?

Além da Terra, pelo Infinito,
procurei, em vão, o Céu e o Inferno.
Depois uma voz me disse:
Céu e Inferno estão em ti.

(trecho)


Omar Khayyam

Tradução de Alfredo Braga

Para ler o poema completo: Os Rubaiyat, de Omar Khayyam 

Meu processo é confuso, incoerente, agitado, esperançoso e frustrante"

Depois de 16 anos, o escritor de ficção científica China Miéville lança 'Estação Perdido' no Brasil e comenta sobre seu trabalho



Há 16 anos, o premiado escritor inglês de ficção científica China Miéville surpreendia o gênero com Estação Perdido, obra distópica sobre um universo habitado por seres fantásticos, mas sujeitos às menores trivialidades de nossa realidade. O livro chega agora às livrarias brasileiras pela Editora Boitempo, e Miéville conversou com GALILEU para falar sobre o seu trabalho, os conflitos entre ficção e realidade, processo criativo, produção de ideias e perspectivas da literatura fantástica.
O leitor de literatura fantástica/ficcional é mais difícil de se conquistar?

Eu acredito que há uma certa globalização da cultura geek. Certamente nesses mais de 16 anos que tenho trabalhado fora, vi uma recente explosão na visibilidade da audiência por ficção especulativa (classificação que abrange principalmente terror, fantasia e sci-fi) em todas suas formas, internacionalmente.  Eu sinto que há um aumento na audiência mundial por tal ficção e arte. Assim como a recuperação de formas anteriores pouco respeitadas.

Em Estação Perdido encontramos seres de diferentes espécies vivendo sob uma rígida hierarquia social e um forte sistema autoritário e corrupto. E naturalmente, muitos podem relacionar esse universo com o mundo real. Assim, você acha que a literatura ficcional perde o seu significado com essas constantes comparações?

Há uma grande angústia em alguns leitores para entender o que o livro realmente significa – decifrar uma interpretação específica e exclusiva sobre o nosso mundo. E não está nada errado. Para o benefício de todos, a literatura tem ressonâncias metafóricas com a nossa realidade.  Mas o problema com este tipo de leitura é que ela simplifica sua compreensão da metáfora e é inadequada no sentido do literalismo da ficção. Isso não quer dizer que um livro não possa ser lido como algo sobre determinada linha política. Mas ele não é uma alegoria e o seu significado sempre irá escapar de qualquer tentativa de simplifica-lo em uma leitura individual – ou pelo menos deveria. E um dragão em um romance fantástico pode ser uma metáfora para todo tipo de coisa. Mas ele também é – pelo menos nos melhores livros – um lagarto flamejante gigante. 

A imprensa internacional já o comparou a Franz Kafka, George Orwell e Philip K. Dick. Porém, como você entende e descreve o seu processo criativo e de escrita?

Fico absurdamente lisonjeado com essas comparações. Eu diria que o meu processo de escrita é confuso, incoerente, agitado, esperançoso e frustrante. Eu ainda procuro estrutura. E não sei se vou melhorar nesse processo, mas ainda sonho com isso. Já minha relação com a literatura é de fascinação, intenso amor e comprometimento com as leituras que faço.

Você também é um respeitado professor de escrita criativa. Assim, em um cenário no qual todas as ideias já parecem ter sido usadas, como escrever algo novo?

Lutar por “novidade” e “singularidade” pode entristecê-lo. E não existe “sem novas ideias”. Talvez a melhor coisa seja refazer, recombinar e misturar as ideias em novas combinações.  Para ser honesto, creio que muitos de nós têm ideias melhores do que realmente achamos ter.  Acho que um dos grandes problemas que encaramos é que as pessoas são treinadas a escutar que suas ideias são ridículas, desanimando rapidamente. Acho que o maior problema que as pessoas enfrentam não é a falta de ideia, mas sim o desencorajamento em seguir firme com elas. 

Como você compreende a literatura fantástica atual?

Eu espero por melhorias tanto no escopo de representação e representantes, quanto na qualidade.  No geral, acredito em uma melhoria lenta no futuro. Acho que seria muito legal ter mais gente esforçada – para ficar claro, não apenas no fantástico. Eu quero que a fantasia aprenda a ‘roubar’ o melhor da literatura. Não quero parodiar. Particularmente, espero por mais experimentalismo.

Você escreveu romances, histórias curtas, séries em quadrinhos e até livro de RPG. Quais caminhos a literatura ainda pode dar a você?

Eu diria que tenho interesse em trabalhar com videogames, num mundo de criação mais geral. E gostaria de colaborar mais com os artistas, até mesmo com artistas da música. Também gostaria de escrever mais obras não ficcionais. Mas acho que meu coração ficará sempre na ficção.

Estação Perdido é o primeiro volume de uma trilogia. É difícil construir esse tipo de narrativa, onde cada livro deve manter sua individualidade ao mesmo tempo em que integra uma estrutura maior?

Para mim, isto nunca foi um grande problema. Em parte, porque Estação Perdido não é o começo de uma trilogia ou série, estritamente falando. Os três livros são localizados no mesmo mundo, próximos na época, com personagens compartilhados e referências a situações de outras obras. Mas os três livros foram cuidadosamente planejados como obras independentes. É muito importante para mim que cada volume trabalhe sob seus próprios termos, e que você não precise ler nenhum outro para fazer sentido nesses (mas se o fizer, é capaz de perceber certas referências).