Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Luísa Lacerda e Quarteto Geral - PONTEIO - EDU LOBO E CAPINAN


Composição de Edu Lobo e Capinan.

LEMBRANÇA DE MINHA MÃE, poema de Geraldino Brasil



Quando ela me mostrava as nuvens
que foi Deus quem fez,
se curvava para pousar
na minha cabeça ao sol
uma de suas mãos
que só depois iguais veria
na visão de Frá Angélico.

Minha mãe, de cabeça lá no alto,
que hoje está velhinha
e voltou ao seu tamanho de menina.

Geraldino Brasil

domingo, 21 de abril de 2019

Fagner & Ney Matogrosso - "Ponta do Lápis"

E NÃO PODE ESPERAR O CORAÇÃO, poema de Jaci Bezerra



Toda a lua e claridade 
assim te quero, assim te vejo 
e se te vejo o amor invade 
meu corpo inteiro e o deixa aceso 
e se te vejo o amor em mim 
é um cheiro morno de jardim 
A tua dor doendo em mim 
é um rio latejando aceso 
sou um cantareiro no jardim 
do sonho em que te quero e vejo 
primaveras de claridade 
na primavera que me invade 
Toda nua és um rio aceso 
de primavera e claridade 
mas quero mais do que o que vejo 
sentindo a angústia que me invade 
esse amor que doendo em mim 
arde em silêncio no jardim 
Extinta a angústia que me invade 
te sinto perto e junto a mim 
mais do que amar a claridade 
amo teu cheiro de jardim 
por isso à noite durmo aceso 
no dia em que te sinto e vejo. 
Teu coração é um jardim 
tremulando na claridade 
mesmo quando doendo em mim 
também é a angústia que me invade 
porque no dia em que te vejo 
teu corpo dorme em mim aceso 
No fundo dos teus olhos vejo 
longe da angústia que me invade 
como o amor doendo aceso 
é uma trança de claridade 
o coração dentro de mim 
dorme abrasado em teu jardim.

Jaci Bezerra

sábado, 20 de abril de 2019

Zélia Duncan - "Breve Canção de Sonho"

A DERROTA PASSADA A LIMPO, poema de Inaldo Cavalcanti



Me fiz, e assim cantei a história
E assim perdi
O coração onde o banquete
Recusou o comer comum.

Sou pequeno: o passado
Já viveu o futuro.
Nada conduz à minha tristeza de sonhar.
Nada recria o pão da minha amizade.

Uma vez desprezada e pobre vigília,
Sou pobre.
Mendigo da melodia, louvo a Luz
E reencontro a doação da minha queda:
A ti, cordeiro guerreiro da origem.

Inaldo Cavalcanti

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Antônio Marcos - "O homem de Nazaré"

Via Crúcis: do Imaculado Coração de Maria à Caixa Econômica Federal, por Itárcio Ferreira



A internet é como aqueles antigos álbuns de fotografia, nos faz reviver o passado. Às vezes as lembranças são boas, outras, pesadelos.

Dia desses encontrei no YouTube a música "O homem de Nazaré", interpretada por Antônio Marcos.

A música me lembrou o tempo, terrível, em que estudei no Colégio Imaculado Coração de Maria, em Olinda, dos 12 aos 14 anos. 

Terrível porque naquela época, 1974/1976, eu era o cara mais tímido do mundo, de uma timidez doentia: eu era depressivo e não sabia. Só vim descobrir minha depressão aos 23 anos.

Imaginem uma pessoa, em sua essencial, alegre, brincalhão, criativo, aprisionado no corpo de um pré-adolescente, ainda por cima deficiente físico, que mal conseguia dar bom aos amigos, quando na verdade tinha vontade de abraça-los, sorri, brincar, beijar.

Não cometi suicídio por sorte, pois que nunca sofri bullying, ao contrário, apesar de super retraído e calado, haviam pessoas que gostavam de mim.

No Imaculado lembro de André, um garoto um ano mais novo do que eu, cabelos loiros, que no recreio sempre ficava em minha companhia. Para o meu azar, seu pai foi transferido, a trabalho, para o Rio de Janeiro, e eu fiquei sem amigos. Obrigado, André.

Havia também uma menina, Ana Paula Giffoni, linda, que gostava muito de mim e eu dela. Sempre conversávamos, e a companhia dela me fez atravessar aquele inferno com um pouco mais de alegria. Obrigado, Ana.

Havia, ainda, uma outra menina, Ana Virgínia, por quem sempre fui apaixonado, mas, claro, ela nunca soube de minha paixão, nem que eu a achava a menina mais linda do mundo.

Ah Antônio Marcos, era boa a lembrança da tua voz na canção "O homem de Nazaré", sempre tocada nas aulas de religião. Obrigado.

Aqueles tempos foram tão terríveis quantos os anos que passei trabalhando na Caixa Econômica Federal, na agência Marcos Freire, também em Olinda, entre novembro de 1989 a março de 1995. 

Dali, ao contrário do Imaculado - André, Ana Paula, Ana Virgínia, Antônio Marcos - não consigo ter nenhuma lembrança agradável.

Contratado para trabalhar seis horas diária, trabalhávamos dez, sem direito a horas extras ou folgas. 

Trabalhávamos por pressão, - hoje assédio moral - tudo tinha um horário limite: passar por telefone as aplicações do overnight; consertar os erros do sistema, na conta acerto, antes da agência abrir; etc.

Tudo sob pena de arcar financeiramente com os erros ou a demora em realizar procedimentos, o que, claro, pois sou humano e não máquina, vez por outra acontecia, e o desconto era feito no mesmo dia na minha conta corrente.

Óbvio que diante de tanto abuso a minha depressão voltou com força total. Vivia, e trabalhava, com a ajuda de medicamentos e uma grande dose de álcool.

Quem leu "Cartas na rua", de Charles Bukowski, sabe do que estou falando. E lá, na Caixa, não havia a voz de Antônio Marcos para me acalmar. Triste.

Itárcio Ferreira

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Sérgio Sampaio - "Roda Morta"

Aos que a Felicidade é Sol, Virá a Noite, poema de Fernando Pessoa



Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.

Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.

Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada 'spera
Tudo que vem é grato.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa 

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Para refletir (108)


"É inútil te afligires por teres pecado;também é inútil a tua contrição:além da morte estará o Nada,ou a Misericórdia."

(Omar Khayyam, poeta, matemático e astrônomo persa dos séculos XI e XII)

Nádia Figueiredo - "Manhã de carnaval"


Composição de Luiz Bonfá e Antônio Maria.

Freud explica o Carnaval, crônica de Moacyr Scliar



A nossa mente é como uma casa em que vivem três habitantes. No térreo, mora um sujeito meio atucanado chamado Ego. Ele não é propriamente o dono da casa, mas cabe-lhe pagar a luz, a água, o IPTU, além de varrer o chão, lavar a roupa e cozinhar. Como essas tarefas fazem parte da vida cotidiana, Ego até que não se queixa. O pior é ter que conviver com os dois outros moradores.

O andar superior é decorado em estilo austero, com estátuas de grandes vultos da humanidade e prateleiras cheias de livros sobre leis e moral. Aí vive um irascível senhor chamado Superego que dedica todos os seus esforços a uma única coisa: controlar o pobre Ego. Quando Ego se lembra de uma boa piada e ri, ou atreve-se a cantar um sambinha, Superego bate no chão com o cetro que carrega sempre, exigindo silêncio. Se Ego resolve trazer para casa uma namorada ou mesmo uns amigos, Superego, de sua janela, adverte que não quer festinhas em domicílio.

No porão sujíssimo, mora o terceiro habitante da casa, um troglodita conhecido como Id, que não tem modos, não tem cultura, na verdade, mal sabe falar. Em matéria de sexo, porém, tem um apetite invejável. Superego, que detesta essas coisas, exige que Ego mantenha a inconveniente criatura sempre presa. É o que acontece durante todo o ano.

No carnaval, contudo, Id se solta. Arromba o portão do porão e vai para a folia, arrastando o perplexo Ego, que num primeiro momento, resiste, mas depois acaba aderindo. E aí são três dias de samba, bebidas, mulheres.

Quando volta pra casa na quarta-feira, a primeira pessoa que Ego vê é o Superego, olhando-o fixo da janela do andar superior. Ego sabe que errou e, humilde, enfia-se em casa, abre a porta do porão para que o saciado Id volte ao seu reduto, e aí começa a penitência, que durará exatamente um ano.

De vez em quando Ego tem um sonho. Imagina que os três fazem parte de um mesmo bloco carnavalesco e que juntos, se divertem a valer. O Superego é inclusive, o folião mais animado. Mas isso, naturalmente, é apenas um sonho.

Moacyr Scliar (Jornal Zero Hora, 08/02/97)

terça-feira, 16 de abril de 2019

O vinho


"Vinho da cor do dia, 
vinho da cor da noite, 
jamais coubeste numa taça, 
numa canção, num homem, 
num coro, …"

(Neruda)

Joss Stone - "RIGHT TO BE WRONG"

O NETO



O neto é, realmente, o sangue do seu sangue. 

Com a idade chega a saudade de alguma coisa que você tinha e que lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Meu Deus, para onde foram as crianças? Transformaram-se naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações, você não encontra de modo algum suas crianças perdidas. São homens e mulheres- não são mais aqueles que você recorda.

E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe coloca nos braços um bebê.  Completamente grátis.

Sem dores, sem choro, aquela criancinha da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade, longe de ser um estranho, é um filho seu que é devolvido. 

E o espanto é que todos lhe reconhecem o direito de o amar com extravagância.

Tenho certeza de que a vida nos dá netos para compensar de todas as perdas trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vem ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis. 

E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono abre o olho e diz: "Vo!", seu coração estala de felicidade, como pão no forno!

(Autor desconhecido)

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Alice Caymmi e Laila Garin – "Bomba H"


Composição de Itamar Assumpção e Alzira Espídola.

O TERCEIRO LIVRO, poema de Itárcio Ferreira


Escaldante é o calor das entranhas
Não queiras conhecer-te por inteiro.

Assim como gozas dentro da mulher amada
Gozarás com as folhas do Livro.

Qual espada dentro do inimigo
Empunharás o Livro contra a morte.

A morte é todo um único esquecimento
Só o Livro resgatará as memórias de uma nação.

Usarás as palavras do Livro
Como as asas usam os pássaros.

Itárcio Ferrreira

domingo, 14 de abril de 2019

Filarmônica de Berlim - Bachianas Brasileiras nº 5 (Villa Lobos)

Até o século IV escrita era uma bagunça

Oráculo de Delfos

Como surgiram os principais sinais de pontuação?
Foi um alívio. Até o século IV os textos eram escritos sem pontuação. “Tinham que ser interpretados”, conta o lingüista Flávio Di Giorgi, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Não era fácil. No Oráculo de Delfos (século VII a.C.), um dos lugares da Antigüidade em que se faziam profecias consideradas divinas, ainda está escrito (em grego): “Ides voltarás não morrerás na guerra.” Quem lê entende que irá para a guerra e voltará a salvo. Era o contrário. Na verdade, queria dizer, se as vírgulas existissem: “ides, voltarás não (o “não” vem depois do verbo), morrerás na guerra.” Ou seja, vais morrer.
Os primeiros sinais de pontuação surgiram no início do Império Bizantino (330 a 1453). Mas sua função era diferente das atuais. O que hoje é o ponto final servia para separar uma palavra da outra. Os espaço brancos entre palavras só apareceram no século VII, na Europa. Foi quando o ponto passou a finalizar a frase. O ponto de interrogação é uma invenção italiana, do século XIV. O de exclamação surgiu no século XIV. Os gráficos italianos também inventaram a vírgula e o ponto e vírgula no século XV (este último era usado pelos antigos gregos, muito antes disso, como sinal de interrogação). Os dois pontos surgiram no século XVI. O mais tardio foi a aspa, que surgiu no século XVII. Tudo foi ficando mais claro com o aumento da importância da escrita.

A VÍGULA



A vírgula pode ser uma pausa... ou não:
Não, espere.
Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro:
R$ 23,4.
R$ 2,34.

Pode criar heróis:
Isso só, ele resolve! 
Isso, só ele resolve! 

Ela pode ser a solução:
Vamos perder, nada foi resolvido! 
Vamos perder nada, foi resolvido! 

A vírgula muda uma opinião:
Não queremos saber! 
Não, queremos saber! 

A vírgula pode condenar ou salvar:
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!

Uma vírgula muda tudo!

(Autor desconhecido)