Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A babá e o imposto de renda


Penélope às avessas, poema de Fátima Ferreira

 
Bordo as ondas do cais
O sol, qual serpente enrolada no horizonte,
Fere o mastro de Brennand

Corro nas calçadas do bordado
Quando ventos enlouquecidos
Misto de maresia e cetim
Chegam nos corvos fantasiados

Bordo o cheiro da chuva
Nas folhas de alecrim
E cachoeiras tranças na menina
Vestida de por de sol

Subo as ribanceiras
Com os meninos verdes de cola e fome
E nessa trama me perco nos becos

Chego ao ponto alto
Maneira de viver prisioneira
Dos arranha-céus, irmãos dos pássaros

Esperança de um dia
A lei dos vencidos subir a ladeira
Sem agulha, seda, nem ponto-de-cruz

E as madames das academias
Com os medos presos nos músculos
Amamentarem os dias
Com seios inúteis de cirurgias

Bordo todos os dias o amor
Com o cordão das veias
E espero-te no abraço dos rios.

Fátima Ferreira

Maria Clara Spinelli (1)



Dois poemas que fiz para a atriz Maria Clara Spinelli:

David Cassidy - "Tomorrow"

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Nunca estive tão bem

BRASIL, um poema de Ton Paulo



É PM matando favelado e espancando mulher,
é fazendeiro matando índio e fazendo o que quer.


É pastor na casa de Deus pregando ódio e linchamento,
é fanático apoiando isso sem nenhum arrependimento.


É pobre se dizendo 'de direita', achando ser elite,
é deputado indo na TV pra dizer que "homofobia não existe".


É mulher agredida tentando falar sobre o machismo,
é gente raivosa dizendo que isso é "vitimismo".


É estudante espancado em protesto que o povo deveria estar apoiando,
é gente fazendo piada disso, torcendo pela morte dele, rindo, gargalhando.


É travesti sendo linchada com o povo olhando mas sem nada fazer,
é gente dizendo "bem feito, fez por merecer!".


É menor de idade saindo do útero pra prisão,
é gente defendendo chacina, "esse não tem recuperação".


É vice golpista governando, como se isso fosse natural,
é o trabalhador vendo seus direitos sendo extintos,
como se aquilo fosse algo "normal".


É assalariado pobre indo contra sua própria classe,
é patrão gostando disso, já não sentindo falta de um gado que ele manipulasse.


É político chamando negro de "vitimista",
é gente dizendo que isso é opinião, tudo bem ser racista.


É um país afundado no golpe, no preconceito, no ódio, na intolerância.
É um país sem luz no fim do túnel, inundado pela ignorância.

CANTIGA DO TOMARA, poema de Daniel Lima

 
As aves voam e as palavras.
Com o tempo, todos voamos.
Voo eu, tu voas, ele
voa. E nos dissipamos.

Vamos, vamos e vimos
choramos, rimos, sorrimos.
Sem saber porque nem como,
mal chegamos, e partimos.

Como? Por quê? Por onde?
E onde? E quando? E daí?
E o quê? E mais: com quê?
Para quê, se tudo é se?

Se tudo é se. Deus quisera,
talvez possa, vamos ver,
tomara, espero, vejamos,
acho que sim, pode ser;

se é tudo assim no palpite
na torcida, só com a cara,
sem saber porque nem como,
eu quero voar... Tomara!

Daniel Lima


A arte de José Manuel Ballester













Elis Regina - "Cartomante"

Rhaissa Bittar - "O Guarda-Chuva"


Participação especial Maestro Spok e Nailor Proveta.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Planeta Terra: só tem um!


A luta amorosa com as palavras, por Mario Quintana


Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Há! Mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a eternidade.

Nasci do rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton! Excusez du peu.

Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?

Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante 5 anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo – que bem sabem (ou souberam), o que é a luta amorosa com as palavras.

Mario Quintana

Revista “Isto É” de 14/11/1984.

Elizeth Cardoso - "Prece ao Vento"

terça-feira, 23 de maio de 2017

Valores, só no socialismo


Um abrigo, poema de Carlos Maia


Um abrigo
Um lugar ao sol
Um empecilho
A força que
Nos move no planeta,
O absinto
A droga
E eu já não sinto
A vertigem
O luar
O orgasmo
A vontade de voar

Carlos Maia

Mural dos deuses, poema de Carla Andrade


Neste nenhum
trocadilho da alma
há insônia de Baco

Há o profano em
células
cume de ossos
em câncer
trópicos.

O eterno na esquina
no tráfego das mãos,
na romaria de dúvidas.

O fogo de cupim:
no cérebro e sexo.

Há babas do mar
em despedidas de trovões
ressaca de barcos
no veludo de vozes.
O humano a se render.

Nos homens, a morte
imersa na arte.
Léxico dos deuses.
Sopro com sede
no inferno.

Nos homens,
a pitada da ironia:
ser divino em pele de fungos,
em bactérias de dor,
em cascas do tempo.

Carla Andrade 

Milton Nascimento - "San Vicente"

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Rhaissa Bittar - "Dig Dom"

Luxo

CÂNTICO DUAL, poema de Audálio Alves



a Itérbio Homem

De Deus a mim,
nenhum segredo cabe:

Vivemos sempre a sós,
os dois, perenemente;
o pouco que aprendi
(da morte)
Deus o sabe.

O que meus dedos tocam,
agora,
Deus o sente:
Silêncio algum separa
meu canto de seu canto
que o sol nos une e abre
visão de outra visão.

A cor de minhas vestes
mudamos,
Deus o sabe:
A vida se consente
em Nós, presentemente,
e sendo a morte o fim
em minhas mãos não cabe.

Audálio Alves

O nosso espaço sideral está lotado de lixo espacial

Belchior - "Paralelas"

domingo, 21 de maio de 2017

Nosso mundo é uma prisão conceitual e só vemos relances da realidade, diz cientista

Nosso sistema de percepção é nossa janela para o mundo, mas é também uma prisão conceitual. Imagem: Glen Santayana

Enquanto estiver lendo isto, você está olhando para a tela de um computador, um smartphone, ou um tablet. Você acha que viu tudo que há para ver. Mas e se este não for o caso? Seria possível que somente vemos relances da realidade?

Um cientista cognitivo apresentou uma teoria intrigante, sugerindo que vivemos numa prisão conceitual e somente vemos relances da realidade. Isto significaria que a realidade, tal como a percebemos, pode somente ser uma pequena fração da verdadeira existência.

Quanto da realidade nós percebemos?
Há alguns cientistas, como o Dr. Joe Dispenza, D.C que dizem que nossos pensamentos criam a nossa realidade.
O Dr. Dispenza, que é um neurocientista e escritor de vários livros, como por exemplo, "Evolve Your Brain: The Science of Changing Your Mind" (Evolua Seu Cérebro: A Ciência de Mudar Sua Mente – título em tradução livre), disse que ele, durante sua pesquisa em remissões espontâneas, descobriu e continuamente vê similaridades em pessoas que têm passado pelas assim chamadas curas milagrosas – mostrando que elas realmente mudaram suas mentes, o que então mudou seus estados de saúde.  Em outras palavras, o que você pensa afeta sua saúde.
Recentes estudos em neurociência mostraram que podemos mudar nosso cérebro somente pelo pensamento.

Mude a realidade
O quanto vemos da nossa realidade?
O conceito é interessante, mas o que acontece se não percebemos tudo de nossa assim chamada, realidade?
Pesquisadores da Universidade de Amsterdã sugerem que aquilo que você vê não é real – é uma ilusão visual.
As descobertas sugerem que, embora nossa visão periférica seja menos aguçada e detalhada do que aquilo que vemos no centro do campo visual, podemos notar uma diferença qualitativa, porque nosso sistema de processamento visual na verdade preenche aquilo que vemos na periferia.
O pesquisador de psicologia, Marte Otten, da Universidade de Amsterdã, disse:
Nossas descobertas mostram que, sob circunstâncias corretas, grande parte da periferia pode se tornar uma ilusão visual.

O que é uma Prisão Conceitual?
O cientista cognitivo Donald Hoffman, da Universidade da Califórnia, despendeu 30 anos tentando desvendar o mistério de nossa percepção. Ele está convencido que a evolução e a mecânica quântica conspiram para tornar a realidade objetiva uma ilusão.
Hoffman usa a teoria do jogo evolucionário para mostrar que a nossa percepção da realidade é uma ilusão. Ele disse:
A evolução tem nos moldado com percepções que nos permitem sobreviver. Mas parte disso envolve esconder de nós as coisas que não precisamos saber. E isso é praticamente toda a realidade, seja lá o que a realidade possa ser.
A evolução não diz respeito à verdade, ela diz respeito a gerar crianças. Todo pequeno pedaço de informação que você processa tem um custo em calorias, o que significa que precisaria mais alimentos para matar e comer. Assim, um organismo que vê toda a realidade nunca seria mais apto do que aquele que vê somente o que precisa para sobreviver.
Hoffman diz que se tornou interessado no assunto da realidade quando era adolescente. Ele queria descobrir se os humanos eram máquinas, e finalmente na década de 1980 ele foi a um laboratório de inteligência artificial na MIT e trabalhou numa máquina de percepção. Lá, ele desenvolveu a teoria dos agentes conscientes para resolver o problema de combinação da consciência, tanto para combinação de assuntos, quanto de experiências, mas Hoffman acha que não somos máquinas.  Ele disse:
O mistério de como a atividade cerebral causa as experiências do consciente ainda não foi resolvido, e nunca será, porque a atividade do cérebro não causa e nem pode causar as experiências do consciente. Se quisermos ter uma compreensão científica da consciência, e das muitas bem documentadas relações entre a atividade cerebral e as experiências do consciente, então não podemos começar com a atividade cerebral ou com a dinâmica física de qualquer tipo. Devemos começar com uma fundação nova, porém rigorosa. Proponho uma nova fundação que modela a consciência como redes de agentes do consciente, as quais interagem.
Segundo Hoffman, não há razão para acreditar que os objetos que vemos tenham quaisquer relação com coisas que existem fora de nossas mentes. Ele explica:
A concepção padrão da visão é que somos similares às câmeras, obtendo uma imagem da luz refletida de um objeto. Mas bilhões de neurônios e trilhões de sinapses estão envolvidas entre a luz atingindo a retina e a construção dos objetos 3D que percebemos.
Nosso sistema de percepção é nossa janela para o mundo, mas é também uma prisão conceitual. É difícil conceber uma realidade fora do espaço e tempo. Mas a matemática pode abrir uma rachadura nas paredes da prisão. Não posso imaginar um espaço multidimensional, mas posso encarar o espaço dimensional infinito em formato matemático. 
Hoffman diz que há duas inconsistências em nossa visão do Universo derivada da percepção, o que pode oferecer pistas na estrutura da realidade abaixo dela. A primeira delas é nossa habilidade de explicar a experiência consciente, por exemplo, como conseguimos a sensação de como é experimentar o gosto de chocolate, a partir do material físico dos neurônios e mensageiros químicos. A segunda é as interpretações da mecânica quântica, as quais os estados de um partícula são indefinidos quando não observados – algo que levanta a questão de nossa suposição de que os objetos continuam a existir quando ninguém está olhando para eles.

Seria nossa realidade uma simulação computacional criada por uma forma de vida avançada, desconhecida?
Mais e mais cientistas estão seriamente discutindo a natureza de nossa realidade. A teoria do Universo Holográfico está se tornando muito popular.
Um cientista sugere que nossa realidade seja um holograma controlado por um gênio do mal.
Estariam os criadores nos vigiando neste momento?
Um cientista do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA diz que nosso criador é um programador cósmico de computador, e há ainda pesquisadores que dizem ter encontrado evidência de que o Universo é um grande holograma em 2D e que somos uma ilusão.
Todas essas teorias são provocantes e muitos estudos devem ser conduzidos antes que quaisquer conclusões possam ser alcançadas.
Talvez agora realmente não importa se chamamos nosso mundo uma prisão conceitual ou um holograma. O que interessa é que ainda não podemos determinar o quanto da realidade percebemos, e muitos diriam que nem mesmo podemos definir o termo “realidade”.
Será por isto que algumas pessoas têm mais facilidade de testemunhar eventos anômalos, tais como avistamentos de OVNIs, enquanto outras estão fechadas na “normalidade” de seus mundos? 

Fonte: MTE.Com

sábado, 20 de maio de 2017

Belchior


SAUDADE, poema de Itárcio Ferreira



Com certeza morrerei sem nunca mais rever
Silvana Spreafico,
como amei essa mulher.

Saudades do amor.

Tristeza por ser findo aquele tempo tão maravilhoso.

Com mais certeza ainda, morrerei
sem nunca rever o meu amigo André,
amigo de ginásio,
amigo que me acompanhava em minha tímida solidão
nas horas do recreio no Imaculado Coração de Maria.

Saudades da amizade.

Felicidade por ser findo aquele tempo tão cruel.

Itárcio Ferreira

Para refletir (81)


Lulu Santos - "De repente, Califórnia"

sexta-feira, 19 de maio de 2017

O pato pateta


Canção, poema de Jorge Lopes


Me dispo de tuas vestes
sem qualquer fúria
e construo o meu canto
de silêncio, armadura
O teu sexo arde, baby
Sob um céu de fogo
o que não somos
é mais pobre
nas palavras do jogo
Não basta a mágica
dos teus olhos molhados
nem meus dentes mordendo
um velho blues de Atlanta;
não basta a lógica
porque tudo muda
a todo instante
e o amor é uma coisa comum.

Jorge Lopes

Cuco em ninho de pardal, poema de Antônio de Campos

Ilustração de Jorge Lopes


Sou doutra linha de montagem,
queixar disso não me queixo -
meu verso é pão quando pão
e em não sendo pão, é queijo.

Nascido em ninho de pardal,
meu cantar é canto de cuco,
meus iguais moram em relógio,
são mecânicos e eu maluco.

Sou igual, mas não idêntico,
me reservo a mim o direito
de não cantar as horas certas:
Eu denuncio este tempo estreito!

Canto que de males me espanto
e me espanto de tantos males
que se também não te espantas
estás morto e menos vales.

Antônio de Campos

Quinteto Violado - "Prece ao Vento"

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A longa noite de Elbert, por André Dahmer


INTERLÚDIO, poema de Amílcar Dória Matos


Precisamos de datas no interlúdio:
foi antes ou depois de fevereiro?
foi em dezembro que acordamos cedo
e andamos a pescar peixes avaros?
e que setembro aquele de qual ano,
quando a gramática exibiu vogais?

Perguntas básicas, questões vitais:
saber qual eixo onde pendemos fios
que podem destrinçar o nosso rio.

Pois de outro modo, sem o calendário
dos recorrentes focos da existência,
sofremos coordenadas discrepantes,
flutuamos em naves sem velames,
morremos de lembranças arbitrárias.

Neste interlúdio que nos cinge agora,
os signos de um outrora se misturam
aos futuros enigmas delirantes
pelo horizonte que nos fez amantes.

Amílcar Dória Matos

"Day 40" - os animais se amotinam contra Deus na Arca de Noé


Sobre o curta AQUI

Sá & Guarabira e Zé Rodrix - "Jesus numa moto"