Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

A LETRA "P", poema de Viviane Barroso


Na minha máquina de escrever faltava a letra ‘P’.
E eu ia substituindo a letra ‘P’
Por ‘T’, por ‘F’, por ‘V’.
O tempo passava e tudo que existia com ‘P’
Se desfez na minha máquina:
Paz’, ‘ponte’, ‘pássaro’.
No começo era triste não haver ali ‘palhaço’,
Pipoca’, ‘picadeiro’.
Mas aos poucos fui aprendendo a criar novas palavras
Me aproveitando da ausência da letra ‘P’.
E com o passar do tempo fui me sentindo um descobridor,
Um inventor, um desbravador.
Às vezes sim... Eu chorava a saudade da letra ‘P’.
(Chorava só um pouco, nunca fui bom em longos diálogos com a Dor)
Fui crescendo sem ‘pressa’.
E percebendo que essa falta se apequenava
à medida em que eu me transformava num grande mágico
De um circo só meu!
Sempre sem ‘pessoas’,
sem ‘plateia’.
Então, depois de muitos espetáculos mudos
realizados à sombra da minha lona,
pude finalmente compreender
que Poesia sempre se escreveu com ‘S’:
S’ de sonho, de sozinho, de silêncio.

Viviane Barroso

Este poema é parte integrante da Coletânea Sarau da Boa Vista
Lançamento da Coletânea Sarau da Boa Vista 
Rua do Hospício, em frete ao Teatro do Parque, Boa Vista, Recife – PE
Dia 27 de outubro, sábado,  às 19h
Mais informações: Sarau da Boa Vista no Facebook

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Vênus Anadiômene, poema de Arthur Rimbaud


Como de um verde túmulo em latão o vulto 
De uma mulher, cabelos brunos empastados, 
De uma velha banheira emerge, lento e estulto, 
Com delícias bastante mal dissimulados;

Do colo graxo e gris saltam as omoplatas 
Amplas, o dorso curto que entra e sai no ar; 
Sob a pele a gordura cai em folhas chatas, 
E o redondo dos rins como a querer voar...

O dorso é avermelhado e em tudo há um sabor 
Estranhamente horrível; notam-se, a rigor, 
Particularidades que demandam lupa...

Nos rins dois nomes só gravados: CLARA VENUS; 
- E todo o corpo move e estende a ampla garupa 
Bela horrorosamente, uma úlcera no ânus.

Arthur Rimbaud

Tradução de Augusto de Campos

domingo, 9 de setembro de 2018

Conceição Evaristo: a verdadeira imortal, por Dário Neto


Por Dário Neto
Eu entendo e me solidarizo às manas indignadas com o fato de Conceição Evaristo não ter sido eleita para a ABL. Contudo, toda vez que penso nesse museu, me lembro de Antonio Candido por dois motivos: primeiro, ele não compôs essa trupe. Enquanto Antonio Candido é presente como um grande pensador, analista e crítico do Brasil, a ABL é passado e depende exclusivamente da glória alheia - sobretudo a de Machado de Assis; segundo, em "Literatura e Subdesenvolvimento", Candido identifica esse movimento de fundar uma Academia aos moldes dos países europeus uma prática colonialista que até hoje vergonhosamente assassina a população negra e indígena no Brasil.
Com isso, Candido nos lembra que se tornar imortal nada tem que ver com esse colonialismo. Se o grande mestre Antonio Candido não coube na ABL para vergonha dela mesma, quanto mais Conceição Evaristo, muito maior que o mestre, pois tendo, semelhante a ele, a argúcia de ler o mundo, o supera por conseguir transformar esta capacidade analítica em poesia. Certamente Evaristo é muito grande para a ABL. 
Os Acadêmicos tentaram várias vezes convencer Candido a se candidatar e ele sempre rejeitou gentilmente. Quando o mestre e amigo de Candido, Fernando Azevedo faleceu, o acadêmico Chico Barbosa procurou-o durante o velório para convencê-lo a disputar a cadeira vaga pela morte de seu mestre, o crítico alegou que não tinha espírito associativo. Em 1993, a ABL homenageou Candido com o Prêmio Machado de Assis, evidenciando a intenção de seduzi-lo a compor o grupo e novamente, ele rejeitou. A grandeza que buscavam para si com a associação deste grande crítico literário, certamente alcançariam com Evaristo. E por que não foram atrás dela ao invés de esperar que ela manifestasse interesse? E por que a rejeitaram quando poderiam ter laureado a coroa enferrujada dessa Associação? Pelo simples motivo de ela ser mulher e negra. Assim como aconteceu a Conceição Evaristo, também essa gente que há séculos se acham donas da Literatura Brasileira rejeitou a primeira romancista Maria Firmina de Menezes, a primeira poeta modernista negra Gilka Machado, rejeitaram Carolina de Jesus e tantas que ainda estamos descobrindo. Isso só mostra o quanto esta Academia é pequena, muito pequena.
Dário Neto é Doutor em Literatura Brasileira pela USP com a tese "A pena do cronista: a presença das crônicas nos romances machadianos", Professor Colaborador em Teoria Literária na UNESPAR e autor do livro de contos Candelabro.

sábado, 8 de setembro de 2018

Para refletir (103)


"Os animais existem para os seus próprios propósitos. Não foram feitos para os humanos, assim como os negros não foram feitos para os brancos nem as mulheres para os homens." (Alice Walker)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Saudades demais, poema de Rose Bittencourt


Uma pureza no cais
Relâmpago e trompetes
Viro de perna o cacete
Te cubro todo de mel
Vem perto que eu to pedindo
Faz um sinal e me flerte…

Rose Bittencourt