Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sábado, 30 de abril de 2016

A UM FILHO MORTO, poema de Sebastião Alba


Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre

E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida

Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures

Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra

É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.

Sebastião Alba

Marcelo Jeneci - "De Graça"

sexta-feira, 29 de abril de 2016

(Trans)parência - por Igor Travassos e Letícia Barros




O curta só pode ser assistido no youtube.

10 Escritoras para mandar enfiar o "bela, recatada e do lar" bem onde vocês acham que mereça

1 - Clarice Lispector em passeata contra ditadura

2 - Simone De Beauvoir

 
3 - Hilda Hist mandando um abraço pra Veja

4 - Rosie Marie Muraro na militância feminina

5 - Chimamanda Ngozi Adichie de "Sejamos todos feministas"

6. Charlotte Perkins Gilman

7 - Isabel Allende

8 - Márcia Tiburi

9 - Teresa Horta

10 - Lygia Fagundes Telles

É o alvoroço de hoje, na web, a matéria de Veja com a esposa de Temer, "Bela, recatada e do lar". Um absurdo para os dias de hoje, cujo artigo da Marcia Tiburi é esclarecedor, e que a editora Letras In Verso postou no twitter uma seleção que inspirou este post. Confira 10 escritoras que literalmente enfrentam ou enfrentaram de frente esse tipo de machismo.

Frank Sinatra - "Moon River"

quinta-feira, 28 de abril de 2016

BEBIDA, poema de Sylvia Beirute


bebo onde existe sede.
a mão arrefece com o peso da cabeça.
este silêncio resgata palavras 
para além dos factos magros e esguios.

o meu sangue conhece o amor.
leio Östen Sjöstrand

lia Östen Sjöstrand há cinco minutos atrás.
alguém me chamou e tudo ficou diferente.
não digo que seja apenas este poema.
não é, claramente, apenas este poema.

bebo onde existe sede.

Tina Turner - "Proud Mary"

Para refletir (9)

Slavoj Zizek

Tem algo que gosto de repetir: o grande papel dos intelectuais não é dar respostas. As pessoas me perguntam, por exemplo, sobre a crise ecológica: ‘O que devemos fazer?’. Eu não sei! A principal tarefa do intelectual público hoje, eu acho, é permitir, ou melhor, possibilitar que as pessoas pensem, fazer com que elas façam as perguntas certas. Eu acho que os problemas que nós temos hoje existem porque nós estamos fazendo as perguntas erradas.”

(Slavoj Zizek, filósofo e psicanalista esloveno)

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Inspirar e expirar com este gif

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O LIVRO BOM, poema de Carla Diacov



é lançado e é lido.
foi manuseado, inclusive, na gráfica.
folheado, pelo menos duas ou três vezes, contando com
família, melhor amigo e amante.
ou
de sorte, boa ou não,
também interpretado por pessoas que não compreendem, nem ao
livro e nem ao escritor.
ou melhor;
uns tantos vendidos
como presentes de fim de ano, aos amigos, exatamente,
secretos.
ou tudo e tanto, isso;
e existirá entre todos
um
na cabeceira duma menina estranha
com dedicatória estranha
de estranhas páginas marcadas a dentes
com a última, lastimável ou não, impressa
de ponta-cabeça.
o livro e a menina.
últimos estranhos.


Visitem o site da poetisa NICHOS 

terça-feira, 26 de abril de 2016

ÉDIPO, poema de Itárcio Ferreira

 

Contemplo longamente a noite,
como a mãe que vela o filho.

As estrelas brilham.
Não há lua
            que se derreteu
em leite e melancolia.

Mas o que mais vejo
            ou quero ver, na noite,
são teus olhos que não me olham,
mas não apenas eles:
            tua boca que não sorri,
teus cabelos de um castanho-do-Pará,
teu hálito que mistura hortelã
e saliva...
O gosto de tua saliva. 

Procuro, através do poema,
compor teu corpo,
            de fragmentos,
de lembranças,
mas tuas roupas...

És como uma esfinge sob elas,
decifro-te ou não te possuirei.


Visitem o blog do poeta: Itárcio Ferreira, poemas

A arte de Igor Morski

Ilustrações incríveis e polêmicas do artista Igor Morski

Ilustrações incríveis e polêmicas do artista Igor Morski

Ilustrações incríveis e polêmicas do artista Igor Morski


Ilustrações incríveis e polêmicas do artista Igor Morski

Ilustrações incríveis e polêmicas do artista Igor Morski

Ilustrações incríveis e polêmicas do artista Igor Morski

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Ilustrações incríveis e polêmicas do artista Igor Morski

Ilustrações incríveis e polêmicas do artista Igor Morski

Ilustrações incríveis e polêmicas do artista Igor Morski

Via  Igor Morski

segunda-feira, 25 de abril de 2016

POETA ATIRADO AOS BICHOS, poema de José Craveirinha


Meu amor:
Nem tu percebes ainda o bater
ansioso dos tendões nos afinados
motores bem mainatos passando a ferro
o capim debaixo das obscenas chapas
na maquilhagem embelezando
a escarlate as picadas.

E
tua ostra de chamas
cerra-me no seu íman de con-
chá palpitando as mornas pétalas do teu gerânio
um belo coiso de gemidos no tálamo
de capim onde alongamos os nossos
pesadelos em fragmentos
dispersos na mata à ferroada
dos insectos de obuses.

Porque
confesso-te, meu amor
não são bem propriamente o que eu desejo
estes pervertidos versos sem rima e sem nada
mas unicamente nacos fixes de um poeta
de carne em sangue no meio deste zôo
atirado aos bichos!


José Craveirinha

domingo, 24 de abril de 2016

Ítaca, poema de Konstantinos Kaváfis



Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrarás
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez em um porto
para correr às lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
para aprender, para aprender dos doutos.
Tens todo o tempo de Ítaca na mente.
Estás predestinado a alí chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha, velho, enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.


Tradução de José Paulo Paes

A arte de Ehsan Mehrbakhsh (II)

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Via Ehsan Mehrbakhsh

sábado, 23 de abril de 2016

NÃO SOU ANTERIOR A ESCOLHA, poema de Sebastião Alba



Não sou anterior à escolha
ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde
Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável
atento à efusão
da névoa na sala.

Sebastião Alba

sexta-feira, 22 de abril de 2016

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Torre Azul, poema de Mario Quintana


É preciso construir uma torre
- uma torre azul para os suicidas.
Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
É preciso construir-lhes um túnel
- um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto-mar perdida.

É preciso construir uma torre…
É preciso construir um túnel…
É preciso morrer de puro,
puro amor!…

"Ain't Got No, I Got Life" - Nina Simone

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Ó Capitão, meu Capitão!, poema de Walt Whitman


Ó capitão! Meu capitão! terminou a nossa terrível viagem,
O navio resistiu a todas as tormentas, o prêmio que
buscávamos está ganho,
O porto está próximo, ouço os sinos, toda a gente está
exultante,
Enquanto segue com os olhos a firme quilha, o ameaçador e
temerário navio;
Mas, oh coração! coração! coração!
Oh as gotas vermelhas e sangrentas,
Onde no convés o meu capitão jaz,
Tombado, frio e morto.

Ó capitão! meu capitão! ergue-te e ouve os sinos;
Ergue-te – a bandeira agita-se por ti, o cornetim vibra por ti;
Para ti ramos de flores e grinaldas guarnecidas com fitas –
para ti as multidões nas praias,
Chamam por ti, as massas, agitam-se, os seus rostos ansiosos voltam-se;
Aqui capitão! querido pai!
Passo o braço por baixo da tua cabeça!
Não passa de um sonho que, no convés,
Tenhas tombado frio e morto.

O meu capitão não responde, os seus lábios estão pálidos e imóveis,
O meu pai não sente o meu braço, não tem pulso nem vontade,
O navio ancorou são e salvo, a viagem terminou e está concluída,
O navio vitorioso chega da terrível viagem com o objetivo ganho:
Exultai, ó praias, e tocai, ó sinos!
Mas eu com um passo desolado,
Caminho no convés onde jaz o meu capitão,
Tombado, frio e morto”


Tradução de Maria de Lurdes Guimarães