Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
Mostrando postagens com marcador Caetano Veloso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Caetano Veloso. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de outubro de 2015

Caetano Veloso - Um Comunista




Um mulato baiano,
Muito alto e mulato
Filho de um italiano
E de uma preta hauçá

Foi aprendendo a ler
Olhando mundo à volta
E prestando atenção
No que não estava a vista
Assim nasce um comunista

Um mulato baiano
Que morreu em São Paulo
Baleado por homens do poder militar
Nas feições que ganhou em solo americano
A dita guerra fria
Roma, França e Bahia

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O mulato baiano, mini e manual
Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas
Depois por Magalhães
Por fim, pelos milicos
Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas
Como são os comunistas?

Não que os seus inimigos
Estivessem lutando
Contra as nações terror
Que o comunismo urdia

Mas por vãos interesses
De poder e dinheiro
Quase sempre por menos
Quase nunca por mais

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O baiano morreu
Eu estava no exílio
E mandei um recado:
"eu que tinha morrido"
E que ele estava vivo,

Mas ninguém entendia
Vida sem utopia
Não entendo que exista
Assim fala um comunista

Porém, a raça humana
Segue trágica, sempre
Indecodificável
Tédio, horror, maravilha

Ó, mulato baiano
O samba o reverencia
Muito embora não creia
Em violência e guerrilha
Tédio, horror e maravilha

Calçadões encardidos
Multidões apodrecem
Há um abismo entre homens
E homens, o horror

Quem e como fará
Com que a terra se acenda?
E desate seus nós
Discutindo-se Clara
Iemanjá, Maria, Iara
Iansã, Catijaçara

O mulato baiano já não obedecia
As ordens de interesse que vinham de Moscou
Era luta romântica
Ela luz e era treva
Venta de maravilha, de tédio e de horror

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

(Caetano)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O amor




(Adptação de Caetano Veloso para um poema de Vladimir Maikovski)

Talvez, quem sabe, um dia
por uma alameda do zoológico
ela também chegará
ela que também amava os animais
entrará sorridente assim como está
na foto sobre a mesa
ela é tão bonita
ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
o século trinta vencerá
o coração destroçado já
pelas mesquinharias
agora vamos alcançar tudo o que não podemos amar na
vida
com o estrelar das noites inumeráveis
ressuscita-me
ainda que mais não seja
porque sou poeta
e ansiava o futuro
ressuscita-me
lutando contra as misérias do quotidiano
ressuscita-me por isso
ressuscita-me
quero acabar de viver o que me cabe
minha vida, para que não mais existam amores servis
ressuscita-me
para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
por uma casa, um buraco
ressuscita-me
para que a partir de hoje a partir de hoje
a família se transforme e o pai seja pelo menos o
Universo
e a mãe seja No mínimo a Terra
a Terra
a Terra

domingo, 14 de setembro de 2014

Sem lenço e sem documento... Em Foz do Iguaçu - Parte 1/3


Finalmente havia sido feita justiça. Estava lá, na fila do banco, quase a boca do caixa. Na mão o certificado de minha vitória. O alvará do juízo especial do consumidor. Pague-se a Gabriel a quantia certa de três mil reais. Danos morais e materiais. Venci o sistema! Sorri! Na verdade nem tanto. O que são três mil reais para um banco do porte do Santo André.

E quanto burocracia e formalidades, tempo perdido, trânsito, chateação das audiências. A derrota na primeira instância. A raiva. A impotência. A bile. Mas como dizia Thomas Jefferson: temo o dia em que as pessoas jurídicas, pura ficção, tenham mais direitos do que as pessoas físicas, verdadeiras, reais. E este tempo é agora.

Meu advogado, até hoje não sei o motivo, talvez a quantia irrisória da causa, havia abdicado de recorrer da decisão. Salvou-me minha mãe. Fui batizado na igreja católica, por causa de minha avó e na umbanda por vontade e crença da minha genitora. Calma, tudo vai ficar mais claro, amigo leitor. Espero apenas, com um leve sorriso que não consigo esconder, receber meus três mil reais e contarei a história do comecinho.

- O próximo! – gritou o caixa.