Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

domingo, 31 de agosto de 2014

A linguagem da sedução do nazismo em "Hitler's Hit Parade"


Por Wilson Roberto Vieira Ferreira, encontrei no excelente CINEMA SECRETO: CINEGNOSE

Quando assistimos ao documentário “Hitler’s Hit Parade” (2005) somos assombrados por uma estranha sensação de atualidade: uma sucessão de imagens de alta qualidade das décadas de 1930-40 de clipes de filmes de propaganda, desenhos animados, filmes musicais e vídeos caseiros que demonstram como a estratégia de comunicação Nazi criou as bases da moderna Publicidade e da indústria do entretenimento. Sem fazer comentários e apresentando apenas as imagens da época, o documentário mostra como o mal foi banalizado através de uma estética kitsch repleta de estereótipos de felicidade (mais tarde imitados pela sociedade de consumo dos EUA e irradiado para todo o mundo), a estetização e erotização da política por meio de celebridades, modelos sensuais e a fetichização dos uniformes. O documentário sugere que o nazismo não morreu - se transfigurou na moderna linguagem midiática.

Quando pensamos em documentários sobre o nazismo, vem a nossas mentes imagens impactantes do holocausto, trilhas musicais marciais, soldados em marcha e a figura de Hitler como um orador enlouquecido nos congressos do Partido Nacional Socialista.

Bem diferente, durante pouco mais de uma hora, Oliver Axer e Suzanne Benzer nos apresenta no documentário Hitler’s Hit Parade uma surpreendente visão do fenômeno nazi, uma catástrofe política que parece se originar de uma cultura pop, de um universo paralelo estranhamente reconhecível, cujo aspecto assustador é a sua alegre normalidade – artistas cantando em shows exuberantes, enérgicos números de dança, coristas sensuais sapateando e namorados em jogos amorosos surpreendentemente avançados para os costumes da época.



Dividido em seções como “Nova Vida” e “Sob a proteção da Noite”, os cineastas apresentam fragmentos da vida cotidiana alemã, um compêndio de clipes de filmes de propaganda, anúncios, desenhos animados, noticiários, musicais e filmes caseiros. Famílias felizes fazem seus piqueniques ao lado de modernas autobahnen (as highways alemãs) enquanto observam zepelins em cor prata, identificados pela suástica, flutuando em céus de azul profundo, pessoas reúnem-se em locais públicos para assistir televisão, mulheres bonitas experimentam meia-calça, artistas cantam e dançam e os líderes políticos exibem modelos em escala do mundo utópico que estava por vir.

Esses clipes de arquivos da década de 1930-40 podem facilmente ser confundidos com imagens do filme Isso é Hollywood (That’s Entertainment, 1974 – compilação de filmes musicais na comemoração dos 50 anos da MGM) com o mundo singular da fantasia cinematográfica, intercaladas com algumas cenas da realidade cotidiana, com crianças sorridentes e músicas com letras cheias de sentimentos nobres, saudades e desencontros amorosos.

A banalização do mal


Hitler’s Hit Parade foi estruturado para aproveitar ao máximo um sentimento estranho e mal-assombrado de atualidade para os espectadores: não há narração, nenhuma explicação – apenas os próprios cânticos que são anunciados com títulos estilizados. A dupla de cineastas não quis fazer um documentários detalhista e cronológico da cultura popular nazista (seus estúdios de cinema, distribuidores e artistas). Em vez disso, através de uma sedutora colagem de clipes pretenderam ilustrar o famoso diagnóstico da banalidade do mal da filósofa Hannah Arendt ao revelar facetas que foram esquecidas – recordamos o Reich de Hitler como um catástrofe histórica sem precedentes, mas Hitler’s Hit Parade sugere que os cidadãos alemães e suas distorções morais foram tão banalizados como uma ida ao cinema local ou uma canção popular no rádio.

Mesmo quando a realidade da guerra irrompia na normalidade cotidiana (soldados retornando da guerra com pernas amputadas e blecautes), tudo era neutralizado pelo otimismo da propaganda e de um discurso da superação semelhante à cultura atual de autoajuda: exemplos de superação de soldados com pernas mecânicas que se transformam em atletas, a temperança dos alemães que mantem a rotina na escuridão como se nada estivesse acontecendo.

Suásticas e uniformes da gestapo se integram nos cenários do dia-a-dia numa estranha normalidade, para o nosso olhar atual. A estigmatização dos judeus nos desenhos animados, lindas mulheres fazendo “sig-heil” e corpos de soldados alemães mortos rodeados de moscas fazem um caleidoscópio que lembra o atual efeito zapping do telespectador que confortavelmente na sua poltrona vê o desfile de imagens de morte e diversão na TV.

Uma estranha sensação de atualidade


A virtude de Hitler’s Hit Parade é mostrar como o Nazismo foi a base da moderna publicidade e propaganda e da indústria do entretenimento. O documentário faz lembrar a célebre frase do filósofo Theodor Adorno: “A humanidade preparou-se séculos para Victor Mature e Mickey Rooney”, dois atores canastrões da era de ouro de Hollywood. Parece que séculos de filosofia e sofisticação cultural preparam terreno para as suas próprias negações: a propaganda, a cultura kitsch e a banalização do mal.

Ao contrário dos estados terroristas modernos, as bases da cultura alemã estavam na sofisticada teatralidade, na influência dos artistas de Berlim em suas diferentes vertentes do modernismo e na vanguarda artística e intelectual da escola de artes plásticas da Bauhaus. Porém, ironicamente, como sugere Adorno, preparam o terreno para a propaganda e a estética kitsch: o apreço de Hitler à pintura decorativa, a canastrice dos cantores e atores dos filmes de propaganda, os sorrisos com maçãs do rosto avermelhadas que mais tarde seriam o modelo de felicidade estereotipada da publicidade norte-americana, o otimismo místico por futuros utópicos representados por maquetes dos clipes de propaganda. Tudo isso preparou o terreno da moderna sociedade de consumo. 

A estética Kitsch


Certa vez o escritor austríaco modernista Hermann Broch definiu a estética kitsch como “o mal com um sistema artístico de valores”. Talvez na cultura kitsch devamos buscar as origens da “banalidade do Mal” de Hanna Arendt. Por exemplo, o documentário mostra diversos filmes de propaganda onde Hitler era promovido como uma celebridade, ao invés de líder político: Hitler com seus cães na sua casa de campo, brincando com crianças, flagrantes dele ajeitando delicadamente o cabelo antes de um comício etc. E o idêntico script não só da propaganda política atual, como da promoção de celebridades em revistas comoCaras ou em programas televisivos como TV Fama ou Estrelas.

A estetização inédita dos políticos como celebridades iniciada pela sedutora linguagem nazista banalizaria todo o mal e o horror do cotidiano que se seguiu: a celebridade e seria a prova de que todos nós poderíamos um dia vencer, e que as desgraças da vida seriam apenas obstáculos para tornar a nossa vitória ainda mais doce... Essa é a base ideológica de todo o otimismo fetichista e místico (o imaginário da autoajuda e da suposta força do pensamento positivo) que animaria mais tarde a indústria do entretenimento e a sociedade de consumo.

Se você perdeu uma perna na guerra, a maravilhosa ciência nazi está aí para te dar uma perna mecânica novinha em folha... isso não é nada. É apenas um degrau para a vitória!...

A sensualidade nazi


Outro ponto importante no documentário Hitler’s Parade, e que cria um mal estar de atualidade, é a fetichização e erotização da guerra e da política, lembrando a atual erotização de bens e serviços feita pela publicidade.

Das pinups nazis que vendiam a beleza e superioridade da raça ariana, cantando e rebolando em eróticos números musicais, até a evidente fetichização dos uniformes nazistas (não é à toa que até hoje são objetos não só de culto, mas também de apetrecho erótico sadomasoquista) percebe-se a até então inédita erotização generalizada de bens e ideias pela propaganda.

Sob o pretexto do culto ao corpo saldável de uma nação que seria a base da futura super-raça (as primeiras campanhas sistemáticas anti-tabaco foram nazistas), estava na verdade a estratégia de erotização generalizada como isca de sedução política.

Vemos no documentário diversos clipes de jovens atléticos em trajes sumários praticando atletismo, danças artísticas e coreografias sincronizadas. Somado a filmes O Terceiro Reich deveria ser sensual, atraente, erótico, sob o álibi da saúde e da raça superiora.

O que faz lembrar o cínico final do filme de Kubrick Dr. Fantástico (Dr. Strangelove, 1964): com a bomba do juízo final próxima de ser detonada, o Dr. Fantástico (um nazista enrustido) planeja como a humanidade sobreviverá ao holocausto nuclear. “Em cavernas subterrâneas”, diz ele, onde o número de mulheres deverá ser superior ao de homens. Cada homem teria várias mulheres para que a taxa de natalidade fosse alta. E as mulheres escolhidas, claro, seriam aquelas como “melhores atributos reprodutivos”. Os militares ouvem o Dr. Fantástico com olhares fascinados: finalmente poderão trair suas mulheres sem culpa... O fim do mundo erotizado por um nazista: tudo, afinal, tem seu lado bom...



Do Terceiro Reich à erotização generalizada de bens e serviços (da mulher gostosa ao lado de uma Ferrari à voz sensual do sistema de som de um metrô) há uma evidente linha de continuidade, como sugere o documentário Hitler’s Hit Parade. Não só o nazismo não morreu como ele se transfigurou na indústria publicitária e de entretenimento. Talvez estejamos na mesma situação do alemão comum dos anos 30-40 documentado pelo filme: imersos no presente, só vamos ter consciência de tudo que aconteceu depois da catástrofe.

Ficha Técnica


Título: Hitler’s Hit Parade
Diretor: Oliver Axer e Susanne Benze
Roteiro: Oliver Axer e Susanne Benze
Produção: C. Cay Wesnigk Film
Distribuição: Arte
Ano: 2005
País: Alemanha


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Documentário completo: http://onlinefilm.org/en_EN/film/310 com legendas em inglês.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O TEU RISO


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

(Pablo Neruda)

terça-feira, 26 de agosto de 2014

VIA LÁTCEA




Onde a noite esquivou-se?
A tristeza é meu cão guia.
O amor, bebo-o em grandes goles com gelo.
A alienação parece ser a pílula da felicidade.
Em branco passo a compor a vida.
Desejos retesados quais cordas de um violino.
Desejei-a durante todo setembro, não a tive.
Outubro seguiu o som dos mergulhos.
Não sou nada.
Ocupo apenas os espaços esquecidos.
Silêncio.
Ninguém me ouve.
Reverbero-me em conchas e cristais.
O espaço é meu rádio.
O tempo, tenho-o de sobra, 
Mas não posso demovê-lo.

(Itárcio Ferreira)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Jaca, os peitinhos e a galinha

Arte: Marcantonio

Por Paulo Bono, via Diversos Afins
Noite fria. Eu esperava na padaria da esquina. Olhei as horas. Precisava de um cigarro. Se pelo menos eu fumasse. Passavam das dez quando Jaca apareceu. Entrei no carro.
- E a cachaça? – Jaca disse.
- Tá aqui – eu disse.
- Tranquilo, então. Eu trouxe a galinha.
- Que galinha?
- Roque da Lua foi claro. Uma garrafa de cachaça e uma galinha.
- Porra, acho melhor deixar a galinha de fora.
- E o bode?
- Que bode, caralho?
- O bode que enterram em seu quintal?
- Ok. Cadê a galinha?
- Na mala.
- Na mala?
- Lavei o carro hoje.
- A porra vai morrer sufocada.
- Fique tranquilo. A galinha tá na dela.
Jaca era um amigo dos tempos de escola. Daqueles meninões idiotas que levavam a culpa de tudo. Seu apelido naquele tempo era peitchola, por causa dos seus peitos grandes e pontudos. Ficava puto. Hoje trabalha como segurança de loja. Acontece que eu andava numa fase daquelas. Havia deixado a velha agência, e Regina era coisa do passado. Para os diretores de criação, eu não tinha o menor talento. As mulheres pensavam a mesma coisa. Nada dava certo. Sem dinheiro, sem trabalho, só na punheta. Então eu estava por aí, na merda, quando encontrei Jaca. Contei minha situação. Jaca teimou que aquilo devia ser praga de Regina. Macumba, essas coisas. E disse que esse tal Roque da Lua podia me ajudar.
Quando chegamos, convenci Jaca a pegar leve com a galinha. Primeiro, daríamos uma conferida no terreno. E se fosse necessário, pegaríamos o animal. Parecia um lugar agradável. Só aquele som de tambores que arrepiava os cabelos mais crespos do meu ovo. Havia essa figura no portão de entrada. Negro, alto, jovem. Não sei o que esperava da vida, mas segurava uma vela com as duas mãos.
- Boa noite – disse Jaca – o Roque da Lua está?
O garoto não respondeu. Só olhava para frente. Reto. Ele e a porra da sua vela. Parecia um rapaz determinado. Pelo menos a não dar as boas vindas a Jaca.
- Boa noite, amigo – Jaca insistiu – Eu marquei com Roque da Lua.
Nenhuma resposta. Somente o som dos malditos tambores.
- Esse merda não vai falar nada – eu disse.
- Será que é doente?
- Quero que ele se foda.
- Ô maluco! Tá me ouvindo? EU QUERIA FALAR COM ROQUE DA LUA!
- Vamos sair daqui, caralho!
- Tô quase metendo a porra nesse moleque.
- Cuidado, esses caras manjam de capoeira.
Então surge do nada esse baixinho todo de branco segurando a porra de um cacho de bananas. Pelo jeito que rebolava, eu não tinha mesmo certeza por onde ele ia ingerir aquelas bananas.
- Jaquinha! – disse o mestre das bananas – chegou bem na hora.
- Seu Roque – disse Jaca – o garoto aqui não queria colaborar.
- Ah, esse é Tico-Tico. Tico-Tico tá de castigo. Pra aprender a se comportar.
- Esse é Paulo – disse Jaca – o amigo que lhe falei.
- Ah, o que tá desempregado e não consegue trepar.
- É, tô no cu da cobra – eu disse.
- Vem, vamos entrar, vamos entrar. Tico-Tico, você se comporte.
- Aguente firme, Tico-Tico – eu disse.
Lá dentro, havia esse pátio de terra. Cercado de uma varanda com portas e de algumas árvores. Havia também essa roda de gente. Vestidos de branco. Aquela batucada. “Cadê Roque da Lua?” – Jaca perguntou. O danadinho das bananas desapareceu do nada. Então ficamos por ali como dois imbecis. Volta e meia alguém pulava no meio da roda e arriscava alguns passinhos. Até que veio essa morena. Começou a sambar. Nova, pele escura e os dentes mais brancos da noite. Seu corpo? Bem, digamos que eu saberia o que fazer com seu corpinho num quarto escuro. A moleca dançava. Girava. Levantava a saia, ia até o chão, revelava as pernas e, por milésimos de segundo, sua calcinha. Não é por nada não, mas eu já estava de pau duro.
- Será que ela toca berimbau? – perguntei a Jaca.
- Ham?
- Tá sentindo o quê, porra?
- Calor da porra!
Então aumentaram a batucada e a morena enlouqueceu. Começou a revirar os olhos e a retorcer o corpo. Em um desses solavancos, seus peitinhos saltaram da blusa. Como se gritassem por liberdade e quisessem participar da festa. Eram peitinhos firmes, santos e loucos. Eu pensava, por que essas porras parecem mais gostosas quando estão dando santo? Aliás, o santo devia saber que havia um gordo por perto que estava doido pra cair de boca naqueles peitinhos. Eu estava em pânico. Tentava não pensar em sacanagem. Mas só conseguia pensar naquela xoxota em chamas. Nessa hora, algum escroto que gosta de ver o circo pegar fogo soltou uma galinha no meio da roda. Vou dizer uma coisa. Nunca havia visto nada mais inocente do que aquela galinha. Querendo aparecer. Caminhando para o meio da putaria. Balançando a cabeça. No ritmo dos tambores. Pelos olhinhos, estava drogada. Parecia sorrir. Quando a morena a pegou pelo pescoço e ZAP! Passou a faca no animal.
- Puta que pariu – eu disse a Jaca – esquece a galinha.
- O quê?
- Porra, você tá suando pra caralho.
- É o calor, porra.
Adivinhe quem apareceu do nada. Sim, ele mesmo. Roque da Lua. Dessa vez, sem as bananas. Mas com um charuto que não tinha mais tamanho. Dançando, se remexendo e dizendo coisas que eu não conseguia entender.
- O que é que esse porra tá falando? – perguntei a Jaca.
- Não sei. Entendi, não sei o quê Paca Capim, Paca Capim, Paca Capim…
- Jaca, você tá branco.
- Dor de cabeça…
- Porra, será que você tá dando santo?
- Eu tô tranquilo…
Enquanto isso a roda pegava fogo. A morena, os peitinhos e Roque da Lua. A galinha perdeu o melhor da festa, fazer o quê? E do nada, Roque da Lua largou o charuto e começou a dar saltos. Grandes saltos. Saltava e girava rapidamente para todos os lados, fazendo o Mestre Yoda em ação parecer uma velha tartaruga manca. Roque da Lua pulava sobre as pessoas na roda, dizendo coisas e dando gargalhadas. De repente, esse merda veio em minha direção, com os olhos ardentes. Pensei, fudeu. Só deu tempo de pensar isso mesmo, porque logo depois Roque da Lua me empurrou para o lado, apertou os peitos de Jaca e berrou com uma voz fininha “PEITCHOLA! PEITCHOLA! PEITCHOLA!”. Jaca tentou se defender empurrando Roque da Lua, que saltou para trás, dando um desses golpes de capoeira e raspando o pé no queixo do meu amigo.
Três minutos depois, Roque da Lua seguia seu show, enquanto Jaca e eu nos despedíamos de Tico-Tico e entrávamos no carro.
- FOI VOCÊ QUE DISSE! – Jaca berrava
- Vai tomar no cu, Jaca!
- FOI VOCÊ QUE DISSE!
- Como é que eu ia dizer alguma coisa? Eu nem conhecia aquele viado. Você que me trouxe aqui, porra!
- E como é que ele sabia desse negócio de peitchola?
- Sei lá, esses caras sabem tudo da nossa vida.
- Ele me pegou desprevenido.
- Mas você viu aqueles peitinhos?
- Jesus é mais forte!
Bem, o que resta contar é que passei um bom tempo ainda sem trabalho e sem mulher. Que Jaca segue sua vida como Segurança. E que a galinha na mala do carro sobreviveu.
Paulo Bono é baiano e nasceu na Lapinha, tradicional bairro do centro antigo de Salvador. Formou-se em relações públicas, é pós-graduado como roteirista, trabalha como redator publicitário e escreveu o blog de contos e crônicas Espalitando Dente durante 6 anos. Em 2013, lançou o livro de contos Espalitando (Editora Cousa). 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

CESTA DE MAÇÃS

(Foto)


Fumo e bebo em busca do êxtase.

Nada se cria venerando Apolo.

Meu sangue é música e sexo.

Cigano, tenho por prisão o meu trabalho.

Burocrata, dignifico o capital.

Ah a grande noite caí sobre a liberdade,

E ela é tão pesada.

A burguesia não apenas fede, ofende e mata.

As morais religiosas me causam vômitos, as vezes risos.

Mas prefiro os vômitos.

Por que devo assinar um contrato de fidelidade?

Amo o meu amigo sem precisar ir ao cartório.

A monogamia é monótona pra caralho.

E na monogamia o caralho não sobe.

O tempo não para, mas o relógio sim.

Por que não bate logo as dezoito horas?

Chega de renascimentos,

Que venha rápido a imperfeição.

Raul, hoje comprei uma cesta de maçãs.

O ruim é esta sensação de culpa,

Herdada das lições de cristianismo;

Uma azia constante

E a porra da gordura no fígado.



(Itárcio Ferreira)

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Como diz Leila Diniz


REGINA AZEVEDO, POEMA


bom dia, gente. a pré-venda do meu livro “carcaça” está um sucesso, gracias, e aconselho garantir logo o seu. até quarta, por 15 reais. depois de impresso, 20. a tiragem é mínima e não vou colocar em livraria nem em canto nenhum pra vender. só internet ou na mão mesmo. mandaí um e-mail pra reginilda12@gmail.com ou uma mensagem inbox, vai.



deixar a blusa cair 
como uma pluma que desliza na película
que é um hímen que é um mundo
e mostrar a todas as americanas 
que no nordeste do brasil se sangra
todo dia
e deixar que saibam a sorte 
que é morar aqui
e ter sempre
marquinha de biquini e esse sangue
de gente que nasce no interior
do interior de tudo


Regina Azevedo

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Morre o poeta palestino Samih Al Qassim



Faleceu ontem, aos 75 anos, de câncer, na Palestina ocupada
Qassim era um dos principais poetas da resistência palestina
Eu poderia ter contado
a história do rouxinol assassinado
poderia ter contado
a história...
se não me tivessem cortado os lábios


Bilhetes de viagem

O dia que eu estou morto,
meu assassino, vasculhando os bolsos,
vai encontrar bilhetes de viagem:
Um para a paz,
um dos campos e da chuva,
e um
para a consciência da humanidade.

Caro assassino, eu lhe peço:
Não  guarda-los ou desperdiçá-los.
Use-os para viajar.

TRIBUTO A VERDADE: A MAÇÃ


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Arte Surreal nos Prédios de Teerã

Arte urbana do artista Mehdi Ghadyanloo em Teerã

Por Janaina Elias, via Chá de Lima da Pérsia

Encontrei no Irã News

Uma das características marcantes da cidade de Teerã, capital do Irã, é ser uma verdadeira galeria de arte a céu aberto. Em todos os recantos da cidade, das estações de metrô, passando pelas vielas, edifícios e praças públicas, obras de artistas que desafiam a imaginação proliferam.  E um desses artistas é Mehdi Ghadyanloo, que é famoso por ter criado mais de 100 trabalhos de arte urbana que transformam os austeros edifícios de Teerã em paisagens oníricas.

Ghadyanloo começou seu trabalho de decorar edifícios comerciais e residencias há 8 anos atrás revestindo a estética minimalista dos prédios com imagens de inspiração surrealista. As imagens retratam figuras que desafiam a gravidade e se transportam para outras dimensões, onde as vezes temos a impressão de que o edifício desaparece diante de nós e se confunde com um céu sempre límpido e azul. Ironicamente este prolífico artista trouxe uma nova perpectiva para a arte urbana em seu país, uma vez que a arte do graffitti (assim como em muitos outros países) é considerada ilegal no Irã.
 






 
 



Fotos de Mehdi Ghadyanloo publicadas no site HuffingtonPost
http://chadelimadapersia.blogspot.com.br/2014/07/arte-surreal-nos-predios-de-teera.html