Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

quinta-feira, 29 de junho de 2017

quarta-feira, 28 de junho de 2017

ESCADARIA DE ODESSA, poema de João Francisco Lima Santos



A justiça nega
que o pão
seja dividido como se reza...

nem liga
que há fome e sede
e a vida tem pressa...

ai de quem sonha
com o pão
dividido na mesa...

e vai ao protesto
movido
pela ira sagrada
como profeta de um tempo...

pois o poder
que ri desse sonho à beça

tem um plano aberto:
refazer a cena
da escadaria de Odessa...

João Francisco Lima Santos

Saudação aos que Vão Ficar, poema de Millôr Fernandes

Millor_Fernandes, por Cynthia_Brito

Saudação aos que Vão Ficar

Como será o Brasil 
no ano dois mil? 
As crianças de hoje, 
já velhinhas então, 
lembrarão com saudade 
deste antigo país, 
desta velha cidade? 
Que emoção, que saudade, 
terá a juventude, 
acabada a gravidade? 
Respeitarão os papais 
cheios de mocidade? 
Que diferença haverá 
entre o avô e o neto? 
Que novas relações e enganos 
inventarão entre si 
os seres desumanos? 
Que lei impedirá, 
libertada a molécula 
que o homem, cheio de ardor, 
atravesse paredes, 
buscando seu amor? 
Que lei de tráfego impedirá um inquilino 
- ante o lugar que vence - 
de voar para lugar distante 
na casa que não lhe pertence? 
Haverá mais lágrimas 
ou mais sorrisos? 
Mais loucura ou mais juízo? 
E o que será loucura? E o que será juízo? 
A propriedade, será um roubo? 
O roubo, o que será? 
Poderemos crescer todos bonitos? 
E o belo não passará então a ser feiura? 
Haverá entre os povos uma proibição 
de criar pessoas com mais de um metro e oitenta? 
Mas a Rússia (vá lá, os Estados Unidos) 
não farão às ocultas, homens especiais 
que, de repente, 
possam duplicar o próprio tamanho? 
Quem morará no Brasil, 
no ano dois mil? 
Que pensará o imbecil 
no ano dois mil? 
Haverá imbecis? 
Militares ou civis? 
Que restará a sonhar 
para o ano três mil 
ao ano dois mil? 

Millôr Fernandes

A arte de Katsushika Hokusai (1)











Via Katsushika Hokusai/Domínio Público

Gonzaguinha - "Explode Coração"

terça-feira, 27 de junho de 2017

A CATIVA, poema de Luiz Gama


Como era linda, meu Deus!
Não tinha da neve a cor,
Mas no moreno semblante
Brilhavam raios de amor.

Ledo o rosto, o mais formoso
De trigueira coralina,
De Anjo a boca, os lábios breves
Cor de pálida cravina.

Em carmim rubro esgastados
Tinha os dentes cristalinos;
Doce a voz, qual nunca ouviram
Dúlios bardos matutinos.

Seus ingênuos pensamentos
São de amor juras constantes;
Entre as nuvens das pestanas
Tinha dois astros brilhantes.

As madeixas crespas, negras,
Sobre o seio lhe pendiam,
Onde os castos pomos de ouro
Amorosos se escondiam.

Tinha o colo acetinado
— Era o corpo uma pintura —
E no peito palpitante
Um sacrário de ternura.

Límpida alma — flor singela
Pelas brisas embalada,
Ao dormir d'alvas estrelas,
Ao nascer da madrugada.

Quis beijar-lhe as mãos divinas,
Afastou-mas — não consente;
A seus pés de rojo pus-me,
— Tanto pode o amor ardente!

Não te afastes, lhe suplico,
És do meu peito rainha;
Não te afastes, neste peito
Tens um trono, mulatinha!...

Vi-lhe as pálpebras tremerem,
Como treme a flor louçã
Embalando as níveas gotas
Dos orvalhos da manhã.

Qual na rama enlanguescida
Pudibunda sensitiva,
Suspirando ela murmura:
Ai, senhor, eu sou cativa!...

Deu-me as costas, foi-se embora
Qual da tarde ao arrebol
Foge a sombra de uma nuvem
Ao cair a luz do sol. 


Luiz Gama

Para refletir (88)

Bertrand Russell


"Quando encontrar oposição, mesmo que seja de seu cônjuge ou de suas crianças, se esforce para superá-la pelo argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória dependente da autoridade é irreal e ilusória."

(Bertrand Russell, matemático e filósofo inglês)

Alaíde Costa - "Insensatez"

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Café Filosófico: A separação entre amor e sexo: A fragilidade do tesão, por Flávio Gikovate

Billy Paul - "Me And Mrs. Jones"


Eu e a Sra. Jones
Tem algo acontecendo
Ambos sabemos que é errado
Mas é muito forte
Para terminar agora

Nos encontramos todo os dias
No mesmo café
6: 30 - Eu sei que ela estará lá
Segurando as mãos, fazendo todos os tipos das planos
Quando o jukebox toca nossa canção favorita

(refrão)
Eu e Sra. , Sra. Jones, Sra. Jones, Sra. Jones

Tem algo acontecendo
Ambos sabemos que é errado
Mas é muito forte
Para terminar agora

Nós precisamos ser mais cuidadosos
Para que não tenhamos esperanças demais
Porque ela tem suas próprias obrigações
e eu também

(refrão)
Eu e Sra. , Sra. Jones, Sra. Jones, Sra. Jones
Tem algo acontecendo
Ambos sabemos que é errado
Mas é muito forte
Para terminar agora

Bem, está na hora de nós irmos
E machuca tanto, machuca tanto por dentro
Agora ela vai seguir seu caminho
E eu seguirei o meu
Mas amanhã nos encontraremos no mesmo lugar
Na mesma hora

(refrão)
Eu e Sra. Jones, Sra. Jones, Sra. Jones

Tem algo acontecendo
Nós precisamos ser mais cuidadosos
Para que não tenhamos esperanças demais

Eu quero te encontrar
E conversar com você
No mesmo lugar
No mesmo café
Na mesma hora
E segurar as mãos como sempre

Vamos levar isso adiante, adiante
Nós sabemos, eles sabem, você e eu sabemos
Que é errado
Mas fizemos isso ficar forte
Temos que deixá-los saber agora
Que há algo acontecendo
Algo acontecendo...

domingo, 25 de junho de 2017

Nova teoria do tempo indica que o presente e o futuro existem simultaneamente


Via Ótimundo

Eis um belo assunto para uma amigável discussão:
De acordo com uma nova teoria controversa, tudo ao nosso redor está intricadamente planejado, e o destino de cada um já foi decidido. A nova teoria sugere que o tempo não passa e tudo é sempre presente. Na verdade, o tempo não é linear como pensamos, e tudo ao nosso redor é sempre presente.
O pesquisador indica que o tempo deveria ser considerado com uma dimensão de espaço-tempo, como afirma a teoria da relatividade – assim ele não passa por nós, porque o espaço-tempo também não.  Ao invés disso, o tempo é parte de um grande tecido uniforme do Universo, e não algo que se move dentro dele.  De acordo com um cientista, tudo que aconteceu, e tudo que irá acontecer, está de fato ocorrendo no mesmo momento, pois o tempo está posicionado no espaço.
A nova teoria proposta pelo Dr. Bradford Skow, um professor de filosofia associado do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), indica que se fôssemos olhar para baixo no Universo, realmente observaríamos o tempo e eventos se espalhando em todas as direções. 
Assim, o que isto realmente significa?  Bem, isto sugere que o tempo tal como o conhecemos é incorreto; em outras palavras, ele não é linear como pensamos. De fato, tudo ao nosso redor é sempre presente.
A nova teoria está detalhada no livro do Dr. Skow, “Objective Beginning”, onde ele escreve:

"Quando você pergunta às pessoas, ‘diga-me sobre a passagem do tempo’, eles geralmente fazem uma metáfora. Eles dizem que o tempo flui como um rio, ou que nos movemos através do tempo como um navio navega no mar."
"Eu não acreditaria nisso, a não ser que eu visse um bom argumento quanto a esse respeito."
No livro Objective Beginning Skow almeja convencer os leitores que as coisas não poderiam ser diferentes. E para fazer isso, ele despende muito de seu livro considerando as ideias que competem sobre o tempo – aquelas que presumem que o tempo passa ou move por nós de alguma forma. Ele diz:

"Eu estava interessado em ver que tipo de visão do Universo você teria se tomasse estas metáforas sobre a passagem do tempo de forma muito, muito séria."
O Dr. Skow acredita no assim chamado ‘Universo bloco’ – uma teoria a qual declara que o passado, presente e futuro existem simultaneamente. Em outras palavras, isto significa que uma vez que um evento ocorreu, ele continua existindo em algum lugar do espaço-tempo.
A nova e controversa teoria é apoiada pela teoria da relatividade de Albert Einstein, a qual indica que o espaço e o tempo são de fato partes de uma estrutura quadridimensional intricada, onde tudo que ocorreu tem suas próprias coordenadas no espaço-tempo.
O Dr. Skow ainda detalha:
"A teoria do Universo bloco diz que você está espalhado no tempo; algo como a forma com que você está espalhado no espaço. Não estamos localizados num tempo único."
Ele concorda que embora as coisas mudem e vemos o tempo como se ele estivesse passando, estamos numa ‘condição dispersa’ e que diferentes partes do tempo podem ser pontilhadas ao redor de um Universo infinito.
Deu para entender?

sábado, 24 de junho de 2017

O ESPELHO DA ENTRADA, poema de Konstantinos Kaváfis


À entrada da mansão
havia um grande espelho muito antigo,
comprado pelo menos há mais de oitenta anos.

Um rapaz belíssimo, empregado de alfaiate
(e nos domingos atleta diletante)
estava ali com um pacote.

Deu-o a alguém da casa, que o levou para dentro
com o recibo. O empregado do alfaiate
ficou sozinho, à espera.

Acercou-se do espelho e mirou-se
para ajeitar a gravata. Após cinco minutos,
trouxeram-lhe o recibo e ele se foi.

Mas o antigo espelho, que vira e revira
nos seus longos anos de existência
coisas e rostos aos milhares;
mas o antigo espelho agora se alegrava
e exultava de haver mostrado sobre si
por um instante a beleza culminante.

Konstantinos Kaváfis

Carminho e Marisa Monte - "Estrada do Sol"

sexta-feira, 23 de junho de 2017

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Sobre um Poema, poesia de Herberto Helder


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

A arte de Jay Wenstein 1 (“Então eu pedi para eles sorrirem”)








Elba Ramalho - "Paisagem na janela"

quarta-feira, 21 de junho de 2017

ANIVERSÁRIO DE LUIZ GAMA - 21 DE JUNHO


A GAIVOTA MORTA, poema de Ângelo Monteiro


Não morrerás jamais minha gaivota
suprema ave do mar, pobre princesa
estás na alma do poeta presa
enquanto a alma do poeta é morta

Suprema alma do poeta viva
suprema alma da gaivota morta
com a tua morte a vida fez-se altiva,
com a minha vida encontro a mesma porta.

Negra ave do céu, cativa e eterna,
tu pairas sobre o mar depois de morta
eu pairo nesta vida que se inferna.

Negra gaivota morta, vida minha.
Tuas asas perdi em em hora torta
na terra te ganhei como rainha.

Ângelo Monteiro

Grandes escritores & maconha (7)

(Nietzsche: óleo sobre tela de Edvard Munch, 1906)

“Quando a gente quer se livrar de uma pressão insuportável o haxixe é necessário.”

Gonzaguinha - "Começaria Tudo Outra Vez"

terça-feira, 20 de junho de 2017

PROBLEMA NA FAMÍLIA, poema de Geraldino Brasil


 
A família ia bem,
                                         mas o filho mais novo.
A família ia bem,
                                         quebra a casca do ovo.
A família ia bem,
                                         vê a rua, olha o povo.
Um problema surgiu,
                                         um poeta na família.


Geraldino Brasil

Para refletir (87)

Karl Marx e Friederich Engels


"Os trabalhadores não tem nada a perder, a não ser suas correntes. Têm, por outro lado, um mundo a ganhar. Trabalhadores de todos os países, uni-vos".

("Manifesto Comunista" de Karl Marx e Friederich Engels)

Luedji Luna - "Banho de Folhas"

Alaíde Costa - "Me Deixa Em Paz"

segunda-feira, 19 de junho de 2017

ENVOI, poema de Ezra Pound


Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

Ezra Pound

Tradução de Augusto de Campos

Elza Soares e Joyce Cândido - "Espumas ao Vento"


Composição de Aciolly Neto.

sábado, 17 de junho de 2017

Tempos difícies


Eterna Mágoa, poema de Augusto dos Anjos


O homem por sobre quem caiu a praga
Da tristeza do mundo, o homem que é triste
Para todos os séculos existe
E nunca mais o seu pesar se apaga!
Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resisitir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga
Sabe que sofre, mas o que não sabe
É que essa mágoa infinda assim, não cabe
Na sua vida, é que essa mágoa infinda
Transpõe a vida do seu corpo inerme;
E quando esse homem se transforma em verme
É essa mágoa que o acompanha ainda!
Augusto dos Anjos

Ednardo - "Pavão Mysteriozo"

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Concentração


A SEMANA, poema de Weydson Barros Leal


Devemos amar quando crianças.
Quando verdadeiramente somos
O medo e a solidão, a alegria e o contentamento
Em coisas demasiado simples, como
Parcerias em jogos de cartas, doces, guardados,
A vizinhança em assentos públicos.

Na idade adulta não se deve amar.

Não sabe o amor a idade da razão
Onde em si não cabe com o instinto animalesco da pureza.
Dizemos amar num tempo em que há o punho da
                                                                [sobrevivência,
Mas o amor não distingue a fome, e uma cegueira
Não alimenta o mesmo corpo que o pão corrói.
Amamos por piedade, por chão,
Amamos em agradecimento,
Amamos por pena, por cura, por limites,
Por precisão.
Amamos em detrimento, em culpa e abnegação;
Dizemos amar por paixão
Quando amamos em número,
E ávidos permanecemos escutando moedas e dentes
Em cerimónias e jornais.

Amamos por paz e por guerra,
Amamos por ódio, por reclusão,
Por definhamento e morte.

Somos amantes do companheiro, que é vão
Entre a arte e a solidão dos que só amam.
 Amamos o medo que não nos deixa ficar sós,
E amamos as pessoas absolutamente sós, sós
                                                           [por nós
E que não tenham mais ninguém
A não ser os frutos do nosso conhecimento.
Buscamos amar o futuro e o passado —
Perseguimos o passado— e ambos não existem
Se o amor é onde e quando eternamente: amamos a vida —

A morte é a solidão desenvolvida.

Amamos sempre em 3a. pessoa,
Quando nosso cego propósito é um aniquilamento
Em nome de todas as formas verbais —
Amamos quando somos cegos. —
E as vidas, como os amores e as mortes —
O amor e a morte são próximos
Como o ódio e a paixão —
Sempre acompanhadas de ritos e cerimónias ridículas,
Seguem pelas ruas a distribuir flores
E cartões de seasons.
Amamos quando estamos infinitamente doentes
De uma morte que se recupera — o amor é queda
E levitação.
Sejamos mais novos,
Envelheçamos como quixotes que geram sonhos e ilusões —
 
O amor é isto.
E não saberemos viver outra vida sem morte
Como não se cai sem estar de pé,
Como não se vê o sol sem estar de pé,
Como não se deve dizer como
Acabam os poemas,
Como findam as penas,
Como findam o amor e a semana,
Ou como ambos se renovam.

Weydson Barros Leal