Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
Mostrando postagens com marcador Carlos Drummond de Andrade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carlos Drummond de Andrade. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 1 de março de 2019

Meu poema preferido, poema de Carlos Drummond de Andrade



Outro dia me perguntaram qual era meu poema preferido
Não pude responder
Ninguém ousaria entender

Já li Camões, Fernando Pessoa
Cora Coralina, Vinícius de Moraes
Hilda Hilst, minha conterrânea
Augusto dos Anjos, Paulo Leminski
Manuel Bandeira, Drummond
Gonçalves Dias, Olavo Bilac

Mas meu poema preferido não é de nenhum desses autores
E não está em nenhum livro

Meu poema preferido está fora dos padrões literários
É um poema escrito em linhas tortas
Sem métrica, sem regras
Sem ritmo, sem melodia

Meu poema preferido não precisa rimar pra ser bonito
Ele não tem estrofes
Tão pouco um título

Meu poema preferido é poema só por existir
E não tem um dia sequer que eu não o recite

Meu poema preferido é composto por boas lembranças
Muitos sentimentos
É de carne e osso
E vive em meus pensamentos

Meu poema preferido é livre
Tem sobrenome, endereço, RG
E um par de olhos negros
Que eu não consigo me esquecer

Pudera eu declama-lo pra todo mundo ouvir
Gritaria em alto e bom tom:
“Esse poema é meu, só meu e de mais ninguém!”
Mas esse poema é tão dele
Que prefiro lê-lo sozinho
E interpretar cada verso
Com a certeza de que ele é único nesse universo

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 10 de junho de 2018

Europa, França e Bahia, poema de Carlos Drummond de Andrade


Meus olhos brasileiros sonhando exotismos.
Paris. A torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo.
Os cais bolorentos de livros judeus
e a água suja do Sena escorrendo sabedoria.

O pulo da Mancha num segundo.
Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes nas docas.
Tarifas bancos fábricas trustes craques.
Milhões de dorsos agachados em colônias longínquas formam um tapete
para Sua Graciosa Majestade Britânica pisar.
E a lua de Londres como um remorso.

Submarinos inúteis retalham mares vencidos.
O navio alemão cauteloso exporta dolicocéfalos arruinados.
Hamburgo, embigo do mundo.
Homens de cabeça rachada cismam em rachar a cabeça dos outros
dentro de alguns anos.
A Itália explora conscientemente vulcões apagados,
vulcões que nunca estiveram acesos
a não ser na cabeça de Mussolini.
E a Suiça cândida se oferece
numa coleção de postais de altitudes altíssimas.

Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa.

Não há mais Turquia.
O impossível dos serralhos esfacela erotismos prestes a declanchar.
Mas a Rússia tem as cores da vida.
A Rússia é vermelha e branca.
Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam o filme bolchevista
e no túmulo de Lenin em Moscou parece que um coração enorme
está batendo, batendo mas não bate igual ao da gente...

Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a "Canção do exílio".
Como era mesmo a "Canção do exílio"?
Eu tão esquecido de minha terra...
Ai terra que tem palmeiras
onde canta o sabiá.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Cidadezinha Qualquer, poema de Carlos Drummond de Andrade


Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Propaganda Eleitoral, poema de Carlos Drummond de Andrade


Na TV, só teu retrato
com teu número e teu nome.
Serás mesmo candidato
ou simples sombra que some?

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O mundo é grande, poema de Carlos Drummond de Andrade


O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

As sem-razões do amor, poema de Carlos Drummond de Andrade


Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou de mais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

sábado, 2 de abril de 2016

O poeta Carlos Maia de mãos dadas com Drummond


MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. 

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer,
a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. 

O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes, a vida presente.


Nestes tempos de culto ao ego (facebook e instagram), de materialismo a toda prova, parece que palavras como solidariedade, compaixão, empatia, afeto e perdão perderam o sentido, ou não fazem parte da grande maioria dos habitantes do planeta Terra.

Vivemos num mundo árido. Carente de tudo que se chama vida. O homem não tem mais tempo para o amigo. Eu cheguei a ver num restaurante numa mesa com 6 pessoas todas teclando no whatsapp.

Eu tinha um amigo na adolescência, era o meu melhor amigo. Não me esqueço nunca uma noite perto ano novo de 79/80, nós estávamos sentados em folhas de coqueiros contemplando as estrelas em Calhetas, e começamos a falar do infinito que estava ali, bem pertinho da gente. Do sentido da vida, de nos despojarmos de tudo e seguir uma vida mais plena, mais em contato com a natureza.

Esse meu amigo era poeta. Anos mais tarde ele me disse que tinha matado o poeta que existia dentro dele. Acho que foi a pior coisa que ele fez na vida. Hoje ele não atende mais os meus telefonemas. E recentemente eu matei esse amigo dentro de mim.

Acho que temos que ter dignidade. A amizade é uma via de mão dupla. Insisti durante muito tempo nessa amizade, mas ela só existia da minha parte.

Acho interessante a mudança que ocorre em nós ao longo da vida e não percebemos. Pude sentir isso com o filme "Coração de Cristal", de Herzog, que quando o vi pela primeira vez aos 19 anos era fantástico. Quando o revi com 47, procurei aquele encanto todo e não achei. O filme era o mesmo, eu é que havia mudado.

Como dizia Heráclito: "Não é possível banhar-se no mesmo rio duas vezes. Afinal, as águas que correm no leito do rio nunca são as mesmas, nem nós somos os mesmos."

Hoje quase ninguém tem mais saco pra ler um texto longo. Eu entrei no Twitter por insistência de um amigo meu, mas nem abro. Sai do face já tem alguns meses, não suportei a egolatria dominante. Faço questão de não ter whatsapp.

Ainda me encanto com as belezas da natureza, e isso me dá um certo consolo, pois mostra que a sensibilidade ainda é uma coisa muito importante dentro de mim. Me encanto com pequenas coisas, como os olhos de um bebê, o sorriso de uma criança. Um ipê todo florido. O canto do sabiá. O sol nascendo no mar. A lua que não para de me inspirar. Essa cidade que eu amo tanto.

Dentre todas as coisas que eu me encanto a maior de todas é sentir a presença do Criador, ah isso é melhor do que a própria vida!

Amigos vem, amigos vão. É necessário aceitar as mudanças. Não podemos viver do passado.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O homem e seu carnaval, poema de Carlos Drummond de Andrade


Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

03 poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade




O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica

Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina...
As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam...
As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada...
As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida...
Como é bela a volúpia inútil de teus dedos...



O poema das mãos que não terão outras mãos numa tarde fria de Junho

Pobres das mãos viúvas, mãos compridas e desoladas, que procuram em vão, desejam em vão...
Há em torno a elas a tristeza infinita de qualquer coisa que se perdeu para sempre...
E as mãos viúvas se encarquilham, trêmulas, cheias de rugas, vazias de outras mãos...
E as mãos viúvas tateiam, insones, as friorentas mãos viúvas...



O poema dos olhos que adormeceram vendo a beleza da terra

Tudo eles viram, viram as águas quietas e suaves, as águas inquietas e sombrias...
E viram a alma das paisagens sob o outono, o voo dos pássaros vadios, e os crepúsculos sanguejantes...
E viram toda a beleza da terra, esparsa nas flores e nas nuvens, nos recantos de sombra e no dorso voluptuoso das colinas...
E a beleza da terra se fechou sobre eles e adormeceram vendo a beleza da terra... 





Via AQUI

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

“Lira Itabirana”, poema de Carlos Drummond de Andrade

Mariana-MG, destruída pela Vale / Samarco


I
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.
II
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!
III
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.
IV
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Drummond e Emílio Moura se despedem no Bar do Ponto, por Sebastião Nunes




– Um dia, no futuro, pouca diferença haverá entre ir ou ficar – disse o Poeta Maior, olhando o movimento da Avenida Afonso Pena. – Por enquanto, quem quiser se tornar conhecido, ou crescer de alguma forma, terá de ir para a capital federal.

            O bonde passa cheio de pernas:
            pernas brancas pretas amarelas.
            Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
            Porém meus olhos
            não perguntam nada.

            – Creio que é só uma opinião, Carlos – discordou o Poeta Menor. – Se todos pensassem assim, os estados se esvaziariam de seus talentos.
            – Mas não se esvaziam, Emílio? – argumentou o Poeta Maior. – Compare a produção artística e científica de Minas com a de São Paulo e do Rio. Mesmo São Paulo, só cresceu recentemente. Onde estão os talentos pernambucanos, gaúchos, cearenses, baianos? Na capital federal, é lá que estão.
            O Poeta Menor fitou o vazio da parede em frente. O que seria aquilo desenhado na parede? O que seria aquilo?

            Não olhes: é a noite
            completa que tomba.

            Não olhes: é a estrada
            que, súbito, acaba.

            Não olhes: é o anjo,
            teu anjo que chora.

            Não olhes.

            “Mas se é apenas o meio da tarde! Estarei ficando louco?”, pensou o Poeta Menor. E sacudiu a cabeça, desalentado e desnorteado.
            O Poeta Maior não percebeu e continuou:
            – Você é o poeta da dúvida, Emílio. Talvez você nunca saia daqui. Talvez o seu destino seja ficar escondido aqui, como se estivesse em Dores do Indaiá.

            Casas entre bananeiras
            mulheres entre laranjeiras
            pomar amor cantar.

            Um homem vai devagar.
            Um cachorro vai devagar.
            Um burro vai devagar.

            Devagar... as janelas olham.
            Eta vida besta, meu Deus.
           
A VIDA LÁ FORA

            Pernas subiam e desciam a Avenida. Braços desciam e subiam. Cabeças sacudidas, ombros, ternos, gravatas. Os dois poetas, o Maior e o Menor, ficaram em silêncio, apenas olhando. Na noite anterior houvera uma baita festa de despedida, ali mesmo. Mais de 50 convidados para o bota-fora: poetas, contistas, críticos, romancistas, políticos, jornalistas.

            Como captar da vida
            o que rápido, foge
            entre dúvidas? Como
            reter o que, mal surge,
            já se desfaz: é sombra
            algo vago, já neutro
            réstia pálida, eco
            de nada, de ninguém?

            – Sinto que você tem razão, Carlos – disse o Poeta Menor. – O problema é sair. Como escolher entre isto e aquilo? Entre aqui e lá? E por quê?

            O poeta municipal
            discute com o poeta estadual
            qual deles é capaz de bater o poeta federal.
           
            Enquanto isso o poeta federal
            tira ouro do nariz.

            – Eu escolhi, Emílio, é por isso que estou indo embora – disse o Poeta Maior. – Não estou cabendo aqui. Não que eu seja grande, não que eu seja maior que você ou os outros. Mas eu quero crescer. E só no embate cotidiano de uma cidade realmente grande, cosmopolita, posso crescer.
            – Compreendo, Carlos – disse o Poeta Menor. – Te conheço muito bem, mais do que a mim mesmo, que sou um poço de dúvidas. O que levamos aqui um mês pra decidir, na capital se decide em um dia, ou menos.
            – É mais ou menos isso – disse o Poeta Maior. – É como se o tempo fluísse em outra velocidade, outro ritmo, aqui é sempre com enervante lentidão.

            Viver não dói. O que dói
            é o tempo, essa força onírica
            em que se criam os mitos
            que o próprio tempo devora.

            Viver não dói. O que dói
            é essa estranha lucidez
            misto de fome e de sede
            com que tudo devoramos.

            Viver não dói, o que dói
            ferindo fundo, ferindo
            é a distância infinita
            entre a vida que se pensa
            e o pensamento vivido.

            Que tudo o mais é perdido.

            Os dois se levantam e se abraçam. Durante dias, meses e anos haviam dito tudo o que precisavam dizer. Serão amigos para sempre. Nada e ninguém será capaz de separá-los. Durante o resto da vida continuarão a se encontrar, a dedicar poemas um ao outro, a escrever longas cartas confessionais: do Rio para BH, de BH para o Rio.

            – Adeus, Carlos – disse o Poeta Menor. – Boa viagem e boa sorte.
            – Até logo, Emílio – disse o Poeta Maior. – Boa sorte pra você também.

            Um se foi e o outro ficou. Um cresceu no “embate cotidiano” de uma grande cidade, cheia de vida, agitação, conflitos – o outro ficou por ali mesmo, cigarrinho de palha atrás da orelha. Mas não foi apenas encontrar outros poetas federais que tornou o Poeta Maior o que prenunciava desde os primeiros versos. Nem foi só ficar entre poetas estaduais e municipais que tornou o Poeta Menor aquilo que seria até o fim.

            A alma de um era forjada em ferro. A do outro, em dúvidas.