Aos Mestres, com carinho!

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sábado, 18 de maio de 2019

Poema do homem, poema de Solano trindade


Desci à praia 
Para ver o homem do mar, 
E vi que o homem 
É maior que o mar 

Subi ao monte 

Pra ver o homem da terra, 
E vi que o homem 
É maior que a terra 

Olhei para cima 

Para ver o homem do céu, 
E vi que o homem 
É maior que o céu.

Solano Trindade

domingo, 30 de outubro de 2016

Tem Gente Fome, de Solano Trindade

Resultado de imagem para solano trindade

Nos vídeos, "Tem Gente Com Fome"  interpretados por Ney Matogrosso e Raquel Trindade
"Solano Trindade foi cidadão politizado e apontou problemas de desigualdade e injustiça na vida social brasileira. No debate da questão racial no país, tornou-se precursor. Ao longo da vida se envolveu com a poesia, as artes plásticas, o teatro e o folclore. Mas foi, sobretudo, o poeta do povo.Mas, por causa desta música, em 1944, Solano foi preso e teve o livro “Poemas de uma Vida Simples” apreendido. Além disso, em 1964, um dos seus quatro filhos, Francisco Solano, morreu numa prisão da ditadura militar. Com a arte e o artesanato que se espalhavam pelas ruas, a cidade ganhou outros contornos e deu origem ao novo nome do lugar, que passou a ser conhecido como Embu das Artes."

 TEM GENTE COM FOME (Solano Trindade)
Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Piiiiii
Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar
Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome 
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu

Contextualização da obra
Francisco Solano Trindade (1908 – 1974) foi poeta, folclorista, pintor, ator, teatrólogo e cineasta e sua obra é de importância fundamental para nosso país. Seu talento em tantas áreas esteve sempre voltado à luta contra o racismo e ao estudo e difusão da cultura afro-brasileira.
Ajudou a organizar o I Congresso Afro Brasileiro, ocorrido em 1934 Recife e participou ativamente do seguinte em 1936, em Salvador, além de fundar a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro Brasileiro, também no Recife. Na década de residiu no Rio de Janeiro e posteriormente em São Paulo, onde criou raízes e entrou para a história do Município de Embu das Artes.
Entre suas publicações mais importantes estão: Poemas de uma vida simples 1944, Rio de Janeiro, e Cantares do Meu povo 1963, São Paulo, além de uma antologia chamada Poemas Antológicos lançada em 2008 e ilustrada por sua filha Raquel Trindade. O poema apresentado“Tem gente com fome” é de seu primeiro livro (e está presente também na coletânea) e sempre despertou a ira dos dominantes. Fez com que livros fossem recolhidos na década de quarenta quando virou música, interpretada pelo grupo “Secos e Molhados” em 1975, foi proibida pela censura. Posteriormente, Ney Matogrosso a resgatou no disco “Seu tipo” em 1980.
Um de seus maiores méritos enquanto poeta foi escrever sobre os sentimentos do povo de forma simples e direta. Por onde passou, Solano incentivou e ajudou a construir inúmeras iniciativas culturais e políticas e, portanto, é possível aproximar-se bastante de seu legado. Toda a sua trajetória e produção artística merecem estudos mais aprofundados e ampla divulgação.
Temas relevantes
O poema se utiliza do trajeto que o trem realiza pelos subúrbios do Rio de Janeiro ao sair da Estação Leopoldina em direção à Estação Mauá. O que chama a atenção nesse trajeto ferroviário? A desigualdade social estampada no rosto de seus passageiras, no cenário desolador que se vê pela janela, nas precárias condições que possui o trem que carrega a força de trabalho da nossa sociedade.
Através da aliteração, o poeta dá voz a esse retrato, imprimindo ritmo aos versos através das sonoridades características do trem. Nos cinco primeiros versos o autor descreve o cenário que representa as carências da população (“tem gente com fome”) e ao citar o nome de todas as estações sinaliza para a amplitude do problema. Nos dois versos finais indica que há um clamor por justiça, que pode representar o desenvolvimento da consciência desse trabalhador explorado ao refletir sobre esse cenário (“se tem gente com fome, dá de comer”). Porém ao final do trajeto, esse desenvolvimento é interrompido pelo “freio de ar” que “todo autoritário manda o trem calar”, clara alusão a todo o aparato repressivo dominante e possivelmente a todas as formas de dominação, que não só a repressão.
A última estrofe não necessariamente sentencia o destino daqueles que vivem esta cotidianidade que parece não ter fim. O trem, sempre em movimento, voltará à Leopoldina e passará novamente pelo cenário descrito e o trabalhador em algum momento poderá fazer o trem prosseguir por novos trilhos, sem freios rumo à libertação de fato do povo explorado.
Ficha técnica
Poema: Tem gente com fome
Livro: Poemas antológicos, Nova Alexandria, 2008
Autor: Solano Trindade
Ilustrações: Raquel Trindade

"(...) Opiniões sobre a obra de Solano Trindade:
Carlos Drumond de Andrade, em carta a Solano, 02/12/1944: "A leitura dos seus versos deu-me confiança no poeta que é capaz de escrever Poema do Homem e O Canto dos Palmares. Há nesses versos uma força natural e uma voz individual, rica e ardente, que se confunde com a voz coletiva."
Roger Bastides, sociólogo e escritor francês, viveu no Brasil entre 1938-1954, autor de "A Poesia Afro-Brasileira", tradutor de "Casa Grande & Senzala" para o francês: "O senhor faz dos seus versos uma arma, um toque de clarim, que desperta as energias, levanta os corações, combate por um mundo melhor."
Darcy Ribeiro, no livro "Aos Trancos e Barrancos - Como o Brasil deu no que deu", 1985: "O Teatro Experimental do Negro funcionou como um núcleo ativo de conscientização dos negros, para assumirem orgulhosamente sua identidade e lutar contra a discriminação".(...)"
Aqui o texto na íntegra,  contendo vídeos

quarta-feira, 1 de junho de 2016

TEM GENTE COM FOME, poema de Solano Trindade


Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Piiiiii
Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar
Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Solano Trindade, o poeta negro



Aproveitando o embalo do post anterior, resgato outra matéria que fiz, só que, desta vez, para outro jornal, o “Mea Boca”, ótimo jornal, também de vida curta, do CALL (Centro Acadêmico de Letras e Linguística da Unicamp). É uma matéria sobre um poeta e artista brasileiro fantástico, mas terrivelmente esquecido: Solano Trindade. Lembro que na época, só consegui ter acesso a seus livros de poesia através de sua filha, Raquel, também fantástica artista popular. O texto é longo (novamente), mas vale a pena conhecer este que cumpriu no Brasil um papel muito similar ao do Nicomedes Santa Cruz, no Peru: de resgatar a força e a beleza da cultura negra. Ao final, um vídeo com sua filha Raquel declamando o famosíssimo “Tem gente com fome” que chegou a ser musicado pelos Secos & Molhados.

O Poeta NEGRO

“A leitura dos seus versos deu-me confiança no poeta que é capaz de escrever Poema do Homem e O Canto dos Palmares. Há nesses versos uma força natural e uma voz individual, rica e ardente, que se confunde com a voz coletiva.”

[ Carlos Drumond de Andrade, em carta a Solano, 02/12/1944 ]


Ele foi operário, comerciário, funcionário público, jornalista, poeta, cineasta, pintor, homem de teatro e um dos maiores animadores culturais brasileiros do seu tempo. Foi premiado no exterior e elogiado por celebridades como Carlos Drummond, Darcy Ribeiro, Otto Maria Carpeaux, Sérgio Milliet e tantos outros. Esse negro (e pobre) escritor recifense está hoje esquecido nos círculos culturais, apesar de tudo o que fez pela cultura brasileira, pelo resgate da arte popular e pela independência da cultura negra. Esquecido justamente porque fez dos seus versos, como de toda sua arte, “uma arma, um toque de clarim, que desperta as energias, levanta os corações, combate por um mundo melhor.”, nas palavras do sociólogo francês Roger Bastides. Este artista simples e contundente, genial e pobre, crítico e negro ainda não foi digerido por nossa inteligentsia. Nós, brancos, porque na universidade somos todos brancos, reverenciamos agora este negro poeta negro.


“Ainda sou poeta

meu poema
levanta os meus irmãos.
Minhas amadas
se preparam para a luta,
os tambores
não são mais pacíficos
até as palmeiras
têm amor à liberdade”.
(trecho do poema “Canto dos Palmares”)


O palco é Recife, 1908, apenas vinte anos após a abolição da escravidão. Ali, no humilde bairro de São José, no dia 24 de julho, enquanto seu pai batia sola e sua mana pisava milho no pilão para o angu das manhãs, nascia, co´a alma batizada pelos tambores, atabaques, gonguês e agogôs, o negro Francisco Solano Trindade.


Considerado por vários críticos o criador da poesia assumidamente negra no Brasil, Solano Trindade nasceu imerso na cultura popular pernambucana, fortemente marcada pelas raízes negras. Desde criança acompanhava seu pai, o sapateiro e cômico Manuel Abílio, nas danças do Pastoril e do Bumba-meu-boi e lia, a pedido de sua mãe Emerenciana, quituteira e operária, novelas, literatura de cordel e poesia romântica. O primeiro encontro sistemático de Solano com a poesia surgiu quando freqüentava a igreja presbiteriana. Logo, seus primeiros versos tratavam de assuntos religiosos. Algum tempo depois, rompeu com a acomodação da igreja em relação aos problemas sociais citando uma passagem do evangelho de João: “quem não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”.


A década de 1930 no Brasil é marcada por uma releitura da questão racial brasileira, especialmente depois que Gilberto Freyre lança seu “Casa Grande & Senzala”. Intelectuais brancos tendem a valorizar a contribuição cultural dos descendentes africanos. Com esse cenário montado, em 1934, Solano, que desde cedo buscava compreender sua identidade e raízes, organiza o I e II Congressos Afro-Brasileiros no Recife e em Salvador. Funda ainda o Centro Cultural Afro-Brasileiro e a Frente Negra Pernambucana, uma extensão da Frente Negra Brasileira. Por essa mesma época publica os seus “Poemas Negros”.


POEMA AUTOBIOGRÁFICO
“Quando eu nasci,

Meu pai batia sola,
Minha mana pisava milho no pilão,
Para o angu das manhãs…
Portanto eu venho da massa,
Eu sou um trabalhador…

Ouvi o ritmo das máquinas,

E o borbulhar das caldeiras…
Obedeci ao chamado das sirenes…
Morei num mucambo do “”Bode”",
E hoje moro num barraco na Saúde…

Não mudei nada…”


Na década de 1940, depois de deixar o Recife, Solano fixa residência no Rio de Janeiro. Na cidade maravilhosa, frequentava o Café Vermelhinho onde se reuniam intelectuais, políticos e artistas. Ali era amigo de pessoas como o Barão de Itararé e Santa Rosa. Em meio a essa efervescência cultural, Solano funda o comitê Democrático Afro-Brasileiro, o Teatro Folclórico Brasileiro, lança, no auditório da UNE, a Orquestra Afro-Brasileira e cria o Teatro Experimental do Negro (TEN). Durante a estréia no Rio, em maio de 1945, o TEN sofreu violentos ataques dos conservadores. Em editorial, o jornal O Globo chegou a afirmar que se tratava de “um grupo palmarista tentando criar um problema artificial no País” referindo-se ao racismo que segundo o jornal não existia no Brasil. Para Darcy Ribeiro o TEN foi “um núcleo ativo de conscientização dos negros, para assumirem orgulhosamente sua identidade e lutar contra a discriminação”.


“A minha poesia continuará com o estilo do nosso populário, buscando no negro o ritmo, no povo em geral as reivindicações sociais e políticas e nas mulheres, em particular, o amor. Deixem-me amar a tudo e a todos”. (Solano)

Mais tarde (1950), Solano concretizou um dos seus grandes sonhos, fundando, com apoio do sociólogo Edson Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro (TPB), cujo elenco era formado por operários, domésticas, comerciários e estudantes. O TPB apresentava espetáculos de batuques, congadas, caboclinhos, capoeira, coco e outras manifestações populares, viajando por toda a Europa. Em 1955 criou o Brasiliana, grupo de dança brasileira que bateu recorde de apresentações no exterior. Realizou ainda em Praga o documentário “Brasil Dança”.


Núcleo de Teatro Experimental do Negro-SP (1951) / Diretor Solano Trindade


OLORUM ÈKE **
“Olorum Ekê

Olorum Ekê
Eu sou poeta do povo
Olorum Ekê

A minha bandeira

É de cor de sangue
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Da cor da revolução
Olorum Ekê

Meus avós foram escravos

Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu ainda escravo sou
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Os meus filhos não serão
Olorum Ekê
Olorum Ekê”

** Olorum Ekê: “povo do Santo forte”, termo Iorubá.

De volta ao Brasil, Solano vem a São Paulo e é convidado pelo escultor Assis para apresentar-se no Embu. Leva todo o seu grupo. Dormem no barracão de Assis nos finais de semana, quando mostram sua arte para multidões. Solano apaixona-se pelo Embu, muda-se para lá e sua casa torna-se uma núcleo artístico. É a atividade de Solano e do escultor Assis que faz surgir a feira de artesanato e revoluciona o local, fazendo do Embu “das Artes”, como passou a ser conhecido, um centro de cultura popular. Depois que Embu passou a ser atração mais turístico-comercial que artística, deixa a cidade e vai viver na capital paulista.

Como ator, trabalhou nos filmes “Agulha no Palheiro”, “Mistérios da Ilha de Vênus”, “Santo Milagroso” e “A hora e a vez de Augusto Matraga” e mais: foi co-produtor do filme “Magia Verde”, premiado em Cannes. No teatro, foi Solano Trindade quem primeiro encenou (1956) a peça “Orfeu da Conceição”, de Vinícuis de Morais, depois transformada em filme pelo francês Marcel Cammus com o nome de “Orfeu Negro”.

Solano construía, de forma indissociável sua vida política e sua veia artística. Possuía a felicidade dos homens que se dedicam a uma grande obra e se confundem com ela. Essa era sua ética, sua vida, sua luta, mais do que uma estética. Filiado ao Partido Comunista, Solano Trindade promovia reuniões da célula Tiradentes na sua própria casa. Durante a perseguição aos “vermelhos”, empreendida pelo governo Dutra, invadem sua casa. A polícia vira o colchão, à procura de armas. Exemplares de seus livros são apreendidos e o “Poemas de uma Vida Simples” é tirado de circulação. A filha Raquel lembra: “Papai jamais esconderia armas. Sua luta era feita com idéias”. Preso, por causa do poema “Tem gente com fome”, Solano não se abala. Raquel e a mãe, Margarida, percorrem as cadeias até encontrá-lo. Quando sai, Solano parece fortalecido. Embora tenha olhos tristonhos, seu otimismo é contagiante, nasce do seu amor pela arte e pela vida. Continua escrevendo, fazendo teatro e espalhando sonhos e esperanças por onde passa. Em 1964, um dos seus quatro filhos (Francisco) é assassinado numa prisão da didatura militar.


NEM SÓ DE POESIA VIVE O POETA **
“Nem só de poesia vive o poeta

há o “fim do mês”
o agasalho
a farmácia
a pinga
o tempo ruim, com chuva
alguém nos olhando
policialescamente
De vez em quando
um pouco de poesia
uma conta atrasada
um cobrador exigente
um trabalho mal pago
uma fome
um discurso à moda Ruy
E às vezes uma mulher fazendo carinho
Hoje a lua não é mais dos poetas
Hoje a lua é dos astronautas.”

** poema inédito até 2008, quando foi revelado por sua filha Raquel.

No início da década de 70, após o esvaziamento do Teatro Popular Brasileiro, Solano como sempre pobre e agora doente passa por vários hospitais. No dia 20 de fevereiro de 1974, o poeta morre como indigente, num hospital no Rio de Janeiro. Sua obra é reconhecida por poucos assim como sua morte, a ponto de sua produção sequer passar pelos portões das universidades, como acontece aqui na Unicamp. A literatura negra não tem “espaço” para estar nas salas de nosso instituto de letras: quantos negros temos no IEL? Quantos se interessariam? Em toda a Unicamp existe um único livro de Solano (no Instituto de Artes!)… doado pela própria filha, Raquel.


O reconhecimento de Solano vem mesmo do povo com quem lutou, vem do povo para quem se entregou. Em 1976, foi tema da escola de samba Vai-Vai, com enredo elaborado por sua filha. Os versos do samba ainda ecoam: “Canta meu povo, vamos cantar em homenagem ao poeta popular Vai-Vai é povo, está na rua saudoso poeta, a noite é sua.” Um das poucas tentativas de trazer de volta o nome de Solano Trindade para o grande público ocorreu entre 1975, quando o poema “Tem Gente com Fome” iria integrar o disco dos Secos & Molhados. Mas, como explicou João Ricardo (que musicou o poema), problemas com a censura impediram a gravação. Só na década de 80, Ney Matogrosso gravaria a canção.

A poesia de Solano o marcou. Orgulhava-se ser chamado de “poeta negro”. Foi comparado a importantes escritores como o cubano Nicolas Guilhén – de quem foi amigo – e o americano Langston Hughes. A fala poética de Solano Trindade, que não se afasta do realismo ingênuo e da solidão da vida cotidiana do povo, é sempre dominada pela intuição e fascinada pelo delírio da alma coletiva que canta com ternura e nobreza. Sua poesia enreda-se, quase sempre de maneira direta a um tema essencial: o anseio de liberdade tão próprio de sua etnia e tão latente em sua classe social, onde o poeta assume sem indiferença a sua circunstância em relação ao mundo.

As palavras escritas num poema à filha Raquel se tornariam proféticas: “Estou conservado no ritmo do meu povo. Me tornei cantiga determinadamente e nunca terei tempo para morrer.”

GRAVATA COLORIDA
“Quando eu tiver bastante pão

para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada…”


Raquel, Unicamp e Urucungos

Em 1988, Raquel Trindade foi convidada para lecionar na Unicamp, mesmo não tendo diploma universitário. Os conhecimentos transmitidos pelo pai ilustre e a luta contra a discriminação racial bastaram para que ela desse aulas de folclore, teatro negro e sincretismo religioso. “Quando cheguei lá”, conta Raquel “só tinha um negro na turma de graduação. Aí eu pedi à Universidade para que fosse criado um curso de extensão para que eu pudesse ensinar folclore à comunidade negra e às outras graduações”.


Na primeira turma de extensão universitária houve 170 inscritos para ouvir sobre folclore nacional e cultura negra. Para Raquel, samba precisa ser ensinado, sim. “Há coisas que as pessoas precisam saber. Precisa falar dos escravos de Campinas, da Fazenda Barão Geraldo, da Santa Genebra, Rio das Pedras. Lá, os escravos faziam rodas de samba de bumbo nas horas vagas. Precisa contar a história da dança, também. Nas Escolas Lavapés e Vai-Vai, o samba era dançado mais nos quadris do que nos pés. O samba de agora é todo copiado do Rio de Janeiro”.

A partir da procura pelo curso que passou a ministrar na Unicamp, a folclorista teve a idéia de criar o grupo Urucungos, puítas e quinjengues. Esses são nomes de instrumentos bantos que foram trazidos pelos escravos para São Paulo. “O Urucungo é composto de negros da comunidade, de funcionários da Unicamp, alunos e professores”. A maior parte das danças do grupo foram pesquisadas e criadas por Raquel. O grupo existe até hoje. Raquel parou de lecionar na Unicamp pois não aguentou o preconceito academicista que exigia saberes “diplomados” e “certificados”.

“Tem gente com fome” de Solano lido por sua filha Raquel

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

5 POEMAS DE SOLANO TRINDADE, O POETA NEGRO

(Liberto, filho de Solano Trindade e Gal Martins)


CANTO DOS PALMARES (trechos)
“Ainda sou poeta
meu poema
levanta os meus irmãos.
Minhas amadas
se preparam para a luta,
os tambores
não são mais pacíficos
até as palmeiras
têm amor à liberdade”.





POEMA AUTOBIOGRÁFICO
“Quando eu nasci,
Meu pai batia sola,
Minha mana pisava milho no pilão,
Para o angu das manhãs…
Portanto eu venho da massa,
Eu sou um trabalhador…

Ouvi o ritmo das máquinas,
E o borbulhar das caldeiras…
Obedeci ao chamado das sirenes…
Morei num mucambo do “”Bode”",
E hoje moro num barraco na Saúde…

Não mudei nada…”



OLORUM ÈKE **
“Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu sou poeta do povo
Olorum Ekê

A minha bandeira
É de cor de sangue
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Da cor da revolução
Olorum Ekê

Meus avós foram escravos
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu ainda escravo sou
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Os meus filhos não serão
Olorum Ekê
Olorum Ekê”

** Olorum Ekê: “povo do Santo forte”, termo Iorubá.



NEM SÓ DE POESIA VIVE O POETA **
“Nem só de poesia vive o poeta
há o “fim do mês”
o agasalho
a farmácia
a pinga
o tempo ruim, com chuva
alguém nos olhando
policialescamente
De vez em quando
um pouco de poesia
uma conta atrasada
um cobrador exigente
um trabalho mal pago
uma fome
um discurso à moda Ruy
E às vezes uma mulher fazendo carinho
Hoje a lua não é mais dos poetas
Hoje a lua é dos astronautas.”

** poema inédito até 2008, quando foi revelado por sua filha Raquel.



GRAVATA COLORIDA
“Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada…”



Via ..eu passarin..