Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

domingo, 30 de novembro de 2014

Vou-me Embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

(Manuel Bandeira)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

O amor




(Adptação de Caetano Veloso para um poema de Vladimir Maikovski)

Talvez, quem sabe, um dia
por uma alameda do zoológico
ela também chegará
ela que também amava os animais
entrará sorridente assim como está
na foto sobre a mesa
ela é tão bonita
ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
o século trinta vencerá
o coração destroçado já
pelas mesquinharias
agora vamos alcançar tudo o que não podemos amar na
vida
com o estrelar das noites inumeráveis
ressuscita-me
ainda que mais não seja
porque sou poeta
e ansiava o futuro
ressuscita-me
lutando contra as misérias do quotidiano
ressuscita-me por isso
ressuscita-me
quero acabar de viver o que me cabe
minha vida, para que não mais existam amores servis
ressuscita-me
para que ninguém mais tenha de sacrificar-se
por uma casa, um buraco
ressuscita-me
para que a partir de hoje a partir de hoje
a família se transforme e o pai seja pelo menos o
Universo
e a mãe seja No mínimo a Terra
a Terra
a Terra

RESSUSCITA-ME!.


Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mãe,
pelo menos a Terra.

(Vladimir Maiakovski)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

UM POVO INTEIRO QUE SE LEVANTA



De coração arrepiado, saudando este imenso povo lutador e a cultura que construíram aos longo de gerações, o Alentejo, e o seu povo, vê agora reconhecido o seu cante, é Património Cultural Imaterial da Humanidade, atribuído pelo Comité Internacional da UNESCO. Apesar de agora, todos reconhecerem este feito, não esqueço que houve quem abandonou este processo de candidatura por este ser apoiado desde a primeira hora pelos comunistas. Há quem olhe para estes processos, pensando sempre e apenas nos seus próprios interesses políticos, mas hoje o povo alentejano vingou-se. Levantou bem alto a sua voz, afirmou a sua cultura e projectou o futuro. (vídeo realizado hoje de manhã na Escola Mário Beirão em Beja).

"Nunca vi um alentejano cantar sozinho com egoísmo de fonte. Quando sente voos na garganta, desce ao caminho da solidão do seu monte, e canta em coro com a família do vizinho. Não me parece pois necessária outra razão - ou desejo de arrancar o sol do chão - para explicar a reforma agrária do Alentejo. É apenas uma certa maneira de cantar." por José Gomes Ferreira



Vídeo "Cante Alentejano" publicado pela Câmara Municipal de Serpa

O VERDADEIRO CAMINHO DO SOL




O verdadeiro caminho do sol
despe-se do escuro
e veste-se de verde.
Talvez seja apenas
uma linha reta,
insípida e previsível,
mas nele está contida
toda a alegria da manhã.
O verdadeiro caminho do sol
descerra-me o azul piscina
pairando sobre a cidade.
Talvez seja apenas
a abóbada celeste
diariamente reinventada
pela Natureza,
mas nele eu mergulho
a minha alegria
recém despertada.

(Clóvis Campêlo)

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Seis motivos por que a religião faz mal para a sociedade



No DCM

Em 2010, o sociólogo Phil Zuckerman publicou o livro “A Sociedade sem Deus: O que as nações menos religiosas podem nos dizer sobre o Contentamento”. Zuckerman alinhou provas de que as sociedades menos religiosas tendem também a ser as mais pacíficas, prósperas e justas, com políticas públicas que ajudam as pessoas a florescer, enquanto diminuem o desespero e a gula econômica.

Podemos discutir se a prosperidade e a paz levam as pessoas a ser menos religiosas ou vice-versa. Na verdade, as evidências apóiam a visão de que a religião prospera com a ansiedade existencial. Mas, mesmo se este for o caso, há boas razões para suspeitar que a ligação entre religião e sociedades com problemas vai nos dois sentidos. Aqui estão seis indicativos de que religiões fazem com que seja mais difícil alcançar a prosperidade pacífica.

1. A religião promove o tribalismo.

Infiel, selvagem, herege. A religião divide entre conhecedores e estranhos. Ao invés de boas intenções, os adeptos muitas vezes são ensinados a tratar estranhos com desconfiança. “Não vos ponhais em jugo desigual com incrédulos”, diz a Bíblia cristã. “Eles querem que você não creia como eles não creem, e então vocês serão iguais; portanto, não sejais amigos deles “, diz o Alcorão (Sura 4:91).

Na melhor das hipóteses, ensinamentos como esses desencorajam ou mesmo proíbem os tipos de amizade e casamentos mistos que ajudam clãs e tribos a passarem a fazer parte de um todo maior. Na pior das hipóteses, os forasteiros são vistos como inimigos de Deus e da bondade, potenciais agentes de Satanás, sem moralidade e não confiáveis. Os crentes podem se amontoar, antecipando o martírio. Quando tensões latentes entram em erupção, sociedades se dividem com falhas sectárias.

2. A religião ancora crentes à Idade do Ferro.

Concubinas, encantamentos mágicos, povo escolhido, apedrejamentos… A Idade do Ferro foi uma época de superstição galopante, ignorância, desigualdade, racismo, misoginia e violência. A escravidão tinha sanção de Deus. Mulheres e crianças foram literalmente posses dos homens. Pessoas desesperadas sacrificavam animais, produtos agrícolas, e os soldados inimigos organizavam holocaustos com o objetivo de apaziguar os deuses.

Os textos sagrados, incluindo a Bíblia, a Torá e o Alcorão, preservaram e protegeram os fragmentos da cultura da Idade do Ferro, colocando o nome de Deus para endossar alguns dos piores impulsos humanos. Qualquer crente que queira desculpar o seu próprio temperamento, senso de superioridade, belicismo, intolerância ou destruição planetária pode encontrar validação nos escritos que afirmam ser de autoria de Deus.

Hoje, a consciência moral da humanidade está evoluindo, fundamentada em uma compreensão cada vez mais profunda e mais ampla da Regra de Ouro. Mas muitos crentes conservadores não podem avançar. Eles estão ancorados à Idade do Ferro. Isto os coloca contra as mudanças em uma batalha interminável que consome energia e atrasa a resolução criativa de problemas.

3. A religião faz da fé uma virtude.

Confie e obedeça pois não há maneira de ser feliz sem Jesus. O Senhor opera de formas misteriosas, dizem os pastores a pessoas abaladas por um câncer no cérebro ou um tsunami. A fé é uma virtude.

Como a ciência ganhar o território que já foi da religião, crenças religiosas tradicionais exigem cada vez maiores defesas mentais contra informações ameaçadoras. Para ficar forte, a religião treina os crentes para a prática do auto-engano, afastando evidências contraditórias. Esta abordagem se infiltra em outras partes da vida. O governo, em particular, torna-se uma luta entre ideologias, em vez de uma busca para descobrir entre soluções práticas, baseadas em evidências que promovam o bem-estar.

4. A religião desvia impulsos generosos e boas intenções.

Sentiu-se triste sobre o Haiti? Doe para nossa mega-igreja. Grades campanhas em tempos de crise, felizmente, não são a norma, mas a religião redireciona a generosidade a fim de perpetuar a própria religião. Pessoas generosas são incentivadas a dar dinheiro para promover a própria igreja, em vez de o bem-estar geral. A cada ano, milhares de missionários atiram-se ao duro trabalho de salvar almas em vez de salvar vidas ou salvar o nosso sistema de suporte de vida planetária. O seu trabalho, livre de impostos, engole capital financeiro e humano.

Os judeus ortodoxos gastam dinheiro em perucas para mulheres. Os pais evangélicos, forçado a escolher entre a justiça e o amor, chutam adolescentes gays para a rua.

5. A religião promove a inação.

O que há de ser, será. Confia em Deus. Todos já ouvimos essas frases, mas às vezes não reconhecemos a profunda relação entre religiosidade e resignação. Nas maioria das seitas conservadores do judaísmo, cristianismo e islamismo, as mulheres são vistas como mais virtuosas se deixarem Deus gerir o seu planejamento familiar. As secas, a pobreza e o câncer são atribuídos à vontade de Deus, em vez de às decisões erradas; fieis esperam que Deus resolva os problemas que eles poderiam resolver por si próprios.

Essa atitude prejudica a sociedade em geral, bem como os indivíduos. Quando as maiores religiões de hoje surgiram, as pessoas comuns tinham pouco poder de mudar as estruturas sociais, quer através da inovação tecnológica ou da defesa. Viver bem e fazer o bem, em grande parte, eram assuntos pessoais. Quando essa mentalidade persiste, a religião inspira piedade pessoal sem responsabilidade social. Os problemas estruturais podem ser ignorados, enquanto o crente é gentil com amigos e familiares e generoso para com a comunidade tribal de crentes.

6. As religiões buscam o poder.

As religiões são instituições criadas pelo homem, assim como empresas com fins lucrativos. E, como qualquer empresa, para sobreviver e crescer uma religião precisa encontrar uma maneira de construir poder e riqueza e competir por participação de mercado. Hinduísmo, Budismo, Cristianismo, qualquer grande instituição religiosa duradoura é tão especialista nisso como a Coca-cola ou a Chevron. E estão dispostos a exercer seu poder e riqueza no serviço de auto-perpetuação, ainda que prejudiquem a sociedade em geral.

Na verdade, prejudicar a sociedade pode realmente ser parte da estratégia de sobrevivência da religião. Nas palavras do sociólogo Phil Zuckerman e do pesquisador Gregory Paul, “nem uma única democracia avançada que goza de condições sócio-econômicas benignas mantém um alto nível de religiosidade popular.” Quando as pessoas se sentem prósperas e seguras, a dependência da religião diminui.

CAMINHOS

Por entre arcas trabalhadas com exóticos
                motivos,
chaves de ouro,
estranhas máscaras
             de deuses,
brasões de famílias
e fantasmas mal-amados,
chego a teu coração:
tão estranho como caminhos
             ‘nunca antes percorridos’,
             becos sem saída,
             pântanos,
             selvas,
             selvagens nus,
             belos corpos.

Tão igual como fadiga, mel, beijo, tédio
             e essas tardes infinitas.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Chico, sobre a internet

10-coisas-que-somente-chico-buarque-poderia-ter-feito-6



"Não ter nascido lindo feito Elvis Presley ou Marlon Brando
Não ter feito uma canção com Chico Buarque ou com Bob Dylan
Não ter as pernas da Isadora Duncan ou as do Maradona
Nem a habilidade de um Garricha, de um Heraldo do Monte."

"O Espírito de 1945 hoje", um documentário de Kenneth Loach


Por Léa Maria Aarão Reis, via Carta Maior

Kenneth Loach, de 77 anos, é filho de operários de Nuneaton, no Reino Unido, pequena cidade próxima de Coventry, uma das mais arrasadas pela blitzkrieg de Hitler na Segunda Guerra Mundial.

Sua idade e sua origem são duas chaves para entender a coerência e a profunda humanidade presentes na filmografia desse cineasta socialista, um dos grandes mestres do cinema. Sua realidade vem contida nos perfis afetuosos da classe operária inglesa e das suas lutas, na memória da experiência da guerra vivida na própria carne e nos difíceis anos do pós-guerra imediato, na Inglaterra. “Venho de um meio operário,” costuma dizer Loach. “É o mundo que conheço e que me interessa retratar.”

O seu mais recente longa-metragem, O Espírito de 45, exibido no Festival do Rio, é mais um documentário do alentado pacote de 148 documentários apresentados, este ano, entre as 380 produções da mostra.

O filme é objeto de comemoração especial. Marca o retorno do mestre inglês ao gênero do filme doc do qual se afastara há décadas e no qual é inigualável. Apresenta emocionantes imagens de época, pérolas históricas, que Loach e sua equipe garimparam em diversos depósitos esquecidos, no Reino Unido. Documentos tratados com tal apuro técnico que se assemelham a imagens produzidas hoje. Um deles mostra Churchill discursando na praça, em campanha para Primeiro Ministro pelos conservadores (acabou derrotado pelos trabalhistas) e, surpreso e constrangido, sendo vaiado. Imagem rara. “Com a vitória socialista começa uma época triunfante”, diz uma mulher em entrevista. “Na educação, por exemplo, as escolas formavam cidadãos porque as crianças aprendiam a pensar por elas próprias.” Naquele tempo, depõe outro homem, “tínhamos o controle sobre nossas vidas.” 

A miséria extrema da população nos meses subsequentes ao armistício, o estado falido e exaurido pelo esforço de guerra, o desemprego, a fome, crianças andrajosas brincando nas ruas, e tocantes entrevistas com trabalhadores, homens e mulheres hoje idosos, mineiros, estivadores, ferroviários, enfermeiras, médicos e professores todos se lembram da época de agonia. 

A montagem de cenas e sequências capta com vivacidade (uma das marcas do cinema de Loach) e intenso realismo a atmosfera de 1945 quando centenas de milhares de pessoas viviam em favelas. “Às vezes”, comenta um velho, “eu e mais oito crianças, meninos e meninas, dormíamos na mesma cama convivendo com pulgas, percevejos e ratos. A comida ainda era racionada e comia-se pão e geléia dias a fio.” 

A narrativa do filme começa com uma imagem ícone da época, a jovem radiante nas festas populares da vitória, em Piccaddily. Em seguida, a energia e o entusiasmo das pessoas construindo o estado de Bem-Estar Social britânico e a consciência de união e solidariedade que tomaram conta do Reino Unido - o espírito de 1945. Uma nova Londres é construída, com moradias dignas para os trabalhadores. Casas com banheiros também no andar térreo (antes, só no andar superior) e um pequeno quintal, o tão caro backyard dos ingleses.

A partir de então se seguem as nacionalizações. Keynes participa do governo como conselheiro informal. Em 1946 o Ministro da Saúde Anerin Bevan cria um Serviço Nacional de Saúde, o célebre NHS (National Health Service). Parte do princípio que é inadmissível o elemento comercial interferir na relação entre médico e paciente. “Meu avô“, diz uma mulher, “só começou a usar óculos aos 70 anos, com a criação do NHS. Antes, sem dinheiro, lia usando um pedaço de vidro de fundo de garrafa à maneira de lupa.” Outro trabalhador aposentado comenta com orgulho: “Eu ficaria envergonhado de ser cidadão de um país tão rico como os Estados Unidos, sem um sistema de saúde semelhante ao nosso.”

O filme vai seguindo passo a passo os anos seguintes. Em 1947, nacionalização das minas. Os mineiros passam a trabalhar em condições seguras. Dos portos - até 47 os estivadores não contavam com salário fixo. Um ano depois chega a vez das ferrovias, outro acontecimento histórico. Em 1949 o gás é nacionalizado e, em 1951, o ápice do estado de Bem-Estar Social é celebrado com o Festival da Inglaterra.

No terço final do filme, Loach apresenta o desastre tatcheriano dos anos 70. Uma única imagem marca a aparição da Primeira Ministra em um dos seus primeiros discursos em praça pública no qual invoca São Francisco de Assis (!). É vaiada.

Começa o desmonte do estado de Bem-Estar Social e das suas estruturas. Redução dos salários, demissões em massa, o enfraquecimento dos sindicatos e a repressão policial. Em 1984 a água é privatizada, em 86 o gás, em 87 a aviação comercial e em 88 as grandes manifestações de rua são reprimidas violentamente pela polícia de ferro. Em 1989 é a vez das docas e a volta do trabalho informal dos estivadores. No mesmo ano a eletricidade é privatizada, em 94 é a vez dos portos. Um milhão de jovens ingleses engrossava, então, as fileiras dos desempregados. Em 2011 foi a vez dos correios. As imagens são desalentadoras.

Vemos empresas terceirizadas contratadas, hoje, para atuar no serviço público, em especial nos hospitais. ”Não há mais nenhum país para os pobres”, diz uma idosa para a câmera de Loach. “E estaremos acabados se o governo conseguir terminar com o Serviço Nacional de Saúde.” Será a última fronteira.

Por que Kenneth Loach fez este filme? Os jornalistas que cobriram o Festival de Cannes – onde ele foi premiado seis vezes; duas com a Palma de Ouro -, em maio passado, perguntavam. Ele respondeu ao jornal La Repubblica de Roma: “Porque a sociedade hoje não funciona; é um caos. E para que as pessoas pensem no que pode ser feito, outra vez, na promoção do bem-estar social. Meu filme é para lembrar o que foi conseguido no passado.” E aproveitou para lamentar: “Não há mais esquerda na Europa. Ela se desmanchou na social-democracia e foi devastada pelas divisões internas.”

O Espírito de 45 é um filme esférico. Depois das sequencias otimistas com imagens das festas do Labour Party, nas ruas, tratadas em tecnicolor, ele volta à mesma imagem do início. A moça de Piccadilly no meio de uma multidão exultante e a trilha musical insinuando o que pode ser transformado, novamente, hoje. É uma daquelas músicas das bandas dançantes de época pinçadas por George Fenton, compositor e colaborador de Loach em onze filmes do mestre. 

Mas uma ponta de tristeza vem do trompete de Harry James. 

domingo, 23 de novembro de 2014

Dxrgxs

Angelique Kidjo - Summertime

O ÁLCOOL

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“O álcool!

Suprimam-no e adeus código, adeus júri, adeus paixões!

Na conta corrente do Crime seu débito é tremendo.

Mas que lindo saldo tem na conta corrente do Sonho!

Suprimam-no e a tristeza da vida aumentará.

Ninguém calculou ainda a soma de momentos felizes, de sonhos róseos, de êxtases

que borbotaram do seio das garrafas.”


(Monteiro Lobato)

sábado, 22 de novembro de 2014

Amostra grátis

Chico explora o legado do pai em seu novo romance

Chico

Publicado no blog da Cia das Letras. O autor, Pedro Meira Monteiro, é crítico literário e professor na Universidade Princeton.

Via DCM

Uma história sempre esconde outra, que esconde outra, e assim por diante, até que a cadeia se interrompe e surge um relato capaz de siderar todas as histórias. A narrativa funciona então como um alento que permite às personagens de uma trama confusa respirar. No novo livro de Chico Buarque, esse sopro vital vem do século XX inteiro: nazismo, cultura de massas, guerra fria, ditaduras, intelectuais, música, afeto e política, tudo se junta na busca pelo que o pai deixou inexplicado.
O que o pai deixou não é pouca coisa. Sergio Buarque de Holanda (1902-82) não foi só o maior historiador brasileiro, como se tornou totem da tribo: devorador de livros, crítico literário e testemunha de um tempo em que a cultura ainda pretendia ser total, como uma biblioteca de Babel. A certa altura de O irmão alemão, a família de Sergio de Hollander recebe a visita do agente da ditadura Jorge Borges, que confisca livros da portentosa biblioteca cujos volumes formam as colunas que o narrador pensa sustentarem a casa. E o que seria desse lar sem os livros?
Um mistério envolve o professor Hollander, que lê e fuma ininterruptamente em sua espreguiçadeira, preparando uma obra que nunca se conclui. Entre os afazeres domésticos, sua mulher, Assunta, o assiste, trazendo-lhe um Bocage agora, um Pirandello depois, um Virgílio logo mais. De seu escritório no segundo andar, “distraidamente atento a tudo”, o pai vigia a casa, imerso num mundo que não está nem cá nem lá. É nesse estado perene de ficção que encontramos o que já conhecemos, embora, como nos sonhos, o familiar pareça estranhamente distante.
O caminho mais fácil é o da analogia: Assunta é dona Maria Amelia, Sergio de Hollander é Sergio Buarque de Holanda, o narrador é Chico Buarque etc. Fácil, mas insuficiente. Como em Sebald, o que conhecemos e o que lemos encontram-se tão cerca que imaginamos tratar-se da verdade, quando de fato o livro é apenas a saída que o autor arrumou para aprumar-se diante da pilha de histórias que ele não compreende.
Sergio Buarque brincava com a celebridade, apresentando-se como o “pai do Chico”. Quando lhe perguntavam se era filho de alemão, já que falava alemão, podia sair-se com esta: “Sou pai de alemão”, numa referência à estada em Berlim em 1929 e 1930. A história é retomada por Chico Buarque com traço de mestre, e só no final uma rápida pincelada biográfica deixa ver quem é o irmão perdido. A sensação, contudo, é de que já o conhecemos, porque o ouvimos antes na ficção. E será possível conhecer uma pessoa sem a ficção que nos aproxima dela: sem imaginá-la, descrevê-la etc.? Podemos chegar ao outro sem convertê-lo em nossa personagem?
O irmão alemão explora o legado do pai, ele mesmo, como historiador, mestre em aproximar-se de quem nunca conheceu. “Sergio diz todas as coisas com uma dicção confusa, embaralhada e dificílima”, escreveu Múcio Leão numa carta de 1931 a Ribeiro Couto (o mesmo que mais tarde cunharia a expressão “homem cordial”). Pela mensagem, hoje guardada num arquivo carioca, ficamos sabendo de uma “especialíssima encrenca” em que se metera Sergio, que “fez numa doce poética menina que ia visitá-lo ao modesto quarto da pensão, um filho”. Sua volta da Alemanha pode estar ligada ao processo que ele sofrera naquele país, segundo Múcio Leão, ou talvez ao novo contexto político brasileiro, no fim de 1930. Nem uma coisa nem outra está no livro de Chico Buarque, mas é possível sentir que o regresso de Sergio à pátria traz a ferida de uma desistência, nunca pensada de todo, apesar dos esforços posteriores por emendá-la.
Sejam quais forem as razões que o fizeram voltar, Sergio deixou o filho como um rasto, que Chico recupera, ao passear, como uma personagem de ficção, pelas memórias impenetráveis do pai. Como Sergio de Hollander, Sergio Buarque viveu o crepúsculo da República de Weimar, com sua frágil democracia, seus cabarés barulhentos, os experimentos artísticos radicais, seu cinema e sua liberalidade, que impressionavam o jovem brasileiro, entre ingênuo e agudo nos artigos publicados em O Jornal, de Assis Chateaubriand, entre os quais consta a célebre entrevista com Thomas Mann, cuja mãe era brasileira, filha de um alemão que, no Brasil, casara-se com “uma crioula, provavelmente de sangue português e indígena”, como se lê num texto da época, assinado por Sergio. Sem contar que as leituras alemãs, bem como o debate sobre a alma e o sangue dos povos, deixariam uma marca profunda em Raízes do Brasil, de 1936, onde a organicidade do Estado é um problema enorme, e a impessoalidade do liberalismo seria encarada com desconfiança. Ainda assim, resta um oceano entre a crença totalitária, que Sergio repele vigorosamente, e as “essências mais íntimas” da vida social em sua inata “desordem”, que ele seguiria pesquisando vida afora.
De volta à América do Sul, o jornalista e futuro historiador viveria o drama de ter um filho desconhecido e distante, sobre quem pesaria, logo mais, a ameaçadora suspeita do possível sangue judeu. Nessa história traçada entre o espaço privado e o público, fotos e documentos se interpõem, borrando as fronteiras entre ficção e realidade, sugerindo que o real só é suportável quando se narra, embora então ele já tenha escapado para o reino da história, que por sua vez só existe, para nós, quando é contada de novo, como numa canção.
A história é a do encontro sempre protelado entre pai e filho. Entrando sorrateiramente em casa, depois de uma noitada, o narrador encontra Sergio de Hollander de pijama, com os óculos à testa e, entre os dedos, um toco de Gauloises — o cigarro preferido de Sergio Buarque —, a perguntar se o filho mexera nos seus Kafkas. “Nunca”, diz o filho, para prontamente ouvir: “E o que é que está esperando?”.
A aproximação pelos livros marca também a distância entre os dois, que existe sem que se saiba por quê. Longe do pai e do meio-irmão, alheio a tudo, o irmão alemão é a lembrança de que a lealdade à família tem um custo, porque ficar perto dela é sustentar a proibição de falar de quem se ausentou, e de quem foi deixado pelo caminho. Mas falar de quem ficou pelo caminho não é a tarefa do historiador? E não seria esta, também, a tarefa do irmão, quando descobre que toda família é feita de silêncios? O irmão alemão aparece para recordar o silêncio e cobri-lo enfim de história.