Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

domingo, 31 de julho de 2016

Canção da Torre Mais Alta, poema de Arthur Rimbaud

 
Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora.

Eu disse a mim: cessa,
Que eu não te veja:
Nenhuma promessa
De rara beleza.
E vá sem martírio
Ao doce exílio.

Foi tão longa a espera
Que eu não olvido.
O terror, fera,
Aos céus dedico.
E uma sede estranha
Corrói-me as entranhas.

Assim os Prados
Vastos, floridos
De mirra e nardo
Vão esquecidos
Na viagem tosca
De cem feias moscas.

Ah! A viuvagem
Sem quem as ame
Só têm a imagem
Da Notre-Dame!
Será a prece pia
À Virgem Maria?

Ociosa juventude
De tudo pervertida
Por minha virtude
Eu perdi a vida.
Ah! Que venha a hora
Que as almas enamora!

Arnaldo Antunes e Erasmo Carlos - "Sou uma criança, não entendo nada"



sábado, 30 de julho de 2016

Cartório do 2º ofício, poema de Micheliny Verunschk


Cato os minutos,
Grãos de milho
Caídos na música
Datilográfica
Do relógio velho
Da parede;
Sementes loiras
De tão sonífera
Claridade
Que só os posso
Contemplar
Com os olhos
Semicerrados;
Óvulos de pó
Que ajunto
No bojo do avental
Para tentar
Saciar a fome
Desse galo voraz,
Desse expediente infindo.

Micheliny Verunschk

A arte de Gabriel Moreno














Via Gabriel Moreno

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A Solidão e sua Porta, poema de Carlos Penna Filho


Quando nada mais resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar
E, quando nada mais interessar
(Nem o torpor do sono que se espalha),

Quando, pelo desuso da navalha,
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar,
Deixando-te sozinho na batalha

A arquitetar na sombra a despedida
Do mundo que te foi contraditório,
Lembra que, afinal, te resta a vida

Com tudo o que é insolvente e provisório –
E que ainda tens uma saída:
Entrar no acaso e amar o transitório.


Clube 27 - Episódio 4 - 1ª Temporada

quinta-feira, 28 de julho de 2016

terça-feira, 26 de julho de 2016

Encontros e Desencontros, poema de Mariana Lima de Almeida

Foto do perfil de Mariana Lima de Almeida

Saí das batidas rítmicas do teu coração
E entrei para os números estáticos
Dos encontros vividos num dia de maio.

Saí dos teus livros de poemas
E hoje estou em alguma página
De qualquer antiga agenda
Lembrando tudo que não não vivemos.

Mariana Lima de Almeida

Coxinhas, trouxinhas ou escondidinhos?

AQUI MORAVA UM REI, poema de Ariano Suassuna


Aqui morava um rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão,
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bordão,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
Eu me vi, como cego sem meu guia
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
Espada de Ouro em pasto ensanguentado.

FKA twigs covers Sam Smith's "Stay With Me" in "the Live Lounge"

Clube 27 - Episódio 1 - 1ª Temporada

segunda-feira, 25 de julho de 2016

EXPOSIÇÃO, por Carlos Emilio Faraco

Saiu do museu, caminhou segura.
Chegou em casa feliz e gorda.
O marido mala fez de novo a brincadeira estúpida que repetia há séculos: pegou dois palitos e simulou furar-lhe a pele, como para desinflá-la. Quase sem querer, soltou:
"Hoje eu chifrei você com um gringo chamado Botero".

Previsão do tempo

Porque os outros se mascaram mas tu não, poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Maria Bethânia - "Coração Ateu"

sábado, 23 de julho de 2016

Judiciário sem partido

Estou Cansado, poema de Fernando Pessoa


Estou cansado, é claro, 
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado. 
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo, 
Pois o cansaço fica na mesma. 
A ferida dói como dói 
E não em função da causa que a produziu. 
Sim, estou cansado, 
E um pouco sorridente 
De o cansaço ser só isto — 
Uma vontade de sono no corpo, 
Um desejo de não pensar na alma, 
E por cima de tudo uma transparência lúcida 
Do entendimento retrospectivo... 
E a luxúria única de não ter já esperanças? 
Sou inteligente; eis tudo. 
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto, 
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá, 
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Fernando Pessoa

Todas "As Frenéticas" - RIP Lidoka




Lidoka Martuscelli



 Regina Chaves, Sandra Pêra, Lidoka Martuscelli, Edir de Casto, Leiloca Neves e Dhu Moraes.



As Frenéticas em 2011: 
Lidoka, Dhu Moraes, Regina Chaves, Leiloca, Sandra Pêra e Edir de Castro



Dhu, Leiloca, Lindoka, Edir, Regina, Sandra

Aos deuses sem fiéis, poema de José Saramago


Talvez a hora escura, a chuva lenta,
Ou esta solidão inconformada.

Talvez porque a vontade se recolha
Neste findar de tarde sem remédio.

Finjo no chão as marcas dos joelhos
E desenho o meu vulto em penitente.

Aos deuses sem fiéis invoco e rezo,
E pergunto a que venho e o que sou.

Ouvem-me calados os deuses e prudentes,
Sem um gesto de paz ou de recusa.

Entre as mãos vagarosas vão passando
A joeira do tempo irrecusável.

Um sorriso, por fim, passa furtivo
Nos seus rostos de fumo e de poeira.

Entre os lábios ressecos brilham dentes
De rilhar carne humana desgastados.

Nada mais que o sorriso retribui
O corpo ajoelhado em que não estou.

Anoitece de todo, os deuses mordem,
Com seus dentes de névoa e de bolor,
A resposta que aos lábios não chegou.