Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
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domingo, 21 de abril de 2019

E NÃO PODE ESPERAR O CORAÇÃO, poema de Jaci Bezerra



Toda a lua e claridade 
assim te quero, assim te vejo 
e se te vejo o amor invade 
meu corpo inteiro e o deixa aceso 
e se te vejo o amor em mim 
é um cheiro morno de jardim 
A tua dor doendo em mim 
é um rio latejando aceso 
sou um cantareiro no jardim 
do sonho em que te quero e vejo 
primaveras de claridade 
na primavera que me invade 
Toda nua és um rio aceso 
de primavera e claridade 
mas quero mais do que o que vejo 
sentindo a angústia que me invade 
esse amor que doendo em mim 
arde em silêncio no jardim 
Extinta a angústia que me invade 
te sinto perto e junto a mim 
mais do que amar a claridade 
amo teu cheiro de jardim 
por isso à noite durmo aceso 
no dia em que te sinto e vejo. 
Teu coração é um jardim 
tremulando na claridade 
mesmo quando doendo em mim 
também é a angústia que me invade 
porque no dia em que te vejo 
teu corpo dorme em mim aceso 
No fundo dos teus olhos vejo 
longe da angústia que me invade 
como o amor doendo aceso 
é uma trança de claridade 
o coração dentro de mim 
dorme abrasado em teu jardim.

Jaci Bezerra

sábado, 2 de julho de 2016

Mobiliário Íntimo, poema de Jaci Bezerra


As paredes do sótão são ferida
e a noite em flor se agacha entre os seus muro:
é no sótão que o homem empilha a vida
e empilha o tempo que ficou maduro. 

No seu interior, por entre pilhas
de tempo e mundo, a saudade cresce 
ressuscitando no homem maravilhas
que exceto o homem, ninguém mais conhece. 

Às vezes o sótão geme e chora, opresso, 
hora em que o homem, voltando ao início,
sente, folheando o tempo nele impresso,
que o sótão respira feito um bicho. 

O homem habita o sótão que o habita
e no chão deixa a pátina dos seus passos,
sem saber explicar, quando o visita,
porque no sótão o tempo é sempre intacto. 

Nos dias em que o sótão cheira a azedo
e a memória do homem, inchando dói,
o homem, aninhado nos seus feudos,
quer falar mas não acha a sua voz. 

O sótão, como o homem, é uma imagem
feita de imagens, no tempo desdobrada:
o homem sabe onde nasce a sua imagem,
porém não sabe em que dia ela se apaga. 

Quando, para expurgar a sua angústia,
o homem abre o silêncio e o sótão se abre,
o tempo na memória é luz e música
e, no silêncio, o homem inteiro arde. 

A paz desse momento é alada e exata
e resplendendo, sem nódoa e sem ferrugem,
a ternura do homem se desata
e o sótão todo cheira a flor e nuvem. 

segunda-feira, 11 de abril de 2016

GRAVANDO MINHA DOR NUMA ÁGUA FORTE, poema de Jaci Bezerra



Estendeu no horizonte a cor madura
da sombra que buscou, o tempo antigo,
as paisagens do mar, a lenda impura,
cada vez mais achado e mais perdido
depois, exausto e só, foi à procura
do quadro iniciado e dissolvido
do cata-vento azul, da rosa escura,
do pranto, da mulher e do gemido
chegou largando as mãos na longa estrada
e abrasado de amor ficou na rua
buscando, em vão, a luz da madrugada
só então foi ternura e foi abraço
a paisagem deixou vazia e nua
para que tantas cores neste espaço?



segunda-feira, 28 de março de 2016

CANÇÃO, poema de Jaci Bezerra


Vou plantar na varanda a minha mágoa,
e espero, assim, que a vida a mim esqueça.

Fluídico e sereno como as águas
deixem, vocês, que eu me desapareça.

Vou partir depois disso, prontos tenho
o passaporte e a blusa de emigrante.

Deixem vocês, eu parto como venho
para ser outra vez o que fui antes,

As lágrimas ardendo são estrelas
cintilando no fundo de outro poço.

Vocês não se debrucem para vê-las
que, nelas, acharão só meus destroços

(a canção que inventei de ouvido, inteira,
e as rosas florescendo nos meus ossos).

Não procurem saber dos meus intentos,
peço como um favor, ninguém me ouça,

pois rosário já vem tangendo os ventos
e apaziguando a minha carne moça,

vem molhada de luz, vem sem lamentos,
trazendo um lírio em suas mãos de louça.

Já é chegada a hora da partida,
No meu bolso soluça o coração,

por isso, não liguem muito à vida
que para olhar e ver, trago na mão.

Nem olhem, se ainda me veem, para a ferida
que expõe, aberta, a minha solidão.

Parto rendido e entregue aos meus afetos,
e amigos que não tenho, não terei.

Matei as sempre-vivas do deserto
recusando as canções que não criei.

E descobri, sentindo o amor tão perto,
que nada sou do sonho que inventei.


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

TATUAGEM NA ÁGUA, poema de Jaci Bezerra



No Recife me perco e me inauguro
Pisando acácias e éguas machucadas,
No bolso o sol ferido, um sol maduro
Escorre, úmido, e acende a madrugada.
Uma árvore brota no meu peito impuro
Acalentando a infância que, abismada,
Brinca dentro de mim e dói no escuro
Sempre por um menino acompanhada.
Nunca a essa cidade fui perjuro
Nem nunca a reneguei, talvez por isso
Ela me planta e aninha entre os seus muros,
E eu a carrego em mim, arrebatado,
Apodrecendo nos mangues dos seus vícios
E amando como se nunca houvesse amado.