Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Planeta Terra: só tem um!


A luta amorosa com as palavras, por Mario Quintana


Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Há! Mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a eternidade.

Nasci do rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton! Excusez du peu.

Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros?

Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante 5 anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo – que bem sabem (ou souberam), o que é a luta amorosa com as palavras.

Mario Quintana

Revista “Isto É” de 14/11/1984.

Elizeth Cardoso - "Prece ao Vento"

terça-feira, 23 de maio de 2017

Valores, só no socialismo


Um abrigo, poema de Carlos Maia


Um abrigo
Um lugar ao sol
Um empecilho
A força que
Nos move no planeta,
O absinto
A droga
E eu já não sinto
A vertigem
O luar
O orgasmo
A vontade de voar

Carlos Maia

Mural dos deuses, poema de Carla Andrade


Neste nenhum
trocadilho da alma
há insônia de Baco

Há o profano em
células
cume de ossos
em câncer
trópicos.

O eterno na esquina
no tráfego das mãos,
na romaria de dúvidas.

O fogo de cupim:
no cérebro e sexo.

Há babas do mar
em despedidas de trovões
ressaca de barcos
no veludo de vozes.
O humano a se render.

Nos homens, a morte
imersa na arte.
Léxico dos deuses.
Sopro com sede
no inferno.

Nos homens,
a pitada da ironia:
ser divino em pele de fungos,
em bactérias de dor,
em cascas do tempo.

Carla Andrade 

Milton Nascimento - "San Vicente"

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Rhaissa Bittar - "Dig Dom"

Luxo

CÂNTICO DUAL, poema de Audálio Alves



a Itérbio Homem

De Deus a mim,
nenhum segredo cabe:

Vivemos sempre a sós,
os dois, perenemente;
o pouco que aprendi
(da morte)
Deus o sabe.

O que meus dedos tocam,
agora,
Deus o sente:
Silêncio algum separa
meu canto de seu canto
que o sol nos une e abre
visão de outra visão.

A cor de minhas vestes
mudamos,
Deus o sabe:
A vida se consente
em Nós, presentemente,
e sendo a morte o fim
em minhas mãos não cabe.

Audálio Alves

O nosso espaço sideral está lotado de lixo espacial

Belchior - "Paralelas"

domingo, 21 de maio de 2017

Nosso mundo é uma prisão conceitual e só vemos relances da realidade, diz cientista

Nosso sistema de percepção é nossa janela para o mundo, mas é também uma prisão conceitual. Imagem: Glen Santayana

Enquanto estiver lendo isto, você está olhando para a tela de um computador, um smartphone, ou um tablet. Você acha que viu tudo que há para ver. Mas e se este não for o caso? Seria possível que somente vemos relances da realidade?

Um cientista cognitivo apresentou uma teoria intrigante, sugerindo que vivemos numa prisão conceitual e somente vemos relances da realidade. Isto significaria que a realidade, tal como a percebemos, pode somente ser uma pequena fração da verdadeira existência.

Quanto da realidade nós percebemos?
Há alguns cientistas, como o Dr. Joe Dispenza, D.C que dizem que nossos pensamentos criam a nossa realidade.
O Dr. Dispenza, que é um neurocientista e escritor de vários livros, como por exemplo, "Evolve Your Brain: The Science of Changing Your Mind" (Evolua Seu Cérebro: A Ciência de Mudar Sua Mente – título em tradução livre), disse que ele, durante sua pesquisa em remissões espontâneas, descobriu e continuamente vê similaridades em pessoas que têm passado pelas assim chamadas curas milagrosas – mostrando que elas realmente mudaram suas mentes, o que então mudou seus estados de saúde.  Em outras palavras, o que você pensa afeta sua saúde.
Recentes estudos em neurociência mostraram que podemos mudar nosso cérebro somente pelo pensamento.

Mude a realidade
O quanto vemos da nossa realidade?
O conceito é interessante, mas o que acontece se não percebemos tudo de nossa assim chamada, realidade?
Pesquisadores da Universidade de Amsterdã sugerem que aquilo que você vê não é real – é uma ilusão visual.
As descobertas sugerem que, embora nossa visão periférica seja menos aguçada e detalhada do que aquilo que vemos no centro do campo visual, podemos notar uma diferença qualitativa, porque nosso sistema de processamento visual na verdade preenche aquilo que vemos na periferia.
O pesquisador de psicologia, Marte Otten, da Universidade de Amsterdã, disse:
Nossas descobertas mostram que, sob circunstâncias corretas, grande parte da periferia pode se tornar uma ilusão visual.

O que é uma Prisão Conceitual?
O cientista cognitivo Donald Hoffman, da Universidade da Califórnia, despendeu 30 anos tentando desvendar o mistério de nossa percepção. Ele está convencido que a evolução e a mecânica quântica conspiram para tornar a realidade objetiva uma ilusão.
Hoffman usa a teoria do jogo evolucionário para mostrar que a nossa percepção da realidade é uma ilusão. Ele disse:
A evolução tem nos moldado com percepções que nos permitem sobreviver. Mas parte disso envolve esconder de nós as coisas que não precisamos saber. E isso é praticamente toda a realidade, seja lá o que a realidade possa ser.
A evolução não diz respeito à verdade, ela diz respeito a gerar crianças. Todo pequeno pedaço de informação que você processa tem um custo em calorias, o que significa que precisaria mais alimentos para matar e comer. Assim, um organismo que vê toda a realidade nunca seria mais apto do que aquele que vê somente o que precisa para sobreviver.
Hoffman diz que se tornou interessado no assunto da realidade quando era adolescente. Ele queria descobrir se os humanos eram máquinas, e finalmente na década de 1980 ele foi a um laboratório de inteligência artificial na MIT e trabalhou numa máquina de percepção. Lá, ele desenvolveu a teoria dos agentes conscientes para resolver o problema de combinação da consciência, tanto para combinação de assuntos, quanto de experiências, mas Hoffman acha que não somos máquinas.  Ele disse:
O mistério de como a atividade cerebral causa as experiências do consciente ainda não foi resolvido, e nunca será, porque a atividade do cérebro não causa e nem pode causar as experiências do consciente. Se quisermos ter uma compreensão científica da consciência, e das muitas bem documentadas relações entre a atividade cerebral e as experiências do consciente, então não podemos começar com a atividade cerebral ou com a dinâmica física de qualquer tipo. Devemos começar com uma fundação nova, porém rigorosa. Proponho uma nova fundação que modela a consciência como redes de agentes do consciente, as quais interagem.
Segundo Hoffman, não há razão para acreditar que os objetos que vemos tenham quaisquer relação com coisas que existem fora de nossas mentes. Ele explica:
A concepção padrão da visão é que somos similares às câmeras, obtendo uma imagem da luz refletida de um objeto. Mas bilhões de neurônios e trilhões de sinapses estão envolvidas entre a luz atingindo a retina e a construção dos objetos 3D que percebemos.
Nosso sistema de percepção é nossa janela para o mundo, mas é também uma prisão conceitual. É difícil conceber uma realidade fora do espaço e tempo. Mas a matemática pode abrir uma rachadura nas paredes da prisão. Não posso imaginar um espaço multidimensional, mas posso encarar o espaço dimensional infinito em formato matemático. 
Hoffman diz que há duas inconsistências em nossa visão do Universo derivada da percepção, o que pode oferecer pistas na estrutura da realidade abaixo dela. A primeira delas é nossa habilidade de explicar a experiência consciente, por exemplo, como conseguimos a sensação de como é experimentar o gosto de chocolate, a partir do material físico dos neurônios e mensageiros químicos. A segunda é as interpretações da mecânica quântica, as quais os estados de um partícula são indefinidos quando não observados – algo que levanta a questão de nossa suposição de que os objetos continuam a existir quando ninguém está olhando para eles.

Seria nossa realidade uma simulação computacional criada por uma forma de vida avançada, desconhecida?
Mais e mais cientistas estão seriamente discutindo a natureza de nossa realidade. A teoria do Universo Holográfico está se tornando muito popular.
Um cientista sugere que nossa realidade seja um holograma controlado por um gênio do mal.
Estariam os criadores nos vigiando neste momento?
Um cientista do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA diz que nosso criador é um programador cósmico de computador, e há ainda pesquisadores que dizem ter encontrado evidência de que o Universo é um grande holograma em 2D e que somos uma ilusão.
Todas essas teorias são provocantes e muitos estudos devem ser conduzidos antes que quaisquer conclusões possam ser alcançadas.
Talvez agora realmente não importa se chamamos nosso mundo uma prisão conceitual ou um holograma. O que interessa é que ainda não podemos determinar o quanto da realidade percebemos, e muitos diriam que nem mesmo podemos definir o termo “realidade”.
Será por isto que algumas pessoas têm mais facilidade de testemunhar eventos anômalos, tais como avistamentos de OVNIs, enquanto outras estão fechadas na “normalidade” de seus mundos? 

Fonte: MTE.Com

sábado, 20 de maio de 2017

Belchior


SAUDADE, poema de Itárcio Ferreira



Com certeza morrerei sem nunca mais rever
Silvana Spreafico,
como amei essa mulher.

Saudades do amor.

Tristeza por ser findo aquele tempo tão maravilhoso.

Com mais certeza ainda, morrerei
sem nunca rever o meu amigo André,
amigo de ginásio,
amigo que me acompanhava em minha tímida solidão
nas horas do recreio no Imaculado Coração de Maria.

Saudades da amizade.

Felicidade por ser findo aquele tempo tão cruel.

Itárcio Ferreira

Para refletir (81)


Lulu Santos - "De repente, Califórnia"

sexta-feira, 19 de maio de 2017

O pato pateta


Canção, poema de Jorge Lopes


Me dispo de tuas vestes
sem qualquer fúria
e construo o meu canto
de silêncio, armadura
O teu sexo arde, baby
Sob um céu de fogo
o que não somos
é mais pobre
nas palavras do jogo
Não basta a mágica
dos teus olhos molhados
nem meus dentes mordendo
um velho blues de Atlanta;
não basta a lógica
porque tudo muda
a todo instante
e o amor é uma coisa comum.

Jorge Lopes

Cuco em ninho de pardal, poema de Antônio de Campos

Ilustração de Jorge Lopes


Sou doutra linha de montagem,
queixar disso não me queixo -
meu verso é pão quando pão
e em não sendo pão, é queijo.

Nascido em ninho de pardal,
meu cantar é canto de cuco,
meus iguais moram em relógio,
são mecânicos e eu maluco.

Sou igual, mas não idêntico,
me reservo a mim o direito
de não cantar as horas certas:
Eu denuncio este tempo estreito!

Canto que de males me espanto
e me espanto de tantos males
que se também não te espantas
estás morto e menos vales.

Antônio de Campos

Quinteto Violado - "Prece ao Vento"

quinta-feira, 18 de maio de 2017

A longa noite de Elbert, por André Dahmer


INTERLÚDIO, poema de Amílcar Dória Matos


Precisamos de datas no interlúdio:
foi antes ou depois de fevereiro?
foi em dezembro que acordamos cedo
e andamos a pescar peixes avaros?
e que setembro aquele de qual ano,
quando a gramática exibiu vogais?

Perguntas básicas, questões vitais:
saber qual eixo onde pendemos fios
que podem destrinçar o nosso rio.

Pois de outro modo, sem o calendário
dos recorrentes focos da existência,
sofremos coordenadas discrepantes,
flutuamos em naves sem velames,
morremos de lembranças arbitrárias.

Neste interlúdio que nos cinge agora,
os signos de um outrora se misturam
aos futuros enigmas delirantes
pelo horizonte que nos fez amantes.

Amílcar Dória Matos

"Day 40" - os animais se amotinam contra Deus na Arca de Noé


Sobre o curta AQUI

Sá & Guarabira e Zé Rodrix - "Jesus numa moto"

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Quintanares

06 minicontos de Itárcio Ferreira


O PESCOÇO
Peguei minha foice. Olhei para a serpente e disse: - Não se aproxime ou corto-lhe a cabeça. Ela olhou para mim, sorriu e perguntou: - Sabes ao menos onde fica meu pescoço?

O SAPATO
Encontrou um par de sapatos no lixo. Calçou-os. Não eram do seu tamanho. Não se importou e continuou a caminhar um caminho que também não era do seu tamanho.

A CHALEIRA
Ferveu a água. Coou o café. Pôs na xícara. Sentou à mesa. Açúcar. Tocou o celular. O café esfriou assim qual a vida.

O COMPUTADOR
Viajou pelo mundo através da internet. Não gostava de sair de casa, conhecer pessoalmente pessoas. Amava o seu computador. Nunca casou.

A CHUVA
Chovia copiosamente. Havia deixado em casa seu guarda-chuva. Comprou alguns jornalistas, deu de troco um juiz e dois procuradores, e os fez de pano de chão.

A ESTANTE
Guardava os meus livros na estante, com muito carinho. Amava-os. Mas, amava-os, mais ainda, as traças.

Itárcio Ferreira

Pra não dizer adeus, poema de Samuca Santos


Deixo a porta encostada
Entre sem bater
A saudade já fez seu estrago
E não tem mais analgésico
Que faça parar de doer
Mas venha.

Samuca Santos

Carta quatro, poema de Arnaldo Tobias



Poeta doa
a tua voz
mais longe
que a minha

o meu canto
é bucólico
o teu é vasto
e rebelde

doa poeta
no teu verso
(universo)

a palavra
de sangue
universal

Arnaldo Tobias

Genealogia da Ferocidade


Milton Nascimento - "Paixão e fé"

terça-feira, 16 de maio de 2017

Beatles em Recife

Chuva de caju, poema de Joaquim Cardozo


Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Teresa? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
e em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Teresa ou Maria.

Joaquim Cardozo

Instantâneo, poema de Mauro Mota


No pátio da igreja de São Sebastião,
depois da missa cantada e da comunhão,
Dona Santinha, em perfeito estado de graça,
com o véu, o livro e o terço na mão,
murmurava a um grupinho que Padre João
estava, na sacristia, se derretendo
para a filha mais nova do sacristão.

Mauro Mota

Samsara Blues Experiment - "Long Distance Trip"

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Greve geral e irrestrita

O Mundo do Sertão, poema de Ariano Suassuna


(com tema do nosso armorial)

Diante de mim, as malhas amarelas
do mundo, Onça castanha e destemida.
No campo rubro, a Asma azul da vida
à cruz do Azul, o Mal se desmantela.

Mas a Prata sem sol destas moedas
perturba a Cruz e as Rosas mal perdidas;
e a Marca negra esquerda inesquecida
corta a Prata das folhas e fivelas.

E enquanto o Fogo clama a Pedra rija,
que até o fim, serei desnorteado,
que até no Pardo o cego desespera,

o Cavalo castanho, na cornija,
tenha alçar-se, nas asas, ao Sagrado,
ladrando entre as Esfinges e a Pantera.


Ariano Suassuna

Ítalo Pay e A Zabumba Mundi - 16 de maio - lançamento "Zabumbada, opus 01"


"O primeiro abraço" - Adote o cão, eles também precisam de amor

Roque Braz e Diana Vivá - "Terça-feira"


Diana Vivá e Roque Braz, brincando, na casa do blogueiro.

"Terça-feira", composição de Roque Braz.

Aguardem nosso canal de música no youtube.

domingo, 14 de maio de 2017

Machado de Assis é maior que Dickens, Balzac e Eça de Queiroz, diz crítico e escritor espanhol

Imagem de perfil do escritor Machado de Assis em 1904 (Foto: Divulgação)

Antonio Maura fará conferência no Egito para falar do brasileiro. Sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, ele diz que o autor ainda é ‘um grande desconhecido’.
Publicado no G1 - 05/05/2017
Escritor e crítico espanhol, Antonio Maura acredita que Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), o grande gênio da literatura brasileira, não foi devidamente valorizado pela crítica e mereceria ser reconhecido como um dos melhores escritores do século XIX.
“Acho que Machado é um dos grandes nomes do século XIX. Não acredito que se compare nem a [Charles] Dickens, [Honoré de] Balzac, Eça de Queiroz ou ao nosso [Benito Pérez] Galdós. São grandes escritores, mas estão abaixo nos quesitos riqueza, crítica e análise da sociedade e versatilidade. Não chegam aos pés”, diz.
Sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, Maura está no Cairo para a conferência “El autor y sus máscaras: Una aproximación a Cervantes y Machado de Assis” (“O autor e suas máscaras: Uma aproximação de Cervantes e Machado de Assis)”, no Instituto Cervantes local.
Ele afirma que, fora de suas fronteiras, o escritor brasileiro “é um grande desconhecido”. Em sua opinião, até mesmo no Brasil os estudos sobre Machado de Assis “não refletiram bem” sua faceta de grande crítico do sistema de sua época e da escravidão.
Para Maura, o cronista e poeta teve que recorrer à ironia para falar “na surdina” de um tema que não podia ser encarado abertamente por ele ser neto de escravos.
Um exemplo disso é “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881). De acordo com Maura, a verdadeira intenção do autor é “colocar o dedo na ferida” da sociedade e para isso se serve de uma sutil alegoria para denunciar que o morto é o próprio Brasil.
A escolha do nome do protagonista, que coincide com o início do nome do país, “não é à toa” para alguém tão “inteligente e cuidadoso com a linguagem” quanto era Machado de Assis. Para Maura, “a crítica brasileira foge” desta interpretação porque “não é fácil aceitar que seu país é um país morto ou esteve morto”.
O crítico espanhol defende que as obras que o romancista e dramaturgo escreveu depois de “Memórias póstumas”, como “Dom Casmurro” ou “Quincas Borba”, são dos livros “mais importantes de sua geração, não apenas do Brasil, mas de todo o mundo”.
Segundo ele, alguns autores de língua espanhola, como Jorge Edwards, Julián Ríos e Carlos Fuentes, destacaram a importância de Machado de Assis, mas o mestre brasileiro ainda carece do merecido reconhecimento mundial.

sábado, 13 de maio de 2017

O VAMPIRO, poema de Charles Baudelaire


Tu que, como uma punhalada,
Entraste em meu coração triste;
Tu que, forte como manada
De demônios, louca surgiste,

Para no espírito humilhado
Encontrar o leito e o ascendente;
– Infame a que eu estou atado
Tal como o forçado à corrente,

Como ao baralho o jogador,
Como à garrafa o borrachão,
Como os vermes a podridão,
– Maldita sejas, como for!

Implorei ao punhal veloz
Que me concedesse a alforria,
Disse após ao veneno atroz
Que me amparasse a covardia.

Ah! pobre! o veneno e o punhal
isseram-me de ar zombeteiro:
“Ninguém te livrará afinal
De teu maldito cativeiro.

Ah! imbecil – de teu retiro
Se te livrássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!”

Charles Baudelaire

Tradução de Jamil Almansur Haddad

Jackson do Pandeiro - "Sebastiana"