Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A vida passando por mim




A vida passando por mim
Em lapsos de 6, 3 ou 9 meses
De internamento.
Não vi o mamoeiro
Da casa do meu filho crescer;
De repente já estava
Com mais de 2 metros de altura.
Viadutos, lojas que fecharam
Outras que abriram
E eu alheio a tudo isso.
Confinado.
Se não, não parava.
Quantos abraços eu deixei de dar
Na minha netinha?
Quantos sorrisos deixei de ver
Do meu filho Biel?
Quantas conversas perdi
Com meu filho Lucas?
Mas se eu estivesse no processo
Também não teria curtido nada disso.
A internação se fez necessária,
Para que eu pudesse retomar das drogas
As rédeas da minha vida.
Muito embora eu sei que não tenho
Absolutamente o controle de nada.
Eu e minhas impotências
Eu e minhas tendências suicidas
Eu e minha paixão pelo abismo,
Pela vertigem, pelo delírio,
Pela contra-cultura.
Eu, qual Ginsberg,
Uivando pelas noites do Recife.
Eu, desesperadamente só.
Eu, que até hoje
Não sei quem sou.
Eu, que busco uma explicação.
Eu, pansexual.
Eu, finalmente me aceitando.
Eu e meus paradoxos que não têm fim.
Eu e todas as minhas vidas anteriores.
Eu, sem explicação.
Eu, todos e nenhum.
Buscando, buscando, buscando...
Um sentido...
É tudo tão absurdo!
Uma luz no fim do túnel,
Que não seja um trem
Vindo em sentido contrário!


Carlos Maia
24/09/14

A Arte Contemporânea é uma farsa: Avelina Lésper

avelina

Encontrei no Desacato


Com a finalidade de dar a conhecer seus argumentos sobre os porquês da arte contemporânea ser uma “arte falsa“, a crítica de arte Avelina Lésper apresentou a conferência “El Arte Contemporáneo- El dogma incuestionable” na Escuela Nacional de Artes Plásticas (ENAP), sendo ovacionada pelos estudantes na ocasião.

A arte falsa e o vazio criativo
“A carência de rigor (nas obras) permitiu que o vazio de criação, o acaso e a falta de inteligência passassem a ser os valores desta arte falsa, entrando qualquer coisa para ser exposta nos museus “
A crítica explica que os objetos e valores estéticos que se apresentam como arte são aceites em completa submissão aos princípios de uma autoridade impositora. Isto faz com que, a cada dia, formem-se sociedades menos inteligentes e aproximando-nos da barbárie.

Ready Made
Lésper aborda também o tema do Ready Made, expressando perante esta corrente “artística” uma regressão ao mais elementar e irracional do pensamento humano, um retorno ao pensamento mágico que nega a realidade. A arte foi reduzida a uma crença fantasiosa e sua presença em um mero significado. “Necesitamos de arte e não de crenças”.

Génio artístico
Da mesma maneira, a crítica afirma que a figura do “génio”, artista com obras insubstituíveis, já não tem possibilidade de manifestar-se na atualidade. “Hoje em dia, com a superpopulação de artistas, estes deixam de ser prescindíveis e qualquer obra substitui-se por outra qualquer, uma vez que cada uma delas carece de singularidade“.

status de artista
A substituição constante de artistas dá-se pela fraca qualidade de seus trabalhos, “tudo aquilo que o artista realiza está predestinado a ser arte, excremento, objetos e fotografias pessoais, imitações, mensagens de internet, brinquedos, etc. Atualmente, fazer arte é um exercício ególatra; as performances, os vídeos, as instalações estão feitas de maneira tão óbvia que subjuga a simplicidade criativa, além de serem peças que, em sua grande maioria, apelam ao mínimo esforço e cuja acessibilidade criativa revela tratar-se de uma realidade que poderia ter sido alcançada por qualquer um“.
Neste sentido, Lésper afirma que, ao conceder o status de artista a qualquer um, todo o mérito é-lhe dissolvido e ocorre uma banalização. “Cada vez que alguém sem qualquer mérito e sem trabalho realmente excepcional expõe, a arte deprecia-se em sua presença e concepção. Quanto mais artistas existirem, piores são as obras. A quantidade não reflete a qualidade“.

Que cada trabalho fale pelo artista
“O artista do ready made  atinge a todas as dimensões, mas as atinge com pouco profissionalismo; se faz vídeo, não alcança os padrões requeridos pelo cinema ou pela publicidade; se faz obras eletrónicas, manda-as fazer, sem ser capaz de alcançar os padrões de um técnico mediano; se envolve-se com sons, não chega à experiência proporcionada por um DJ; assume que, por tratar-se de uma obra de arte contemporânea, não tem porquê alcançar um mínimo rigor de qualidade em sua realização.
Os artistas fazem coisas extraordinárias e demonstram em cada trabalho sua condição de criadores. Nem Damien Hirst, nem Gabriel Orozco, nem Teresa Margolles, nem a já imensa e crescente lista de artistas o são de fato. E isto não o digo eu, dizem suas obras por eles“.

Para os Estudantes
Como conselho aos estudantes, Avelina diz que deixem que suas obras falem por eles, não um curador, um sistema ou um dogma. “Sua obra dirá se são ou não artistas e, se produzem esta falsa arte, repito, não são artistas”.

O público ignorante
Lésper assegura que, nos dias que correm, a arte deixou de ser inclusiva, pelo que voltou-se contra seus próprios princípios dogmáticos e, caso não agrade ao espectador, acusa-o de “ignorante, estúpido e diz-lhe com grande arrogância que, se não agrada é por que não a percebe“.
“O espectador, para evitar ser chamado ignorante, não pode dizer aquilo que pensa, uma vez que, para esta arte, todo público que não submete-se a ela é imbecil, ignorante e nunca estará a altura da peça exposta ou do artista por trás dela.Desta maneira, o espectador deixa de presenciar obras que demonstrem inteligência”.

Finalizando
Finalmente, Lésper sinaliza que a arte contemporánea é endogámica, elitista; com vocação segregacionista, é realizada para sua própria estrutura burocrática, favorecendo apenas às instituições e seus patrocinadores. “A obsessão pedagógica, a necesidade de explicar cada obra, cada exposição gera a sobre-produção de textos que nada mais é do que uma encenação implícita de critérios, uma negação à experiência estética livre, uma sobre-intelectualização da obra para sobrevalorizá-la e impedir que a sua percepção seja exercida com naturalidade“.
A criação é livre, no entanto a contemplação não é. “Estamos diante da ditadura do mais medíocre”.

fonte: Vanguardia

Assista aqui uma conferência proferida por Avelina Lésper:

domingo, 28 de setembro de 2014

Sem lenço e sem documento... Em Foz do Iguaçu - Parte 3/3


Não era possível. Havia planejado tudo nos mínimos detalhes. Chegando a Foz do Iguaçu, sexta-feira à noite, homem prevenido, havia sacado um pouco de dinheiro para as pequenas despesas e táxi. Agora ali no restaurante Cataratas a máquina do cartão de crédito informava: cartão bloqueado! Claro, só podia ser defeito daquele artefato perigoso em que jogamos para amanhã as dívidas do agora.

Catamos nossas últimas reservas de dinheiro – catamos, sim, eu e a exuberante morena que era Cleide, nos seus vinte e oito anos de beleza e hormônios a flor da pele; às vezes a flor da razão. Mas o que era a razão, que em sua essência nos leva a loucura, as guerras e a uma vida chata e burocrata, diante da emoção?

Todo aquele vulcão de beleza física, de conversa meiga e inteligente, que gostava de me ouvir divagar sobre assuntos diversos quanto horóscopo e filosofia, passando pela música e o conhecimento... Droga, sem dinheiro e sem cartão...



******

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Disco “novo” dos Beatles

beatles_chemistry_tape

Via NADA
Todos sabemos que a web — assim como a Realidade — é um infinito mar de possibilidades. E que nela podemos encontrar a mais diversa gama de coisas possíveis (e impossíveis também), de receitas de comidas exóticas à explicações quânticas sobre o Universo, passando por esportes, extraterrestres, pornografia e qualquer outra coisa que nos der na telha.
Tenho o hábito de, sempre que possível, navegar à deriva por este mar, pulando de link em link, de dica em dica, descobrindo assim tanto coisas incríveis quanto outras nem tão interessantes assim; fora as coisas bizarras, possivelmente a grande maioria delas. Ainda assim, vezoutra a sorte chega e aparecem coisas incrivelmente bizarras (minhas favoritas!), como esta que agora compartilho com vocês. Cheguei até isso quando entrei para conhecer o blog Universo D, após Delta9, seu autor, deixar um comentário no post sobre o Moondog.
James Richards é um figura que criou um site para compartilhar duas coisas muito curiosas: um suposto disco inédito dos Beatles, e a história de como ele o conseguiu. O disco se chama “Everyday Chemistry” e teria sido gravado pelo Fab Four numa realidade paralela à nossa, na qual os quatros ainda estariam vivos e tocando juntos. “Essa história tá muito estranha”, alguns leitores devem estar pensando. Acalmem-se amigos: a coisa piora quando James explica como conseguiu tal disco.
Segundo relato do próprio, ele estava dirigindo com seu cachorro, voltando da casa de um amigo sem ter muito o que fazer e por isso resolveu fazer um caminho alternativo pela estrada de um canyon (Del Puerto Canyon, San Antonio, California). No meio do caminho, percebeu que seu cão queria usar o banheiro e encostou o carro. O cão saiu correndo atrás de um coelho, James foi atrás e tropeçou num buraco (também de coelho), bateu a cabeça e desmaiou. Ao acordar, ele estava na casa de um tal de Jonas, na tal dimensão paralela, muito similar à nossa, porém com pequenas diferenças, como o fato de terem tecnologia disponível para efetuarem as tais viagens interdimensionais. E foi durante uma dessas que Jonas viu James caído e resolveu socorrê-lo.
Além disso, durante suas especulações para diferenciar as realidades, acabaram caindo no assunto música. Papo vai, papo vem, chegaram nos Beatles. Tudo bem, a banda existe em ambas as dimensões, e dái? Daí que Jonas comentou que seu irmão havia ido recentemente a um show deles. Sim, naquela dimensão os quatro estão vivos e fazendo turnês! Além disso, na coleção de sete K7s (isso, fita cassete — aparentemente, naquela realidade o CD não fora inventado) dos Beatles de Jonas, quatro eram desconhecidos por James, que pediu uma cópia, mas Jonas se recusou, dizendo que, por segurança, nenhum objeto deve ser transportado entre diferentes realidades. Resumindo essa história maluca (que pode ser lida na íntegra aqui, em inglês), James esperou Jonas sair da sala e pegou um dos K7s “inéditos” dos Beatles. Como apenas um deles havia sido comprado e os outros seis eram cópias feitas por uma amiga de Jonas (sim, a “pirataria” existe lá também), não continham capa ou informações técnicas, apenas título e tracklist.
beatles_chemistry_case
Ouvi o disco pelo menos meia dúzia de vezes antes de escrever este post e posso dizer que, independente da história de James ser real ou não, o album é bom! São onze canções que logo na primeira ouvida me soaram familiar, e olha que nem sou tão beatlemaníaco assim. De modo geral, o disco soa como um mashup muito, mas MUITO bem feito mesmo, construído a partir de músicas dos discos solos dos integrantes (em especial do Macca, fora algumas baterias eletrônicas muito “modernas” para o Fab Four da nossa dimensão), remixadas, remexidas e reconstruídas.
Enfim, vale muito a pena ouvir a piração do tal James. Tomara que ele consiga “resgatar” os outros discos “inéditos” encontrados na casa de Jonas…
Para quem tiver curiosidade, o disco “Everyday Chemistry” pode ser baixado na íntegra aqui.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

ESTEATOSE


Abri a porta do tempo:
A solidão me deu bom dia!

Sorri em amarelo e corri em vermelho.

As tardes tiro para esquecer as pedras
- No caminho, na vesícula, nos rins, no fígado.

No pranto os mesmos senões:
Os nãos em profundas explosões,

Os sins em extinção.

(Itárcio Ferreira)

As feministas é que são chatas

Passeata feminista no Rio de Janeiro

Parece haver um consenso sobre a chatice das feministas. Mas e a chatice das pessoas que querem determinar o que a mulher pode ou não fazer?



Alguns acham que fãs de futebol são chatos. Outros insistem que chatos são os evangélicos. Outros discordam, acham que chatos são os gays. É particularmente difícil determinar a chatice que define um grupo de pessoas, mas parece haver um consenso sobre as feministas: elas é que são chatas.
É claro que existe um universo de chatice explorado diariamente, mas a chatice das feministas é de uma proporção tão gigantesca que a chatice de pessoas desagradáveis como as que assoviam para você na rua acabam passando em branco.
Tem gente que diz que mulher não pode sair de roupa curta. Tem que se valorizar. Mas sair sem maquiagem não pode, tem que ser feminina. Outros dizem que tem que alisar o cabelo, porque cabelo crespo ou indomável não pode ser bonito. São pessoas que vão olhar para alguém que não se encaixa no padrão e dizer “ih, você precisa se cuidar”. Mas as feministas é que são chatas.
Tem gente que conseguiu determinar o que é uma “mulher de verdade”, em uma listinha cheia de detalhes complicados, como: não pode ser magra demais, mas também não pode ser gostosona, porque isso é vulgar; não pode gostar de beber, nem querer se divertir; tem que ser pra casar, para cuidar do marido quando ele precisar.
Se não se encaixar na listinha com outros quinhentos e oitenta e três itens, só pode ser puta. Essas pessoas também dizem que mulher não pode falar palavrão e nem gostar de sexo como os homens. Mas as feministas é que são chatas.
Tem gente que diz que, se uma mulher não quer transar com um cara que foi legal com ela, ela é uma vaca por deixá-lo na friendzone. Mas tem gente que também diz que se a mulher transa com quem quer, quando quer, ela é uma vadia.
Há quem diga que o sexo desvaloriza a mulher, então ela precisa se “guardar”. Tem gente que acha que buceta se desgasta com o uso. Mas as feministas é que são chatas.
Tem gente que diz que homem não serve pra cozinhar. Que é um completo retardado que não é capaz de fazer sozinho a mais simples das tarefas domésticas sem fazer algo errado ou sem chamar a mulher para ajudar, afinal, ela é que foi feita pra isso.
Essas pessoas também dizem que homem é uma criatura rasa e descontrolada que vai querer enfiar o pau em qualquer mulher que vê pela frente. Tem gente que diz que homem com sensibilidade não pode, porque é “gay”. E ainda tem gente que diz que é o homem quem tem que pagar a conta. Mas as feministas é que são chatas.
Tem gente que adora quando as mulheres tiram fotos de lingerie e publicam na internet, desde que não sejam gordas, velhas, fora do padrão de beleza, ou que usem lingerie bege.
Tirar a roupa para protestar também não pode. Porque há quem diga que as mulheres até podem lutar por seus direitos, mas não podem “lutar demais”.
Essas pessoas é que definem quem pode ficar nua, onde, quando, por qual motivo e para quem elas devem se mostrar. Mas as feministas é que são chatas.
Querem cagar regra sobre o que a mulher pode ou não fazer com seu próprio corpo. Mas as feministas é que são chatas.
Feministas são chatas porque falam de assuntos que ninguém quer ouvir. Porque querem mudar coisas que não interessa aos privilegiados mexer. Porque escrevem e falam sobre assuntos que vão deixar as pessoas desconfortáveis.
Feministas são as malas sem alça que desconstroem as mensagens da mídia e as estruturas da sociedade. Feministas são as chatas que questionam tudo.
Feministas reivindicam que a mulher faça do seu corpo e da sua vida o que bem entender, sem nenhum papel de gênero para limitá-la e nenhum homem para oprimi-la, e por isso são consideradas umas chatas. Tudo porque acreditam na ideia radical que mulheres são seres humanos.
É, as feministas são chatas. E eu estou convicta de que sou uma também.
***
Publicado originalmente no blog da autora.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Sobre a sexualidade humana - Drauzio Varella

Sem lenço e sem documento... Em Foz do Iguaçu - Parte 2/3


A dúvida nunca foi o meu forte. Tampouco a ansiedade. Apego ao dinheiro, nunca tive. Mas naquele fatídico dia, como uma sombra inexistente que assusta uma criança medrosa, a espera do sono salvador, a dúvida assomou-me: Cleide ou Laís? A quem ligaria para dividir os prazeres que o dinheiro, e claro, a minha companhia, iriam proporcionar?

Cada uma, como numa teia, havia contribuído para que eu, leve sorriso, estivesse à boca do caixa para sacar três mil reais, ou melhor, para sacar um final de semana na praia, - Foz era passado - com tudo pago, e como gostava de dizer Thais, regado a champanhe e lagosta. Afinal, o que levamos da vida senão dores e prazeres? Que venham os prazeres, sempre que possível.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

ABOBRINHAS I (Personagens citados nos meus poemas I)






MITOLÓGICOS


REAIS

Nas pegadas de Orwell e Huxley



Inspirado em clássicos, “O doador de memórias” retoma distopia do controle social absoluto. É algo indispensável, em tempos de NSA e internet vigiada


Por Elenita Malta, via Outras Palavras

Quem controla o passado, controla o futuro.
Quem controla o presente, controla o passado.

George Orwell, em 1984


O instigante O doador de memórias chega às telonas na esteira de blockbusters juvenis, como Jogos Vorazes e Divergente, distopias sobre jovens que se rebelam contra as sociedades em que vivem. No entanto, não é mera cópia ou versão desses filmes anteriores, até porque ele se baseia no premiado livro The giver (O doador), publicado pela escritora norte americana Lois Lowry, em 1993. Retomando elementos das famosas distopias escritas na primeira metade do século XX, 1984 (George Orwell) e Admirável Mundo Novo (Aldoux Huxley), o filme aborda com profundidade questões importantes da existência humana.



Narrada do ponto de vista do personagem juvenil Jonas (Brenton Thwaites), a história começa em preto e branco, e, à medida que o garoto toma consciência do funcionamento de seu próprio mundo, vai ganhando cores. Inicialmente, todos veem em preto e branco, escolha do diretor Philip Noyce para ressaltar a “mesmice” do local onde vivem.

“A comunidade” onde Jonas mora com sua família é uma das tantas que formam um mundo totalmente controlado. As pessoas não têm livre arbítrio; até mesmo suas profissões são escolhidas por um grupo de anciãos. Estes decidem qual seria a melhor contribuição de cada um para a comunidade. Tal mundo é liderado por uma mulher (Meryl Streep), que tem a pretensão de estar em todos os lugares ao mesmo tempo para que nenhuma mudança aconteça. Ali não há guerras, dores nem tristezas, mas também as alegrias e as paixões não estão presentes. As angústias e os prazeres foram suprimidos tempos atrás, para a manutenção de um sociedade harmônica e seus cidadãos “felizes”.

Assim como na “teletela” de 1984, as pessoas são vigiadas constantemente,desde a infância, por câmeras – dispositivos onipresentes nas comunidades. Os atos de todos são seguidos 24 horas por dia. Antes de sair de casa (a “unidade familiar”), cada um precisa tomar sua “injeção matinal”, que lembra o “soma”, a droga diária de Admirável mundo novo. Dopados o dia inteiro, são incapazes de sentir emoções que possam afetar o equilíbrio da comunidade. Também não há livros, pois são muito perigosos: poderiam difundir ideias diferentes dasrepetidas pelo sistema, e causar rebelião. Nesse ponto, lembra o romanceFahrenheit 451 (Ray Bradbury) e sua queima de livros, outra distopia pós-II Guerra Mundial.

Nesse mundo perfeito, não há toque e não há sexo – os bebês são fabricados geneticamente. As pessoas não sabem o que é sentir amor (como em 1984 eAdmirável mundo novo).

A falta de liberdade interfere também no modo de falar da comunidade. Como a “novilíngua” criada por George Orwell, em O doador de memórias os habitantes se preocupam com a “precisão de linguagem”, uma forma de falar que elimina referências a sentimentos e emoções. É na “precisão de linguagem”, na vigilância e na supressão das memórias que se alicerça esse mundo totalitário.

As memórias foram surrupiadas da população e concentradas em apenas uma pessoa, o “doador”, interpretado por Jeff Bridges (que também é um dos produtores do filme). Ele, com suas dores e alegrias, é o guardião da memória coletiva. Quando Jonas recebe a designação de “receptor”, passa a ser dele o dever de carregar as memórias dentro de si. À medida que Jonas vai conhecendo o passado, seu olhar sobre o mundo vai mudando, e ele passa a enxergar as cores que os demais não podem ver.

O controle das memórias é o ponto chave do filme, é o que possibilita a apatia das pessoas. Elas aceitam que seus direitos, lembranças e senso moral sejam suprimidos. Esse apagamento mnemônico retira o sentido ético das pessoas no momento de suas escolhas, pois com ele perde-se também qualquer tábua de valores. Sem a referência do passado, como podemos saber se agimos de forma certa ou errada? Provocar a morte de alguém, num mundo como esse, pode ser algo correto e inquestionável, porque você não tem como dimensionar seus próprios atos.

E essa é a maior semelhança de O doador de memórias com 1984. Como escreveu George Orwell, “quem controla o passado, controla o futuro”. Também o historiador Jacques Le Goff, em seu livro História e Memória, referiu-se à importância desse controle: “tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva”. A história e a memória são instrumentos poderosos que podem mudar a vida das pessoas. Seu conhecimento pode levar tanto a guerras e genocídios, quanto a conquistas de liberdade no plano social ou individual. O passado é muito perigoso para sociedades totalitárias, que querem controlar cada passo do indivíduo.

Recentemente, o mundo assombrou-se com o esquema de vigilânciainternacional da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (National Security Agency, ou NSA), revelado pelo analista Edward Snowden. Nem pessoas comuns, nem autoridades escaparam de serem espionadas. De certa forma, já estamos vivenciando uma demo do que seria um mundo vigiado pelo “big brother” de 1984. Ainda que não haja teletelas nem anciãos seguindo nossos passos, ou injeções matinais obrigatórias, nossos movimentos na internet não são privados. Embora a desculpa seja a garantia da segurança nacional, ou mesmo a oferta de produtos compatíveis aos nossos gostos e necessidades, isso, por si só, já é uma forma de controle indevido.

Indo além da pura diversão, distopias como O doador de memórias são alertas contra um mundo totalmente controlado, em que o poder de decisão e as escolhas seriam retirados dos cidadãos e transferidos aos “líderes”. O filme pode ser o ponto de partida para interessantes debates nas escolas, com o público juvenil, sobre livre arbítrio, cidadania, invasão de privacidade, a importância da história e da memória para as sociedades e, sobretudo, as ameaças do totalitarismo. Na verdade, esses temas sempre deveriam estar presentes nas discussões de jovens de todas as idades. Através da distopia, o filme nos passa a mensagem de que a construção de um mundo livre e igualitário é possível. Essa sim é a utopia a ser perseguida.


sábado, 20 de setembro de 2014

Aquarelas sensuais de Keinyo White

Aquarelas sensuais de Keinyo White

Por Adriano Dias, via Semema
O talentosíssimo artista neozelandês Keinyo White, cuja técnica em aquarela o vem consagrando como celebridade, acaba de lançar sua mais recente série de telas, com uma temática altamente sensual (quando não explícita). Suas telas são disputadas por figurões importantes que costumam não só prestigiar novos talentos como investir em sua obra como mecanismo de valorização financeira, apostando no mercado de arte como quem joga na bolsa. Keinyo tem aquarelas encomendadas por atores hollywoodianos, CEOS de grandes corporações, juízes e sua arte apenas nos é acessível em exposições. Veja sua coleção de quadros lúbricos, retratando mulheres em poses delicadamente libidinosas, conforme o olhar do espectador. Depois, conheça mais sobre sua história:
A carreira de sucesso do artista passa por uma permanente luta ideológica contra o preconceito, pelo simples, mas complexo, fato de White ser negro. No meio artístico, tal característica inevitavelmente obriga o artista a enfrentar barreiras nada relativas à seu talento, particularmente por Keinyo não circunscrever sua obra à temáticas relativas ao racismo. Sua arte é lírica, longe dos discursos combativos que o ideário preconceituoso pressupõe ser pertinente à produção de um negro. Consagrar-se em um discurso em que predominam artistas brancos é sua forma de combater o preconceito. Não bastasse esse embate, White ainda peita os preconceitos relativos aos temas da arte contemporânea. Não é muito comum encontrar retratistas na atualidade e ele insiste nesse viés expressivo. 
Embora também tenha produzido obras interessantes em óleo, sua técnica em aquarela chama mais a atenção, é sua especialidade. Também já compôs imagens para ilustrar livros infantis. Veja abaixo alguns de seus trabalhos retratando o universo da criança: