Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
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domingo, 12 de março de 2017

Ser poeta, poema de




Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Amiga, poema de Florbela Espanca


Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha magoa e dor
O que me importa a mim? O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beijá-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Anseios, poema de Florbela Espanca



Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!

Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!

Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbres o brilho do luar!...

Não 'stendas tuas asas para o longe..
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar...


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Fanatismo, poema de Florbela Espanca


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!…
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Uma “entrevista” com Florbela Espanca

A poetisa
Caricatura da poetisa

Por Camila Nogueira, via DCM
A portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930) foi uma das maiores poetisas de todos os tempos. As frases abaixo foram extraídas de diversos poemas de sua autoria, presentes em livros como “Trocando Olhares” e “Charneca em Flor”.
Florbela, qual foi sua principal fonte de inspiração?
Gargalhadas de luz. Pétalas que caem uma a uma. Um verso é um olhar, um sorriso, e os de Dante eram o seu amor a soluçar aos pés da estremecida amante.
Há alguma característica que diferencie os poetas das demais pessoas?
As almas dos poetas são incompreensíveis. São almas de violeta, que são poetas também. Só quem embala no peito dores amargas e cretas pode, em noites de luar, entender-nos.
Você sempre quis seguir o caminho da poesia?
Não é questão de escolha, e sim de vocação. Nos meus beijos extáticos e pagãos!… Trago na boca o coração dos cravos! Boêmios, vagabundos e poetas.
Alguma dica a dar àqueles que aspiram tornar-se poetas?
Procuremos somente a Beleza, que a vida é um som d’água ou de bronze e uma sombra que passa.
O que a estimula a escrever?
A Noite. Por que ela é tão escura? Talvez nela exista uma saudade igual à que eu contenho.
Que saudade?
Não sei de onde me vem essa saudade. Talvez da Noite, ou de ninguém. Eu nunca sei quem sou, ou o que tenho.
O que mais?
Minha piedade.
Como assim?
Tenho pena de tudo e de todos. Daquele a quem mentiram, de quem mente, dos que andam pés descalços pela vida. Da rocha altiva sobre o monte, dos que não são iguais ao resto, e dos que se ensanguentam na subida. Tenho pena de mim, pena de você… De não beijar o riso de uma estrela… Pena dessa má hora em que nasci. De não ter asas. De não ser Esta… A Outra… E mais Aquela… De ter vivido e não ter sido Eu.
Sua condição como mulher influenciou sua poesia?
Ó Mulher, como és fraca e como és forte! Como sabes ser doce e desgraçada. Nós, mulheres, somos capazes de fingir quando, em nossos peitos, nossas almas se estorcem amarguradas.
Bem, acho que isso quer dizer sim. Mudando de assunto, o Amor foi um dos assuntos mais recorrentes em sua poesia. O que tem a dizer sobre ele?
É vão o amor, o ódio, ou o desdém; inútil o desejo e o sentimento… Lançar um grande amor aos pés de alguém é um completo desperdício, como lançar flores ao vento.
Hmmm…
O amor quando é sentido não se pode disfarçar… Os lábios podem mentir, mas os olhos são indiscretos – revelam tudo que sentem.
O que mais?
Um grande amor é sempre grave e triste.
Imagino, Florbela, que o melhor seja jamais amar…
De modo algum! Viver neste mundo sem amar é pior que ser cego de nascença.
Nesse caso, o que temos a fazer?
Com misericórdia, amar quem não nos ama, e deixar que nos preguem numa cruz.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Desdém


Andas dum lado pro outro
Pela rua passando;
Finges que não queres ver
Mas sempre me vais olhando.

É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto d'estrelas
O doce olhar saltitante...

É este rasto bendito
Que atraiçoa o teu olhar,
Pois é tão leve e fugaz
Que eu nem o sinto passar!

Quem tem uns olhos assim
E quer fingir o desdém,
Não pode nem um instante
Olhar os olhos d'alguém...

Por isso vai caminhando...
E se queres a muita gente
Demonstrar que me desprezas
Olha os meus olhos de frente!...


Florbela Espanca

domingo, 29 de março de 2015

FUMO


Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos 
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...


Florbela Espanca