Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

10 de novembro, crônica de Machado de Assis


Venho pedir o seu voto na próxima eleição para deputado.

– Mas, com o senhor, fazem setenta e nove candidatos, que...

– Perdão: oitenta. Que tem isto? A reforma eleitoral deu a cada eleitor toda a independência, e até fez com que adiantássemos um passo. Em rigor, e pelo antigo sistema, há dois modos de fazer eleição – ou por designação de um chefe ou por acordo dos eleitores em reuniões públicas. Não contesto que o primeiro modo dá a unidade e o segundo a liberdade do voto. Nós, porém, inventamos um terceiro meio mais próprio de família, mais adequado aos sentimentos bons e sossegados: – a candidatura de paróquia, de distrito, de rua, de meia rua, de casa e de meia casa... Quem é que não tem um ou dois companheiros de escritório ou de passeio?

– Bem; pede-me o voto.

– Sim, senhor.

– Responda-me primeiro. Que é que fazia até agora?

– Eu...?

– Sim, trabalhou com a palavra ou com a pena, esclareceu os seus candidatos sobre as questões que lhe interessam, opôs-se aos desmandos, louvou os acertos...

– Perdão, eu...

– Diga.

– Eu não fiz nada disso. Não tenho que louvar nada, não sou louva-deus. Opor-me! é boa ! Opor-me a quê ? Nunca fiz oposição.

– Mas esclareceu...

– Nunca, senhor! Os lacaios é que esclarecem os patrões ou as visitas: não sou lacaio. Esclarecer! Olhe bem para mim.

–Mas, então, o que é que o senhor quer?

– Eu quero ser deputado.

– Para quê?

– Para ir à câmara falar contra o ministério.

– Ah! é contra o Dantas?

– Nem contra nem pró. Quem é o Dantas? eu sou contra o ministério... Digo-lhe mesmo que a minha ideia é ser ministro. Não imagina as cócegas com que fico em vendo um dos outros de ordenanças atrás... Só Deus sabe como fico!

– Mas já calculou, já pesou bem as dificuldades a que...

– O meu compadre Z... diz que não gasta muito.

– Não me refiro a isso; falo do diploma, o uso do diploma. Já pesou...

– Se já pesei? Eu não sou balança.

– Bem, já calculou...

– Calculista? Veja lá como fala. Não sou calculista, não quero tirar vantagens disto; graças a Deus para ir matando a fome ainda tenho, e possuo braços. Calculista!

– Homem, custa-me dizer o que quero. O que eu lhe pergunto é se, ao apresentar-se candidato, refletiu no que o diploma obriga ao eleito.

– Obriga a falar.

– Só falar?

– Falar e votar.

– Nada mais?

– Obriga também a passear, e depois se torna a falar e votar. Para isto é que eu vinha pedir-lhe o voto, e espero que não me falte.

– Estou pronto, se o senhor me tirar de uma dificuldade.

– Diga, diga.

– O X. pediu-me ontem a mesma coisa, depois de ouvir as mesmas perguntas que lhe fiz, às quais respondeu do mesmo modo. São do mesmo partido, suponho!

– Nunca: o X. é um peralta.

– Diabo! ele diz a mesma coisa do senhor.