Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

quarta-feira, 5 de março de 2014

Vinde pra lá... Vinde!


Publicado por Jean Scharlau

Para minhas filhotas,
 para o Roberto Cataldo, que encerra garbosamente o primeiro tempo, com saldo de gols, em jogo em que o empate já o classifica, e para Olívio Dutra, que hoje completa 69 anos e continua nos inspirando com seu trabalho e modo de ser exemplares, como líder e cidadão.

No feriado de Corpus Christi
estava caminhando ali pela Usina do Gasômetro
e me veio correndo um poeminha.

Cabelinho crespo, rosto luminoso,
não tinha mais que meio metro de altura,
e me pedia, puxando na perna da calça:

- Tio, tio, me escreve!

Olhei com aborrecimento, pena
e um tantinho de fascínio relutante
para o bichinho que insistia:

- Tio, me escreve, tio!

- Agora não, respondi, estou sem caneta...
E nem papel eu tenho.

- Tio, então me grava aí no celular.

Ah, chateação! Que trabalheira, pensei.
- Não dá, tá sem bateria, menti.

- Ah, tio, me decora, então;
ninguém me declamou ainda;
ninguém disse nem o meu nome.

- Tá bom, mas daqui a pouco, tá?!
Vai ali na beira do rio olhar os barcos,
as borboletas, os passarinhos,
essas coisas que os poeminhas gostam,
vai.

Nisto encontrei uns conhecidos, e comecei a conversar sobre política, negócios...
E esqueci do poeminha.

Terminada a conversa lembrei dele, olhei em volta e notei a ausência. Estranho: o que era incômodo começou a fazer falta, e o sentimento de pena virou contra mim e parou a me doer.

Procurei o mandinho por todo o pátio, estacionamento, beira do rio, nos barcos, na volta dos passarinhos, as borboletas, que nem tinha, perto dos cachorros, mesmo com coleiras, entre as crianças, se segurava a mão de alguém, as barras das saias, as pernas das calças - nada!

Sumiu o poeminha.
E nem o seu nome eu sei.