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segunda-feira, 14 de março de 2016

Pobreza poética

Pobreza poética

Por Thiago Burckhart, para Desacato.info.
A poética é comumente associada a uma técnica de linguagem que valoriza o texto na sua elaboração harmônica, trazendo beleza e a ênfase na subjetividade. Apesar dessa definição não estar incorreta, pretendo trazer a poética para a vida social. A poética pode ser entendida como uma forma de vida, de vivência e de experiência, calcada nas emoções. Isso porque a poética, enquanto arte, não pode se resumir a expressividade linguística, mas adentrar nos espaços morais como uma proposta ético-política.
Contudo, o contexto hodierno em que vivemos é marcado pela “pobreza poética”, seja ela entendida como linguagem, como emoção, ou como ético-política. Essa pobreza também é aliada a uma pobreza ética, ou seja, de reflexão sobre nossas práticas cotidianas. Contudo, esses espaços vazios são preenchidos pela angústia e pelo medo, pela plasticidade e frieza. Esses tempos sombrios em que vivemos – apesar de me questionar se algum tempo historicamente não o tenha deixado de sê-lo – são marcados pela objetividade supérflua, que a cada vez mais ganha espaço em detrimento da subjetividade.
Sociedade do espetáculo
A sociedade do espetáculo (Guy Debort) nunca foi tão espetacularizada como é hoje. Os holofotes estão em toda parte, seja na televisão – que a cada dia vem perdendo adeptos –, seja por meio dos telefones inteligentes que a todo momento captam imagens que valem por si mesmas, que são o meio e o fim da sociedade do espetáculo. A imagem torna-se capital. Talvez ela sempre tenha sido, mas a diferença da sociedade contemporânea é que a imagem é plenamente manipulável, e através da manipulação busca-se a (impossível) perfeição.
Não que o espetáculo sempre seja negativo. Peças de teatro também são espetáculos e nos preenchem interiormente em razão da experiência poética que proporcionam. O que se coloca hoje, contudo, em termos de espetáculo, é a perda da autenticidade humana e da própria possibilidade de experiência poética. A sociedade espetacularizada pelos meios de comunicação de massa nega a experiência poética nas suas diversas dimensões.
A pobreza se reflete na produção estético-artística. A cultura de massa, subjugada ao ditames do capital, é incapaz de produzir produtos que tenham por objetivo o enriquecimento poético, ético, filosófico e reflexivo dos seus receptores. Reproduz-se um ciclo de superficialidade que mantêm a grande massa presa na ignorância. A propaganda, enquanto veículo de difusão da ideologia dominante é o grandioso instrumento que contribui diretamente para a manutenção do status quo.
O mundo objetificado não abre espaço para a subjetividade, negando-a precipuamente, de modo que também nega a alteridade. As emoções são literalmente vistas como remediáveis, haja vista o alto índice de venda de rivotril por exemplo, sendo o Brasil o maior consumidor do mundo em volume desta droga. Contudo, o paradoxo está no fato de que ao passo que procuramos nos esquivar de emoções, também procuramos por epifenômenos emotivos. Precisamos a todo momento demonstrar alegria, pois este é o ideal de imagem que se vende.
Poética X dominação
A poética enquanto ético-política da emoção deve sustentar a necessidade de autenticidade, de ser autêntico, o que é bastante difícil no mundo das máscaras e dos vazios. A poética enquanto ético-política deve advogar em nome do preenchimento do vazio humano, o vazio intelectual, de Hannah Arendt já havia diagnosticado em 1957 no seu livro "A Condição Humana". A poética enquanto ético-política é a luta contra as formas de dominação e opressão que subjetiva ou objetivamente fazem parte do nosso cotidiano.
Uma das formas de dominação que marca o pensamento ocidental ao longo de toda a modernidade é o excesso de racionalidade. A denúncia dessa excessiva e excêntrica racionalidade foi feita por Theodoro Adorno e Max Horkheimer na "Dialética do Esclarecimento". Talvez esta ainda seja uma causa pelo qual ainda há que se lutar, qual seja, a denúncia dos mecanismos excessivos da razão instrumental, sem entretanto negar o que a razão pode vir a ser, em prol de uma vida poética.