Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sábado, 24 de outubro de 2015

As fronteiras da cosmologia: de Alexandria aos multiversos


Professor Thomas de Toledo, em seu blog

Neste fim de semana, dediquei-me a um estudo que é uma paixão de infância: a cosmologia. Entendo o cosmos como o conjunto integrado de tudo o que é, foi e será. O cosmos é o Todo e para entendê-lo, é preciso recordar como o ser humano o compreendeu ao longo dos milênios.

Falar sobre cosmologia remete-nos a Alexandria, que foi a maior escola de sabedoria da antiguidade: ela era uma ponte entre o conhecimento antigo do Egito com o novo dos gregos. Muitos dos conceitos que usamos até hoje na astronomia foram desenvolvidos lá, por gênios como Hiparco e Hipátia, e mesmo Ptolomeu, que por milênios foi a referência em seu modelo geocêntrico.

Até que vieram os cristãos, que incendiaram a biblioteca e proibiram seus estudos sob o pretexto de que o homem não pode buscar a verdade, pois ela "só reside em deus". Veio então a Idade das Trevas: cruzadas, inquisições, pestes por falta de higiene, etc. Mas eis que novamente em meio à escuridão do cristianismo, renasce a luz da cultura clássica grega: surgem pensadores como Galileu, Copérnico, Kepler e Giordano Bruno, que retomaram o conhecimento de Alexandria e corrigiram os erros da visão teológica e geocêntrica. Galileu provou que a Terra girava ao redor do sol e Bruno foi queimado pela inquisição por dizer que o universo era infinito e que as estrelas são sóis ao redor dos quais orbitam planetas como o nosso.

Em um momento seguinte, com Isaac Newton, foram reveladas as leis da física mecânica e o grande mistério acerca das órbitas planetárias foi finalmente esclarecido: a força que exerce esta atração chama-se gravidade. Mas a gravidade não é a única força existente. Logo, Maxwell descobriu a unidade entre eletricidade e magnetismo. Posteriormente, os físicos descobririam ainda a força nuclear forte (explosão atômica) e a força nuclear fraca (irradiação).

Por mais de dois séculos, a mecânica newtoniana parecia um ambiente funcional para a física, até que um jovem cientista chamado Albert Einstein descobre uma correlação entre espaço e tempo. Ou seja, quanto maior a massa de um corpo celeste, maior será sua força gravitacional. Isto incide em uma distorção do espaço-tempo, fazendo com que o tempo seja relativo. Ou seja, o passado e o futuro são apenas percepções de uma realidade que só acontece num eterno presente.

Ao mesmo tempo em que Einstein revolucionava a física do macrocosmo, um grupo de cientistas descobre novas leis da física no universo microscópico: a mecânica quântica. Neils Bohr descobriu que, diferente do movimento dos planetas ao redor do sol, os elétrons ao redor do núcleo atômico poderiam mudar sua órbita. Mas outros pesquisadores foram ainda mais longe: descobriram que partículas que atravessam uma fenda dupla comportam-se como onda, exceto quando obervado. O que? Seria uma ruptura definitiva com método empírico de Francis Bacon e com a visão sistemática de Descartes? Mais do que isto: a mecânica quântica quebrava a própria ideia de existência de um mundo material. Tudo é energia.

O debate entre Einstein e Bohr parecia retomar uma discussão filosófica entre Parmênides e Heráclito. Se por um lado, o universo parecia estático na visão da Relatividade Geral, por outro ele mostrava-se dinâmico com a Mecânica Quântica. Até que surgiu uma possibilidade de unificar tais visões com uma nova teoria: as Super Cordas.

O átomo é dividido em prótons, nêutrons e elétrons. Estes são formados por quarks, que são formados por quantas. Mas para unificar a física, foi necessário ousar em uma nova teoria: a de que no nível subatômico pequenos filamentos de cordas vibram e assim se forma toda a matéria e antimatéria existente. O problema é que surgiram várias teorias das cordas, com cada qual propondo um diferente caminho. Quando elas já estavam caindo em descrédito, eis que surge a Teoria M, capaz de unificar todas as teorias das cordas.

Mas a Teoria M exige quebrar ainda mais paradigmas: para entender como partículas separadas guardam uma ligação mesmo que à distância, foi necessário conceber outras dimensões. Hoje já se supõe a existência de até 11 dimensões. O que isto significa? Primeiro: que a nossa ideia de universo não mais é capaz de explicar o Todo. Além do universo que conhecemos, existem outros universos, paralelos ao nosso, com diferentes leis físicas e evoluindo para diferentes sentidos. Mais do que isto: estes universos interagem entre si e ao tempo todo novos universos são criados. A este conjunto de universos, deu-se o nome de multiversos.

Ou seja, o Big Bang de Stephan Hawking, ou a grande explosão que originou o nosso universo, é apenas um evento dentre infinitos outros e possivelmente vários Big Bangs estejam acontecendo aqui e agora. E é exatamente o que os cientistas do CERN buscam esclarecer com o acelerador de partículas. A descoberta do Boson de Higgs comprovou que toda realidade está conectada. Aliás, o que chamam de "particula de deus", é exatamente o que prova que o deus da bíblia não passa de que um delírio, uma criação humana usada para dominar as massas.

De qualquer forma, o que podemos dizer é que a mecânica quântica mostra que a configuração de nosso universo é apenas uma combinação de probabilidades. Nesta imensidão de probabilidades, surgiram galáxias onde sóis anãos vermelhos como o nosso existem aos bilhões. Orbitando tais sóis, existem planetas que podem por uma matemática probabilística desenvolver uma atmosfera necessária para o desenvolvimento da vida, a partir da combinação de moléculas de carbono. Mas podem existir outras formas de vida e a informação que conhecemos transmitida pelo DNA pode ser apenas uma de tantas outras existentes no cosmos.

E assim caminha a ciência. Ao contrário do pensamento religioso que é estático, dogmático e imutável, a ciência baseia-se em fatos, análises, experimentos e teorias. Ela pode sem dúvidas desviar-se pelo poder econômico ou por dogmas científicos que sustentam bolsas e projetos de pesquisas. Mas por mais que a ciência possa falhar, ela ainda é a melhor maneira de se ler o Livro da Natureza.