
Autor?
Penso na morte,
e penso como uma obsessão.
Como se ela existisse,
concretamente,
uma figura, uma mulher.
Muito melhor a morte do
que o nada,
o nada: escuro, frio,
infinito,
assim como o medo.
Espreito a morte, não como
o fim,
mas como o desejo de todo
mortal:
a imortalidade .
Sim, a imortalidade
estaria na morte
Imagino a morte
uma caveira ,
vestida de negro ,
a ceifadeira à mão,
ou da pena de Gustavo
Doré.
Imagino a morte com o
rosto
da menina mais bonita
que amei em minha
infância,
e olha que amei a muitas!
Aquela menina a quem nunca tive
coragem de me declarar,
pois, ou me faltavam
palavras
(e eram tantas as que
gostaria de
pronunciar, que se
atropelavam
umas nas outras),
ou as poucas que eu
conseguia balbuciar
saiam cansadas, de pernas
bambas,
era mais difícil do que
caminhar sobre muletas.
(Ah a poliomielite!)
Morte,
a mais linda menina de
minha infância,
de meus sonhos, de minhas
fantasias,
(ou as prostitutas
bonitas, de saias curtas,
que eu ousava olhar,
apenas olhar,
pois o mais era pecado
e surgiam feito flores em
terreno fértil,
às nossas vistas da
ladeira da rua da zona
na cidade do Cabo de Santo
Agostinho,
onde Pizon descobrira o
Brasil
e eu o sexo)
mas já agora mulher,
os seios ferindo a leve
roupa
com que está vestida.
(Uma indiscrição:
a morte
não usa
calcinha !)
Ao invés
de ceifadeira ,
a morte
traz a sua mão
Um lindo sorriso
e uma boca de lábios
grossos,
tudo anuncia,
e, com
gestos leves ,
a morte
me convida
a partirmos em viagem ao seu reino .
Existindo ou não outra vida ,
eu não sei,
sei apenas que foi uma boa
morte
e eu gozei.
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