Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

terça-feira, 9 de junho de 2015

O que tem de ser dito


Por que me calo, já por tempo demais
Sobre o que é evidente e foi ensaiado
em jogos de guerra, ao final dos quais, como sobreviventes,
somos, se muito, notas de rodapé?

É o alegado direito do primeiro ataque,
que poderia apagar o povo iraniano
subjugado por um boquirroto
e dirigido ao júbilo coletivo,
porque se cogita construir uma bomba atômica
na esfera de poder do Irã.

Mas por que me nego,
a tratar pelo nome aquele outro país
no qual há anos — embora em segredo —
existe potencial nuclear crescente
mas fora de controle, por que nenhum auditor é deixado entrar?

O ocultamento geral desse fato,
ao qual se subordina o meu silêncio,
cai sobre mim como pesada mentira
e coerção, que ameaça castigos;
a condenação de “antissemitismo" é a mais comum.

Agora porém, porque meu país,
cujos velhos crimes antigos,
que são inigualáveis,
é chamado e chamado e assume a tarefa
embora repetidamente e protocolarmente,
com lábios escorregadios, chame de reparação,
será enviado a Israel
mais um submarino, cuja especialidade
consiste em levar ogivas mortais devastadoras de tudo
a um local onde nem se sabe com certeza se há bomba,
como se o medo fizesse prova de algo,
digo o que tem de ser dito.

Mas por que me calei até hoje?
Porque achava que minha origem,
maculada por mácula irremissível
proibia atribuir esse fato, como verdade declarada
ao país Israel, ao qual eu sou e
quero continuar ligado.

Por que só digo agora,
envelhecido e com tintas finais:
Israel potência nuclear põe em risco
a já frágil paz mundial?
Por que é preciso dizer
o que amanhã já pode vir tarde demais;
também porque nós -alemães já suficientemente sobrecarregados-
poderíamos nos tornar cúmplices de um crime
previsível, razão pela qual nossa cumplicidade
não pode ser disfarçada-escondida
nas desculpas costumeiras.

Assumo e admito: não me calo mais
porque estou enojado com a hipocrisia do Ocidente;
além disso, há a esperança
de que muitos se livrem do próprio silêncio,
e exijam que o causador do perigo evidente
abstenha-se de violência
e ao mesmo tempo insistam
que haja controle sem restrições.

Günter Grass