Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Quatro poemas de José Mário Rodrigues

José Mário Rodrigues. Crédito: Helder Tavares / DP / D.A Press
José Mário Rodrigues. Crédito: Helder Tavares / DP / D.A Press

ELEGIA

Na extrema humildade da morte
repousa a nossa excessiva vaidade.
Não há lugar para nada
nem precisamos nos vestir de heróis
príncipes ou poetas.

Pois tudo acaba e começa
num pequeno espaço
em que não cabe um epitáfio.

O que somos e não somos
e o que pensamos que somos
não cabe num epitáfio.

Se durante as estações
convivemos com a fantasia e o sonho
um dia vem o silêncio
e nos abre um caminho que cruza o infinito para
o
eterno
ou para além do eterno.


SUGESTÃO

Não digas teus segredos
a uma suposta paixão
e livra tuas palavras
de inutilidade.
Conversa com a distância
que vai dessa água até o horizonte.
Se nenhuma resposta tiveres
pelo menos
terás a certeza
de que teu mundo está contigo
e o amor não se gastou.


CONVICÇÃO

Todos os meus anos
e o resto dos meus dias.
Os livros imaginados
na constelação da alegria.

Tudo o que restou
Do tempo da calmaria.
Ou dos ventos vindos do mar
Varrendo a alma vazia.

Toda a palavra escrita
No sangue que se fez poesia
E a emoção derramada
Num gesto que amanhecia.

Todo sonho desvelado
no brilho das três-marias:
não vale um momento de amor:
travessia entre o desejo,
o prazer e a dor.


IMAGEM

O tempo é começo
para quem faz
o caminho pelo avesso.

Às vezes desespero
sem as rédeas e o sentido exato
do viver que quero.

Esse é meu destino.
Selado por uma luz que me alumia,
o sonho
já não tem a forma
da nítida imagem que eu fazia.


José Mário Rodrigues nasceu em Flores (PE), em 23 de julho de 1947. Pertencente à Geração 65, é autor de vários livros de poesia, entre os quais Os Motivos, Alicerce de Ventania e Trem de Nuvens.