Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Uma “entrevista” com Florbela Espanca

A poetisa
Caricatura da poetisa

Por Camila Nogueira, via DCM
A portuguesa Florbela Espanca (1894 – 1930) foi uma das maiores poetisas de todos os tempos. As frases abaixo foram extraídas de diversos poemas de sua autoria, presentes em livros como “Trocando Olhares” e “Charneca em Flor”.
Florbela, qual foi sua principal fonte de inspiração?
Gargalhadas de luz. Pétalas que caem uma a uma. Um verso é um olhar, um sorriso, e os de Dante eram o seu amor a soluçar aos pés da estremecida amante.
Há alguma característica que diferencie os poetas das demais pessoas?
As almas dos poetas são incompreensíveis. São almas de violeta, que são poetas também. Só quem embala no peito dores amargas e cretas pode, em noites de luar, entender-nos.
Você sempre quis seguir o caminho da poesia?
Não é questão de escolha, e sim de vocação. Nos meus beijos extáticos e pagãos!… Trago na boca o coração dos cravos! Boêmios, vagabundos e poetas.
Alguma dica a dar àqueles que aspiram tornar-se poetas?
Procuremos somente a Beleza, que a vida é um som d’água ou de bronze e uma sombra que passa.
O que a estimula a escrever?
A Noite. Por que ela é tão escura? Talvez nela exista uma saudade igual à que eu contenho.
Que saudade?
Não sei de onde me vem essa saudade. Talvez da Noite, ou de ninguém. Eu nunca sei quem sou, ou o que tenho.
O que mais?
Minha piedade.
Como assim?
Tenho pena de tudo e de todos. Daquele a quem mentiram, de quem mente, dos que andam pés descalços pela vida. Da rocha altiva sobre o monte, dos que não são iguais ao resto, e dos que se ensanguentam na subida. Tenho pena de mim, pena de você… De não beijar o riso de uma estrela… Pena dessa má hora em que nasci. De não ter asas. De não ser Esta… A Outra… E mais Aquela… De ter vivido e não ter sido Eu.
Sua condição como mulher influenciou sua poesia?
Ó Mulher, como és fraca e como és forte! Como sabes ser doce e desgraçada. Nós, mulheres, somos capazes de fingir quando, em nossos peitos, nossas almas se estorcem amarguradas.
Bem, acho que isso quer dizer sim. Mudando de assunto, o Amor foi um dos assuntos mais recorrentes em sua poesia. O que tem a dizer sobre ele?
É vão o amor, o ódio, ou o desdém; inútil o desejo e o sentimento… Lançar um grande amor aos pés de alguém é um completo desperdício, como lançar flores ao vento.
Hmmm…
O amor quando é sentido não se pode disfarçar… Os lábios podem mentir, mas os olhos são indiscretos – revelam tudo que sentem.
O que mais?
Um grande amor é sempre grave e triste.
Imagino, Florbela, que o melhor seja jamais amar…
De modo algum! Viver neste mundo sem amar é pior que ser cego de nascença.
Nesse caso, o que temos a fazer?
Com misericórdia, amar quem não nos ama, e deixar que nos preguem numa cruz.