Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

OS LIMÕES, poema de Eugênio Montale


Escuta-me, os poetas laureados 
circulam apenas entre plantas 
de nomes pouco usados: buxeiros alienas ou acantos.
Eu, por mim, prefiro os caminhos que levam às valas 
cheias de mato onde em lamaçais
já meio secos meninos apanham 
alguma esquálida enguia:
as trilhas que bordejam os taludes descem por entre os tufos de caniços
e se metem nas hortas, entre os pés de limão.

Tanto melhor se a algazarra dos pássaros 
se dissipa engolida pelo azul: 
mais claro se escuta o sussurro 
dos galhos amigos no ar que mal se move, 
e as sensações deste cheiro
que não se larga da terra
e faz chover no peito uma doçura inquieta. 
Aqui se cala por milagre
a guerra das desencontradas paixões, 
aqui até a nós, os pobres, toca uma parcela de riqueza 
e é o cheiro dos limões.

Vê, neste silêncio no qual as coisas
se entregam e parecem prestes
a trair o seu último segredo,
às vezes esperamos
descobrir um defeito da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não prende,
o fio a desenredar que enfim nos leve
ao centro de uma verdade. 
O olhar perscruta em volta, 
a mente indaga concerta desune 
em meio ao perfume que se espalha 
enquanto o dia enlanguesce. 
São os silêncios em que se vê 
em cada sombra humana que se afasta 
alguma Divindade surpreendida.

Mas a ilusão se desfaz e o tempo nos devolve 
à cidade ruidosa onde o azul mostra-se 
apenas por retalhos, no alto, entre as cimalhas. 
Castiga a chuva a terra, então; se espessa 
o tédio do inverno sobre as casas, 
a luz torna-se avara — a alma, amarga. 
Quando um dia de um portão malfechado 
entre as árvores de um pátio
nos surge o amarelo dos limões; 
e no coração o gelo se dissolve, 
e no peito estalam 
suas canções
as trombetas de ouro da solaridade.

Eugênio Montale*


Tradução de Geraldo H. Cavalcanti

*Poeta, jornalista e tradutor italiano recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1975.