Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A OFERENDA





Apenas sei o que me ensina o mestre. Embora nunca tenha visto o seu rosto, pois quando se apresenta em seus trajes brancos, cobrem-lhe as faces e os cabelos, capuz de mesma alvura, desconfio que o mestre seja vários, ou até um deus, que possa mudar-se em muitos. Às vezes noto-lhe a voz estranha, em outras ocasiões, reconheço uma que já ouvi antes, como um canto de pássaro sequestrado da infância. 

Mas esses pequenos detalhes, que servem para distrair-me, não são coisas que valham grandes preocupações de minha parte ou do meu povo; agradar aos deuses, esta é a nossa finalidade.  Embora eu seja um escolhido, a quem os homens devem respeito, admiração e têm ainda – e o digo sem medo de ser arrogante - inveja, apesar de tudo sou um servo, e é isto muito mais valioso do que um reino aqui nesta passagem terrena. Almejo os reinos de outros mundos, mais luxuosos, mais felizes, mais prazerosos. Meus reinos não são deste mundo! Digo sempre.  Por isso sirvo a espera das recompensas maiores.

O que mais sinto e incomoda-me, nesta minha vida de abnegação e entrega a favor do meu povo e em nome dos deuses, é a solidão. Sei que assim falando, vocês, na posteridade, – para quem escrevo – acharão que vivo só, enclausurado talvez em algum templo. Não, minha vida tem sido até cansativa, buscam-me muitos, os meus enamorados, em minha ilha, mas a única voz que ouço, a única pessoa com quem posso conversar é o meu mestre que tudo sabe que tudo me ensina e, apesar do seu saber, não está sempre comigo, e nestes momentos condenam-me, ou melhor, libertam-me, o meu destino e a minha iniciação, a calar-me, a guardar todo o meu saber, meu poder imaginativo, para o momento certo. É quando me sinto só, apesar de rodear-me um exército.

Todas as pessoas que me cercam têm por função o cuidado com o meu prazer corpóreo, com minha segurança, com a minha elevação espiritual, e são proibidas de falar-me, dirigir-me quaisquer palavras, pois meus ouvidos são apenas depositários do saber do mestre.  Não quer o mestre, e os mestres de meu mestre, que as suas falas, suas vozes, suas ideias e seus ensinamentos errôneos maculem o meu espírito puro e imaculado.  Por isso todos os servos são mudos. Entre aqueles que nascem mudos, e que são destinados pelos deuses e sua corte a servirem aos cordeiros – pois como sou cordeiro, outros já o foram e outros serão – são escolhidos os meus servos mais próximos, para as outras funções são selecionados, entre as famílias de meu povo, aqueles que voluntariamente terão as suas línguas cortadas, pois o mal é o que sai da boca dos servos, do povo.

Às vezes meu corpo sente a necessidade de prazeres e para acalmar o espírito demoníaco que habita as carnes e aprisiona o espírito da alma, é-me servido vinho, que bebo em grandes quantidades, misturado com água, como fazem os sábios helenos.

Às mulheres e aos rapazes que me servem como amantes, não é permitido que vejam o meu corpo enquanto o satisfazem, pois através dos fluidos que ele emana, nos momentos de gozo, é possível, além de ver-se o futuro, conhecer segredos, mistérios, artes e mágicas que só aos sacerdotes, iniciados e feiticeiros reais são permitidos conhecer, pois há  o perigo de que pessoas estranhas e inescrupulosas, com a ciência desses mistérios, almejem poderes terrenos. Por isso essas mulheres e homens a quem escolho pelos corpos que mais me fazem enrijecer, têm os olhos furados. Não se pode confiar nas vendas que comumente são atadas aos mais íntimos, entre os quais os que me banham, e que têm a morte como castigo se ousarem observar-me.

Sou uma oferenda, e o meu destino é ser imolado quando se fizerem vinte e um, os ciclos de minha vida. Não temo a morte como os ignorantes, pois sou culto e iniciado nos ritos próprios aos homens de minha casta e nos ritos exclusivos para os que serão oferecidos em holocausto.

No dia de minha morte porei a vestimenta mais bonita, que ainda não possuo, mas que aos poucos indico aos artesões como desejo que seja confeccionada. Tenho diários sonhos, e um deus que não conheço aparece-me sempre. Meu mestre crê que seja a minha nova imagem, o mais novo deus da corte celeste que surgirá após a minha morte, após a oferenda: a minha forma divina. Mas ao despertar desses sonhos, apenas pequenos detalhes de suas vestes a mim são permitidos lembrar, e montando esse enigma terei a minha indumentária no grande dia. Procurarei sorrir quando a faca ritual penetrar em meu coração, não terei o horror estampado em minhas faces como as donzelas e os castos rapazes de tenra idade que são sacrificados anualmente a espera da grande oferenda.

Mas a minha vida não é só prazeres como possa parecer essas pequenas divagações ditadas a meus escribas, através lençóis, cortinas e outros adereços que nos separam. Antes de tudo os ritos, a iniciação, os conhecimentos. Quererão os deuses e suas hostes um ignorante? Dedico-me horas de estudo com meu mestre, horas cansativas de exercícios físicos, orações e pequenas ofertas. Todo o meu tempo é regrado, como as chuvas fertilizantes o são pelas estações. Se me detenho, em minhas crônicas, em frivolidades, prazeres e exóticas observações, é que não ouso revelar detalhes de minha preparação a incautos, interesseiros e aventureiros, que por ventura viessem a ter acesso a esses sagrados manuscritos, diversão de um futuro deus, dádiva de seu espírito alegre e bondoso aos seus adoradores.

Cansado, ordeno a meus escribas para imergir os seus trabalhos em banha protetora para que eles durem alguns anos a mais. Recolho-me aos meus aposentos onde me esperam o vinho, alguns rapazes e mulheres para compartilharem de minha potestade.
Após a orgia, vinho, sexo, gozo e cansaço. Com certeza já será noite, alta noite: durmo!


(Itárcio Ferreira)

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Outros contos de Itárcio Ferreira:

Da primeira fase (1988/1989):
Da segunda fase (após 2013):