Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Elke Maravilha: "Eu faço tudo errado: eu bebo, fumo. Ginástica, já tentei. Mas tenho preguiça. Ainda bem que o corpo ainda dá pro gasto, né, criança?"


As religiões estimulam o ódio?

Amor? Amor é uma coisa que dói dentro do peito


“Amor? Amor é uma coisa que dói dentro do peito. Dói devagarinho, quentinho, confortável. É a mão que vem da cama vizinha, de noite, e segura na sua, adormecida. E você prefere ficar com o braço gelado e dormente a puxar a sua mão e cortar aquele contato. Tão precioso ele é. Amor é ter medo - medo de quase tudo - da morte, da doença, do desencontro, da fadiga, do costume, das novidades. Amor pode ser uma rosa e pode ser um bife, um beijo, uma colher de xarope. Mas o que o amor é, principalmente, são duas pessoas neste mundo”.

Rachel de Queiroz

Mayra Andrade & Trio Mocotó - "Berimbau"

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A esposa de Borges e a pequena Buenos Aires



Buenos Aires é algo como São Paulo com alguns milhões de habitantes a menos. OK, uma constatação um tanto quanto óbvia e extremamente reducionista em relação às inúmeras diferenças. Mas o que importa é dizer que esses muitos milhões a menos criam um “esvaziamento demográfico” que, além de melhorias à qualidade de vida, gera situações que, para quem passou os últimos anos na capital paulista, parecem passadas em pequenos povoados deste mundo.

Você está almoçando e, de repente, passa pela porta o cineasta Pablo Trapero (Família Rodante e Leonera). Está tomando o chá da tarde e se depara com Bielsa, não El Loco Bielsa, mas seu irmão, Rafael, ex-ministro de Relações Exteriores.

Quando resolve ir ao Museu Jorge Luis Borges, vê na porta Gabriela Michetti, espécie de ministra-chefe do governo da cidade de Buenos Aires. Como não fosse suficiente, na sequência sai Maurício Macri, o chefe em si, com sua “cara de nada”.

O mais interessante nessas últimas andanças, no entanto, ocorreu dois minutos depois. Quando entro no museu, após superar o borbulho da saída macrista, uma senhora de irretocável elegância, cabelos meio brancos e meio pretos – não são grisalhos, não nos confundamos, passa a explicar-me a visitação com uma incrível quantidade de detalhes.

Alguém a chama pelo nome – Maria – e, por um segundo, passa pela cabeça que pode ser a esposa de Borges. Mas não, não poderia ser. Eu, leigo em Borges, tudo o que sabia sobre sua esposa é que era uma pessoa muito mais jovem que ele. Mas seria, achava eu, impossível que fosse tão mais jovem a ponto de seguir ativa vinte anos depois da morte do escritor, com cara de senhora recém-ingressada nas artes da 3ª idade. E mesmo que se mantivesse desta maneira, não ficaria à porta do museu recebendo as pessoas.

Eis que alguém lhe chama e entrega um envelope: Maria Kodama. Sim, é ela. Nisso já se haviam passado muitos minutos de conversa com a esposa de Borges sem sabê-lo. Me senti um dos maiores idiotas da face da Terra. Estava ali, na minha frente, e não sabia. Nos minutos que se seguiram, duas pessoas se somaram à conversa e Maria passou a nos apresentar o museu – que, caso alguém se interesse, fica na Calle Anchorena, Barrio Norte, paralela à Avenida Puerreydon.

Contou que abriu tudo na raça, com dinheiro que Borges ganhou em um prêmio. A casa abriga alguns escritos, muitas lembranças, milhares de livros. Em cada um deles, o escritor fazia observações na contracapa. Em um deles, em letra miúda, Borges anotou contradições que encontrou ao longo do enredo. “Depois disso, nunca mais deixei anotações em livros. Você vê o quanto elas revelam da personalidade das pessoas”, afirma, quase tietante, admirada com a inteligência e a concentração de Borges.

Ainda há um apartamento abarrotado de coisas do autor, mas falta apoio para expandir o museu. No entanto, a melhor guia turística sobre Borges está segura que, no próximo ano, tudo vai sair do papel. Ela conta que a casa ao lado é aonde o escritor viveu quando era criança. Maria tentou comprar o imóvel mas, quando contou ao dono que ali havia vivido Borges, a transação se tornou impossível.

− Você venderia? - pergunta

− De jeito nenhum – respondo

− Pois bem. Eu entendo – afirma Maria.

E dá por encerrada a visita.

Obrigado, Jesus!

Juçara Marçal - "Velho Amarelo"

domingo, 14 de agosto de 2016

A vida... O vinho...

Resultado de imagem para fernando pessoa sobre a vida e o vinho

Os meus filhos e os filhos dos outros


Aos meus filhos Danone
Aos filhos dos outros a fome

Aos meus filhos compaixão
Aos filhos dos outros o lixão

Aos meus filhos amor
Aos filhos dos outros a dor

Aos meus filhos a ceia
Aos filhos dos outros cadeia

Aos meus filhos beleza
Aos filhos dos outros pobreza

Aos meus filhos a sorte
Aos filhos dos outros a morte

Aos meus filhos faculdade
Aos filhos dos outros dificuldade

Aos meus filhos educação
Aos filhos dos outros execução

Aos meus filhos proteção
Aos filhos dos outros prostituição

Aos meus filhos meritocracia
Aos filhos dos outros burocracia 

Aos meus filhos herança
Aos filhos dos outros cobrança

Aos meus filhos comoção e justiça paternal
Aos filhos dos "outros" redução da maioridade penal

Mauricio Rufino

Esqueletos de Zinco


E agora, pai?
E agora que a memória é água velha de açude,
E todos os peixes expõem seus esqueletos de zinco?
E agora, pai?
As conchas renegaram as pérolas
Antes de parirem a circunferência de sua luz.
Olha, pai!
Teu reflexo é silhueta sobre estas folhas secas
Que bóiam nas horas órfãs de correnteza.
Prepara-me tuas palavras
Na escravidão dessas águas
E como uma oferenda deposita-me aos pés.
Talvez santos e orixás
Possam segurar-nos as mãos.
Perdoando-nos do silêncio
Que teu abraço sacrificado
Jamais esmagou.

Karina Buhr - "Eu sou um monstro"

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Aproveite a vida

CANÇÃO DO VER, poema de Manoel de Barros

manoel

Por viver muitos anos
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar as pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em um abelha, era só abrir a palavra abelha
e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.

Elza Soares - "Maria da Vila Matilde"