"Não tem porque interpretar um poema. O poema já é uma interpretação." (Mário Quintana)
Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
terça-feira, 16 de agosto de 2016
Amor? Amor é uma coisa que dói dentro do peito

“Amor?
Amor é uma coisa que dói dentro do peito. Dói devagarinho,
quentinho, confortável. É a mão que vem da cama vizinha, de noite,
e segura na sua, adormecida. E você prefere ficar com o braço
gelado e dormente a puxar a sua mão e cortar aquele contato. Tão
precioso ele é. Amor é ter medo - medo de quase tudo - da morte,
da doença, do desencontro, da fadiga, do costume, das novidades.
Amor pode ser uma rosa e pode ser um bife, um beijo, uma colher de
xarope. Mas o que o amor é, principalmente, são duas pessoas neste
mundo”.
Rachel de Queiroz
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
A esposa de Borges e a pequena Buenos Aires

Por João Peres
Buenos Aires é algo como São Paulo com alguns milhões de habitantes a
menos. OK, uma constatação um tanto quanto óbvia e extremamente reducionista em
relação às inúmeras diferenças. Mas o que importa é dizer que esses muitos
milhões a menos criam um “esvaziamento demográfico” que, além de melhorias à
qualidade de vida, gera situações que, para quem passou os últimos anos na
capital paulista, parecem passadas em pequenos povoados deste mundo.
Você está almoçando e, de repente, passa pela porta o cineasta Pablo
Trapero (Família Rodante e Leonera). Está tomando o chá da tarde e se depara
com Bielsa, não El Loco Bielsa, mas seu irmão, Rafael, ex-ministro de Relações
Exteriores.
Quando resolve ir ao Museu Jorge Luis Borges, vê na porta Gabriela
Michetti, espécie de ministra-chefe do governo da cidade de Buenos Aires. Como
não fosse suficiente, na sequência sai Maurício Macri, o chefe em si, com sua
“cara de nada”.
O mais interessante nessas últimas andanças, no entanto, ocorreu dois
minutos depois. Quando entro no museu, após superar o borbulho da saída
macrista, uma senhora de irretocável elegância, cabelos meio brancos e meio
pretos – não são grisalhos, não nos confundamos, passa a explicar-me a
visitação com uma incrível quantidade de detalhes.
Alguém a chama pelo nome – Maria – e, por um segundo, passa pela cabeça
que pode ser a esposa de Borges. Mas não, não poderia ser. Eu, leigo em Borges,
tudo o que sabia sobre sua esposa é que era uma pessoa muito mais jovem que
ele. Mas seria, achava eu, impossível que fosse tão mais jovem a ponto de
seguir ativa vinte anos depois da morte do escritor, com cara de senhora
recém-ingressada nas artes da 3ª idade. E mesmo que se mantivesse desta
maneira, não ficaria à porta do museu recebendo as pessoas.
Eis que alguém lhe chama e entrega um envelope: Maria Kodama. Sim, é
ela. Nisso já se haviam passado muitos minutos de conversa com a esposa de
Borges sem sabê-lo. Me senti um dos maiores idiotas da face da Terra. Estava
ali, na minha frente, e não sabia. Nos minutos que se seguiram, duas pessoas se
somaram à conversa e Maria passou a nos apresentar o museu – que, caso alguém
se interesse, fica na Calle Anchorena, Barrio Norte, paralela à Avenida
Puerreydon.
Contou que abriu tudo na raça, com dinheiro que Borges ganhou em um prêmio.
A casa abriga alguns escritos, muitas lembranças, milhares de livros. Em cada
um deles, o escritor fazia observações na contracapa. Em um deles, em letra
miúda, Borges anotou contradições que encontrou ao longo do enredo. “Depois
disso, nunca mais deixei anotações em livros. Você vê o quanto elas revelam da
personalidade das pessoas”, afirma, quase tietante, admirada com a inteligência
e a concentração de Borges.
Ainda há um apartamento abarrotado de coisas do autor, mas falta apoio
para expandir o museu. No entanto, a melhor guia turística sobre Borges está
segura que, no próximo ano, tudo vai sair do papel. Ela conta que a casa ao
lado é aonde o escritor viveu quando era criança. Maria tentou comprar o imóvel
mas, quando contou ao dono que ali havia vivido Borges, a transação se tornou
impossível.
− Você venderia? - pergunta
− De jeito nenhum – respondo
− Pois bem. Eu entendo – afirma Maria.
E dá por encerrada a visita.
Via Nota de Rodapé
domingo, 14 de agosto de 2016
Os meus filhos e os filhos dos outros

Aos meus filhos Danone
Aos filhos dos outros a fome
Aos filhos dos outros a fome
Aos meus filhos compaixão
Aos filhos dos outros o lixão
Aos meus filhos amor
Aos filhos dos outros a dor
Aos meus filhos a ceia
Aos filhos dos outros cadeia
Aos meus filhos beleza
Aos filhos dos outros pobreza
Aos meus filhos a sorte
Aos filhos dos outros a morte
Aos meus filhos faculdade
Aos filhos dos outros dificuldade
Aos meus filhos educação
Aos filhos dos outros execução
Aos meus filhos proteção
Aos filhos dos outros prostituição
Aos meus filhos meritocracia
Aos filhos dos outros burocracia
Aos meus filhos herança
Aos filhos dos outros cobrança
Aos meus filhos comoção e justiça paternal
Aos filhos dos "outros" redução da maioridade penal
Mauricio Rufino
Esqueletos de Zinco

E agora, pai?
E agora que a memória é água velha de açude,
E todos os peixes expõem seus esqueletos de zinco?
E agora, pai?
As conchas renegaram as pérolas
Antes de parirem a circunferência de sua luz.
Olha, pai!
Teu reflexo é silhueta sobre estas folhas secas
Que bóiam nas horas órfãs de correnteza.
Prepara-me tuas palavras
Na escravidão dessas águas
E como uma oferenda deposita-me aos pés.
Talvez santos e orixás
Possam segurar-nos as mãos.
Perdoando-nos do silêncio
Que teu abraço sacrificado
Jamais esmagou.
E agora que a memória é água velha de açude,
E todos os peixes expõem seus esqueletos de zinco?
E agora, pai?
As conchas renegaram as pérolas
Antes de parirem a circunferência de sua luz.
Olha, pai!
Teu reflexo é silhueta sobre estas folhas secas
Que bóiam nas horas órfãs de correnteza.
Prepara-me tuas palavras
Na escravidão dessas águas
E como uma oferenda deposita-me aos pés.
Talvez santos e orixás
Possam segurar-nos as mãos.
Perdoando-nos do silêncio
Que teu abraço sacrificado
Jamais esmagou.
sábado, 13 de agosto de 2016
e ela era essa coisa, poema de Ana Farrah Baunilha
e ela era essa
coisa
meio exagerada
um carisma de ímã
de geladeira
cândida
a beleza das mariposas
(tão ordinária quanto)
eu quis morder-lhe de com força
o lóbulo da orelha
mas ela ia longe
e eu a perdi de vista
meio exagerada
um carisma de ímã
de geladeira
cândida
a beleza das mariposas
(tão ordinária quanto)
eu quis morder-lhe de com força
o lóbulo da orelha
mas ela ia longe
e eu a perdi de vista
sexta-feira, 12 de agosto de 2016
CANÇÃO DO VER, poema de Manoel de Barros

Por
viver muitos anos
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar as pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em um abelha, era só abrir a palavra abelha
e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar as pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em um abelha, era só abrir a palavra abelha
e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua.
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
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