Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sábado, 19 de setembro de 2015

O ANÚNCIO




Vi o anúncio. Foi uma grande tentação. Tremi. Olhei para trás. Minha esposa estava na sala. Novela com certeza. Certeza? Meu casamento já durava mais de dez anos. Somos mais amigos que amantes. Ou melhor, amigos, apenas. Mais cúmplices que marido e mulher. O encanto foi-se sem que percebêssemos. Minha barriga cresceu. A bunda dela murchou. Não há tesão que resista ao tempo. A rotina.

Todos os anúncios são tentadores. O consumo vicia. Como o açúcar. A internet. A televisão. Que o digam os seus templos. Sempre lotados. Os shoppings. Que detesto! Meus vícios são livros. Bebidas. À noite, vinho. Na praia, sob o sol, cerveja. Pode ser ao contrário, também. Mas as mulheres têm o seu espaço em minha vida. Ou tinham. Em minha imaginação. Em meus sonhos e fantasias. Obrigado, Deus, pelo viagra. Obrigado, pelo meu ateísmo.

O anúncio era tentador. Sigilo total. Como naquela música: “Sigilo total / sexo total / amante profissional.” O anúncio era melhor do que a música, com certeza. Como fui me lembrar desta porcaria. Ainda bem que hoje temos Anita. Gostosa! Vanessa popozuda. Gostosa! E não aquele gordinho sem camisa, cantado, "sexo total".

O casamento é a pior droga do mundo. Por que é liberado? E não a maconha? Acaba o amor. Destrói o sexo. Mas ficamos presos a ele. Não é fidelidade, sei. Mas, solidariedade. Será? Ou não? Só sei que nada sei, dizia o Zico. Concordo com ele. Por que não proíbem o casamento? E as cervejas da Ambev? Duas drogas!

Já paguei por sexo, não nego. Tive que tirar dinheiro da poupança. Estava juntando para algo grandioso. Ou uma emergência. Esse planos de saúde, só deus. Ou o Cunha? O que de grandioso já aconteceu na minha vida? Nada. Nem vai acontecer. Já estou beirando os sessenta. Por isso tirei o dinheiro da poupança. Era meu. Nem foi, assim, tão legal. Não foi O Gozo. Estava nervoso, feito adolescente. Um velho, babaca. Aposto que foi isto que pensou a garota. Ele sorria. Zombando, claro. Mas o gostoso não é só o sexo. Este pensamento me trazia certo conforto. Eu não era tão ridículo, então. A prenda maior: a conquista, fica sem sabor. O anúncio prometia isto: conquiste. Conquiste uma amante. Tenha uma aventura. “A vida é curta. Curta um caso!”

Eu precisava de um caso. Havia ainda dinheiro na conta de poupança. Alguém que me fizesse sonhar. Suar. Tremer. Esperar, ansiosamente por um encontro. Minha vidinha de funcionário público é um fardo. Passo mais tempo na internet do que tomando cafezinho. Cansa representar um servidor exemplar. Um pai exemplar. Um marido exemplar. Um cidadão de bem. Seja lá o que isto signifique. Mas, sempre leio na Veja. Eu estava prestar a explodir. Lembrei-me de Visioneers. Quem me dera, de fato, explodir. Jogar tudo pelos ares. Vida medíocre. Ainda bem que existe o viagra.

O anúncio seria minha salvação? Deus, onde estás que não respondes?. Lembrei-me, deus não fala com os ateus. Ainda bem que existe a internet. E o viagra. E um dinheirinho na conta de poupança. Da Caixa, vem!



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Rabiscos produzidos após a leitura do artigo Bordel Virtual, de Frei Betto.

Ilhas Seicheles

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Fonte: Google

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Poema

SERPENTEADO, poema de Itárcio Ferreira



No céu da tua boca existem estrelas 

que, apenas minha língua de serpente alada, 

pode alcançar.



Itárcio Ferreira

OS LIMÕES, poema de Eugênio Montale


Escuta-me, os poetas laureados 
circulam apenas entre plantas 
de nomes pouco usados: buxeiros alienas ou acantos.
Eu, por mim, prefiro os caminhos que levam às valas 
cheias de mato onde em lamaçais
já meio secos meninos apanham 
alguma esquálida enguia:
as trilhas que bordejam os taludes descem por entre os tufos de caniços
e se metem nas hortas, entre os pés de limão.

Tanto melhor se a algazarra dos pássaros 
se dissipa engolida pelo azul: 
mais claro se escuta o sussurro 
dos galhos amigos no ar que mal se move, 
e as sensações deste cheiro
que não se larga da terra
e faz chover no peito uma doçura inquieta. 
Aqui se cala por milagre
a guerra das desencontradas paixões, 
aqui até a nós, os pobres, toca uma parcela de riqueza 
e é o cheiro dos limões.

Vê, neste silêncio no qual as coisas
se entregam e parecem prestes
a trair o seu último segredo,
às vezes esperamos
descobrir um defeito da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não prende,
o fio a desenredar que enfim nos leve
ao centro de uma verdade. 
O olhar perscruta em volta, 
a mente indaga concerta desune 
em meio ao perfume que se espalha 
enquanto o dia enlanguesce. 
São os silêncios em que se vê 
em cada sombra humana que se afasta 
alguma Divindade surpreendida.

Mas a ilusão se desfaz e o tempo nos devolve 
à cidade ruidosa onde o azul mostra-se 
apenas por retalhos, no alto, entre as cimalhas. 
Castiga a chuva a terra, então; se espessa 
o tédio do inverno sobre as casas, 
a luz torna-se avara — a alma, amarga. 
Quando um dia de um portão malfechado 
entre as árvores de um pátio
nos surge o amarelo dos limões; 
e no coração o gelo se dissolve, 
e no peito estalam 
suas canções
as trombetas de ouro da solaridade.

Eugênio Montale*


Tradução de Geraldo H. Cavalcanti

*Poeta, jornalista e tradutor italiano recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 1975.

Paradas de Ônibus Soviéticas

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