Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

segunda-feira, 21 de maio de 2018

OROPA, FRANÇA E BAHIA, poema de Ascenso Ferreira



    (Romance)
      
                    
    Para os 3 Manuéis:
                       
    Manuel Bandeira
                       
    Manuel de Sousa Barros
                       
    Manuel Gomes Maranhão
      
    Num sobrado arruinado,
    tristonho, mal assombrado,
    que dava pros fundos da terra.
    ("Pra ver marujos,
    Tirulilluliu!
    quando vão pra guerra...")
    E dava fundos pro mar.
    ("Pra ver marujos,
    Tiruliluliu!
    ao desembarcar").
     
              ...Morava Manuel Furtado
              português apatacado,
              com Maria de Alencar!
     
    Maria era uma cafuza,
    cheia de grandes feitiços.
    Ah! os seus braços roliços!
    Ah! os seus peitos maciços!
    Faziam Manuel babar...
     
             A vida de Manuel,
             que louco alguém o dizia,
             era vigiar das janelas
             toda a noite e todo o dia,
             as naus que ao longe passavam,
             de "Oropa, França e Bahia"!
     
    — Me dá uma nau daquelas,
    lhe suplicava Maria.
    — Estás idiota, Maria.
    Essas naus foram vintena
    que eu herdei de minha tia!
    por todo o ouro do mundo
    eu jamais as trocaria!
     
              Dou-te tudo o que quiseres:
              Dou-te xale de Tonquim!
              Dou-te uma saia bordada!
              Dou-te leques de marfim!
              Queijos da Serra da Estrela,
              perfumes de benjoim...
     
    Nada.
    A mulata só queria
    que Seu Manuel lhe desse
    uma nauzinha daquelas,
    inda a amais pichititinha,
    pra ela ir ver essas terras
    de "Oropa, França e Bahia"...
     
               — Ó Maria, hoje nós temos
              vinhos da Quinta do Aguirre,
              umas queijadas de Sintra,
              só pra tu te distraíre
              desse pensamento ruim...
              — Seu Manuel, isso é besteira!
              Eu prefiro macaxeira
              com galinha de oxinxim!
     
    "Ó lua que alumiais
    esse mundo do meu Deus
    alumia a mim também
    que ando fora dos meus..."
    Cantava Seu Manuel
    espantando os males seus.
     
                 "Eu sou mulata dengosa,
                 linda, faceira, mimosa,
                 qual outras brancas não são"...
                 Cantava forte Maria,
                 pisando fubá de milho,
                 lentamente no pilão...
     
    Uma noite de luar
    que estava mesmo taful,
    mais de 400 naus,
    surgiram vindas do Sul...
    — Ah, Seu Manuel, isto chega...
    Danou-se de escada abaixo,
    se atirou no mar azul.
     
                — "Onde vais mulhé?"
                — "Vou me daná no carrossé!
                — "Tu não vais, mulhé,
                mulhé, você não vai lá..."
     
    Maria atirou-se n'água,
    Seu Manuel seguiu atrás...
    — Quero a mais pichititinha!
    — Raios te partam, Maria!
    Essas naus são meus tesouros,
    ganhou-as matando mouros
    o marido de minha tia!
    Vêm dos confins do mundo...
    De "Oropa, França e Bahia"!
     
                 Nadavam de mar em fora...
                 (Manuel atrás de Maria!)
                 Passou-se uma hora, outra hora,
                 e as naus nenhum atingia...
                 Fez-se um silêncio nas águas,
                 cadê Manuel e Maria?!
     
    De madrugada, na praia,
    dois corpos o mar lambia...
    Seu Manuel era um "Boi Morto",
    Maria, uma "Cotovia"!
     
               E as naus de Manuel Furtado,
               herança de sua tia?
     
    — Continuam mar em fora,
    navegando noite e dia...
    Caminham para "Pasárgada",
    para o reino da Poesia!
    Herdou-as Manuel Bandeira,
    que ante a minha choradeira,
    me deu a menor que havia!
     
              — As eternas Naus do Sonho,
              de "Oropa, França e Bahia"...
      
    Ascenso Ferreira 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

quarta-feira, 9 de maio de 2018

LONDON REVISITED, poema de Inaldo Cavalcanti


Os espelhos nunca morrem:
Conspiram contra o silêncio.
 
Aturde a flor o vento rude.
Sangra nas raízes o mundo.
 
Perversa a minha dor:
De mim vive, e não me faz feliz

Inaldo Cavalcanti

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Saudade, poema de Da Costa e Silva



Saudade - olhar de minha mãe rezando 
e o pranto lento deslizando em fio.
Saudade amor da minha terra... o rio
cantiga de águas claras soluçando.

Noites de junho. O caboré com frio
ao luar sobre o arvoredo piando, piando
e a noite as folhas lívidas cantando
a saudade infeliz de um sol de estio.

Saudade - asa de dor do pensamento!
gemidos vãos de canaviais ao vento...
Ai, mortalhas de neve sobre a serra.

Saudade - o Parnaíba - velho monge
as barbas brancas alongando e ao longe
o mugido dos bois da minha terra.

Da Costa e Silva

sábado, 21 de abril de 2018

Tiradentes revisitado


Eu vou morrer, poema de Carlos Maia



Eu vou morrer
É o fim.
Já estou vomitando
O meu fígado
A morte tão esperada
Aparece como uma convidada
Que veio antes da hora
Sinto medo ao saber
Que tenho que atravessar a porta
Tenho fobia do desconhecido
Mas mesmo com os pés sangrando
Como Gregório Bezerra,
Eu vou

segunda-feira, 16 de abril de 2018

quarta-feira, 4 de abril de 2018

HOMENS, poema de Maya Angelou


Quando eu era nova, tinha por hábito 
Observar por trás das cortinas
Homens que subiam e desciam a rua. Os homens da manguaça, os homens de idade.
Homens moços afiados feito mostarda.
Veja. Os homens estão sempre
Indo a algum lugar.
Sabiam que eu estava lá. Quinze
Anos e faminta por eles.
Sob minha janela, eles paravam,
Os ombros altos como os
Peitos de uma moça,
A cauda dos casacos batendo
Naqueles traseiros,
Homens.

Um dia eles te seguram nas
Palmas das mãos, gentis, como se você
Fosse o último ovo cru do mundo. Então
Te apertam. Só um pouco. O primeiro
Aperto é bom. Um abraço rápido.
Suave na sua fraqueza. Um pouco
Mais. A dor começa. Arranca um
Sorriso que contorna o medo. Quando o
Ar desaparece,
A mente estoura, explodindo com violência, breve,
Como a cabeça de um fósforo. Estilhaçada.
É o seu sumo
Que escorre pelas pernas deles. Mancha os sapatos.
Quando a terra se põe outra vez no lugar,
E o gosto tenta voltar à língua,
Seu corpo já se fechou. Para sempre.
Chave nenhuma existe.

Então a janela se cerra toda sobre
Sua mente. Lá, além
Do balanço das cortinas, os homens caminham.
Sabendo algo.
Indo a algum lugar.
Mas desta vez eu vou só
Ficar aqui e observar.

Talvez. 

Maya Angelou

Tradução de Adriano Scandolara

Maria Bethânia - "Mel"

terça-feira, 3 de abril de 2018

BOMBONS SORTIDOS

Plínio Camillo


... e se a vida também fosse um chocolate?
Teria múltiplos gostos, com as circunstâncias da existência que as vezes se apresentam amargas, doces ou crocantes.

Esta coleção apresenta dez livros, dez volumes, com cinco contos cada. Em formato de barras de chocolate, as obras trazem uma leitura para descascar a alma humana. Tão deliciosamente gostosa como o cacau de cada chocolate desta.

As verdades, encantamentos e desilusões da vida são desveladas de maneira pura ou recheadas de misturas como castanhas, mel e pimenta.

Data: 07.04.2018 - Sábado
Horário: 16 às 20hs
Local: Espaço Kazuá- Rua Ana Cintra, 26 – Santa Cecília – São Paulo – Capital
Custo
Coleção com 10 volumes: R$200,00 (duzentos reais)
Cada Volume: R$25,00 (vinte e cinco reais) 


Contatos:

Plínio Camillo - E-mails: pcamillo60@uol.com.br / contos.oficina@uol.com.br - Telefone: 11 996279640

Editora Kazuá - E-mail: contato@ediotrakazua.com.br - Telefone: 11 33372899

sexta-feira, 30 de março de 2018

quarta-feira, 28 de março de 2018

NATHÁLIA, O POEMA, poesia de Itárcio Ferreira


Quando penso em você
Todo o meu corpo,
Todo o meu ser,
É só sorrisos e felicidades.

As vezes me questiono
Como sobrevivi tantos anos
Sem te ter, te tocar, te morder?
E nunca chego a responder-me.

Juntos somos apenas um,
- um coração, um olhar, um gozo.
Separados metades de um imã
Que, movimento contrário, se atraem.

Abraçados pensamos que nossos corpos,
Templos de desejos e de amor,
Fundem-se numa única escultura
De intensos sobressaltos e orgasmos.

Por fim, nosso único medo,
Nossos mais intensos pesadelos,
É perdemos-nos, no mar da vida, sem bússola
Deixarmo-nos de ser um inteiro.

terça-feira, 27 de março de 2018

Como escrever melhor em 22 livros


Uma lista de livros para ajudar na sua jornada para ser um escritor dos bons



Não tem jeito. Escrita é suor. Quanto mais você escrever, melhor.
É importante ler também, claro. Analisar, entender o que cada autor utiliza como recurso para expor suas ideias ou construir uma narrativa.
Mas, para além desse trabalho de tatear às escuras e ganhar experiência, também é essencial ter um direcionamento, saber exatamente pra onde você está indo, colher informação sobre o que funciona e o que não funciona.
Essa é uma coletânea de bons livros de técnica pra quem quer entender melhor essa arte.
Foquei ao máximo em livros em português, mas não pensei antes de adicionar também algumas boas opções em inglês. :)
Postagem completa AQUI

Baby do Brasil e Elza Soares - "Brasileirinho"

segunda-feira, 26 de março de 2018

Tarefa, poema de Geir Campos



Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

Geir Campos

quinta-feira, 22 de março de 2018

A militância poética de Geir Campos

Geir Campos

Exemplo raro de poeta que uniu o rigor estético e literário com a luta social e política, o capixaba Geir Campos – que foi um dos editores do Violão de Rua do CPC da UNE em 1962 – é um desses autores que precisam ser redescobertos e difundidos.

Por José Carlos Ruy


O poeta comunista Geir Campos é um desses raros que conseguem unir o esmero artístico e literário com a expressão de um agudo conteúdo artístico de fundo político e social. Ele viveu entre 1924 e 1999, foi poeta, editor, livreiro, tradutor, professor e militante comunista. Faz parte daquela geração de escritores, poetas principalmente, da chamada geração de 1945, cuja obra floresceu no período da limitada democracia da Constituição de 1946 e que, no futuro, ficou injustamente à sombra de outra corrente que também se firmou naquele período mas que, dada sua ênfase nos aspectos formais do fazer artístico, foi colocada pela propaganda no primeiro plano, o chamado concretismo.

Do ponto de vista formal, tanto a obra de Geir Campos como a de outros que, como ele, colocaram sua arte a serviço da luta democrática e social, não ficam nada a dever aos concretistas. O que os diferencia é uma militância política mais nítida e daí, certamente, o pouco apreço com que, nas últimas décadas, são tratados pela mídia.

Em 2010 comemorou-se os 60 anos de sua estreia em livro: sua primeira coletânea de poemas, Rosa dos Rumos, foli lançada em 1950; este ano, comemora-se também os 60 anos da criação por Geir Campos, juntamente com o poeta Thiago de Melo, da editora Hipocampo, um empreendimento artesanal e revolucionário para a produção, pelos próprios autores, dos livros que escreviam. Em dois anos lançou vinte livros cujos projetos gráficos e editoriais, além evidentemente de seu conteúdo, os transformou hoje em raridades bibliográficas cobiçadíssimas pelos colecionadores. Os livros eram feitos na casa dos criadores da editora, numa impressora manual; suas capas eram dobradas na forma de envelopes onde eram colocadas as folhas avulsas, em edições que tinham em média uma tiragem de 120 exemplares, que eram vendidos antecipadamente, na forma de assinaturas.

Em 1962, Geir Campos foi um dos organizadores, juntamente com outro poeta, Moacyr Félix, dos Cadernos do Povo Brasileiro, Violão de Rua, publicados pelo Centro Popular de Cultura (CPC) da Une juntamente com a editora Civilização Brasileira. Geir Campos, como diz o professor Aníbal Bragança (Universidade Federal Fluminense), “não foi apenas um artesão da palavra e um operário do canto. Esteve em todas as frentes de ação pelo fortalecimento do livro, como editor, como bibliotecário, como tradutor, como líder da categoria, como professor e como autor. Autor, diga-se, de uma obra sólida e múltipla, rica e diversificada, que marcou a literatura brasileira da segunda metade deste século".


Alguns títulos

Antologia poética. Rio de Janeiro, Léo Christiano Editorial, 2003 (contém praticamente toda a obra poética de Geir Campos)

A Profissão do Poeta & Carta aos Livreiros do Brasil. Rio de Janeiro, Imprensa Oficial, 2002 (organizado por Aníbal Bragança e Maria Lizete dos Santos)

Tarefa. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; São Paulo, Massao Ohno Editora. 1981 (antologia) 

Um poema:

Poética
Eu quisera ser claro de tal forma
que ao dizer:
              - rosa!
todos soubessem o que haviam de pensar…

Mais: quisera ser claro de tal forma
que ao dizer: 
              - já!
todos soubessem o que haveriam de fazer.
(1957)

Liberem as drogas!


sexta-feira, 16 de março de 2018

Agave, poema de Primo Levi



Não sou útil nem belo,
Não tenho cores alegres nem perfumes;
As minhas raízes roem o cimento
E as minhas folhas, marginadas por espinhos,
Protegem-me, afiadas como espadas.
Sou mudo. Só falo a minha linguagem de planta,
Difícil de entender por ti, homem.
É uma linguagem insólita,
Exótica, já que venho de muito longe,
De um país cruel,
Cheio de vento, venenos e vulcões.
Esperei muitos anos antes de expressar
Esta minha flor altíssima e desesperada,
Feia, fibrosa, rígida, mas estendida para o céu.
É a nossa maneira de gritar que
Morrerei amanhã. Compreendes-me agora?

Primo Levi 

Um mar de sangue


terça-feira, 13 de março de 2018

O fuzilamento de Federico Garcia Lorca



A fotografia do suposto fuzilamento de Federico Garcia Lorca é de uma improbabilidade histórica evidente.

Circula amplamente na Internet uma fotografia que seria do poeta e dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca (1898-1936) sendo fuzilado. Tudo indica que a fotografia é “fake” por diversos motivos. Em primeiro lugar, estudos comprovam que Garcia Lorca foi baleado e morto de madrugada por franquistas numa estrada que liga as cidades espanholas de Víznar e Alfacar, e teve seu corpo enterrado numa cova rasa nas proximidades. Em segundo lugar o tipo físico do personagem que aparece na foto não corresponde nem um pouco com o de Lorca. A foto mais parece posada, quase cinematográfica. Na Internet todo cuidado é pouco para que não sejamos propagadores de falsas notícias ou imagens. 

Update: A minha querida amiga Rosa Freire d'Aguiar matou a charada. A imagem provém de um clipe de uma banda chamada Boikot. Muito obrigado Rosa, te devo essa, confiram: https://youtu.be/vgRn9EV15Wc

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

PECADOS, poema de Itárcio Ferreira


Perdi o meu cabaço
com a minha mão direita,
viajando numa estória
do Carlos Zéfiro.

Minha avó descobriu meu catecismo
e o jogou fora,
obrigou-me a confessar-me
com um padre
que, graças a deus, – ou ao diabo – não era pedófilo.

Confessei, por vergonha, que havia cometido
o pecado da gula,
receitou-me tantas ave-marias
e outros tantos padres-nossos.

Imaginou-me, o cura, a entupir-me
de doces e guloseimas,
quando na verdade era de bronha.


Itárcio Ferreira
(1979)

Brenda Lee, Elvis Presley & Willie Nelson -- "Always On My Mind"