Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

segunda-feira, 11 de abril de 2016

GRAVANDO MINHA DOR NUMA ÁGUA FORTE, poema de Jaci Bezerra



Estendeu no horizonte a cor madura
da sombra que buscou, o tempo antigo,
as paisagens do mar, a lenda impura,
cada vez mais achado e mais perdido
depois, exausto e só, foi à procura
do quadro iniciado e dissolvido
do cata-vento azul, da rosa escura,
do pranto, da mulher e do gemido
chegou largando as mãos na longa estrada
e abrasado de amor ficou na rua
buscando, em vão, a luz da madrugada
só então foi ternura e foi abraço
a paisagem deixou vazia e nua
para que tantas cores neste espaço?



Cássia Eller - "Gatas extraordinárias"

Mulheres Vírais (episódio 1)

domingo, 10 de abril de 2016

Para refletir (6)

Eliane Brum

“Uma democracia demanda cidadãos autônomos, adultos emancipados, capazes de se responsabilizar pelas suas escolhas e se mover pela razão. O que se vê hoje é uma vontade de destruição que atravessa a sociedade e assinala mesmo pequenos atos do cotidiano. O linchamento, que marca a história do país e a perpassa, é um ato de fé. Não passa pela lei nem pela razão. Ao contrário, elimina-as, ao substituí-las pelo ódio. É o ódio que justifica a destruição daquele que naquele momento encarna o mal. Isso está sendo exercido no Brasil atual não apenas na guerra das redes sociais, mas de formas bem mais sofisticadas. Isso tem sido estimulado. Quem acha que controla linchadores, não sabe nada.”

(Eliane Brum, jornalista e escritora brasileira)

Se me perguntarem como estou, poema de Caio Fernando Abreu

Caio Fernando Abreu

Se me perguntarem como estou, eis a resposta:
Estou indo. Sem muita bagagem.
Pesos desnecessários causam sempre dores
desnecessárias. Esvaziei a mala,
olhei no fundo dela, limpei, e estou indo...
preenchê-la com coisas novas.
Sensações novas, situações novas,
pessoas novas.
Tudo novo.

Universos paralelos (humor)


















sábado, 9 de abril de 2016

ALFABETIZAÇÃO, poema de Itárcio Ferreira

 

Há momentos em que a razão,
nossa tão sensata amiga,
cede ao desespero, embriagada, talvez.

Há momentos em que a dor,
tão necessária para distinguirmos o prazer,
torna-se insuportável, louca, talvez.

Há momentos em que a humildade,
fiel e necessária companheira do orgulho,
desce à servilidade, cega, talvez.

Nesses momentos, é necessário
que o homem pare,
leia um bom livro,
leve uma criança aos braços,
ame uma mulher de textura leve
ou se desespere eternamente.

Em tempos de Rede Globo


sexta-feira, 8 de abril de 2016

IDENTIDADE, poema de Aldo Lins


Aliado do céu por ser azul
Tento caminhar sóbrio
Mesmo sentindo o chacal
Nos meus sensíveis calcanhares.
Tenho cinquenta sonhos publicados
Outros tantos arquivados
Sou um cavaleiro de aquário
Pertenço a uma estrela imaginária.
Entretanto, as minhas asas rastreadas
Não alcançaram o cume das montanhas
O cheiro da dor cinza pela estrada
Revela a tristeza de minha alma.
Mas sobre tudo ou sobre nada
Há uma calçada onde passeia o rouxinol
E uma varanda abandonada
Onde moro eu e o sabiá.

Cisne Negro (2010)

quinta-feira, 7 de abril de 2016

RIP Gato Barbieri

Os Poemas, poesia de Mario Quintana


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…



Glass (1958)

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Para refletir (5)

Caio Fernando Abreu


"Só que homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade - voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe. Mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade."

(Caiu Fernando Abreu, jornalista e escritor brasileiro)

Corrida de obstáculo - LGBT



Ser apontado na rua, olhado com curiosidade e até com nojo - sei o que é isto, em parte, pois sou deficiente físico - é uma constante na vida daquelas pessoas que não se enquadram na definição social de pessoas "normais". Este vídeo trata do assunto através do preconceito e ódio contra as pessoas LGBT.

Gifs






terça-feira, 5 de abril de 2016

A MALA, poema de Ângelo Monteiro

 
Atirei a mala sobre o mar
E o mar sobre a mala
E o mar sobre a mala
Se debateu.

Mas porque atirei a mala
Volúvel razão me cala
Pois nem sei como fui eu.

Negra e súbita maré
Depois se abre aos meus pés
E eu vago atrás dessa mala
Como de algo íntimo e meu.

Até hoje procuro a mala
E o mar não ma devolveu.

The Beatles - "Free As A Bird"

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Para refletir (4)


Sigmund Freud

“Há incontáveis pessoas civilizadas que se recusam a cometer assassinato ou a praticar incesto, mas que não se negam a satisfazer sua avareza, seus impulsos agressivos ou seus desejos sexuais, e que não hesitam em prejudicar outras pessoas por meio da mentira, da fraude e da calúnia, desde que possam permanecer impunes.”

(Sigmund Freud, neurologista e psicanalista austríaco)

EPISÓDIO 08 - CAÇADA FOLCLÓRICA - BICHO TUTU

domingo, 3 de abril de 2016

Mais uma da série "Diálogos acadêmicos", por Tom Cardoso

Tom Cardoso

- Cara, tem um amigo meu que trabalha na Polícia Federal.
- É o japonês?
- Não, é o Nando. Ele tava no dia em que prenderam o Lula.
- Foi lá no apê dele?
- Sim.
- E aí, muito luxo?
- Até que não. Se bem que o terraço gourmet é show. Top.
- Eles revistaram o apartamento?
- Então, é isso que eu quero contar. Mas não pode sair daqui, ok?
- Tá bom.
- Eles revistaram o apê do Brahma todinho. Acharam um cofre camuflado no closet da Dona Marisa.
- Sério. Mandaram abrir?
- Lógico.
- E o que tinha lá?
- Véio, você não vai acreditar.
- Fala!
- O dedo do Lula.
- Como assim?
- O dedo que ele cortou na fábrica de propósito para ganhar aposentadoria.
- Sério?
- Sim. Tava num formol. 
- Mas por que ele guarda o dedo?
- Ah, sei lá. Esse meu amigo disse que o Brahma pretende reimplantá-lo um dia.
- E como a imprensa não ficou sabendo dessa história?
- Aí que está. Parece que o Brahma pagou 3 milhões de dólares para o diretor da PF. O Nando recebeu o dele também. Não é pra sair por aí contando hein.
- Não, pode deixar. Quer dizer que o dedo tava num vidro com formol?
- É. Surreal, né.
- Que nojo.

sábado, 2 de abril de 2016

E isso foi ideia de quem?


O poeta Carlos Maia de mãos dadas com Drummond


MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. 

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer,
a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins. 

O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes, a vida presente.


Nestes tempos de culto ao ego (facebook e instagram), de materialismo a toda prova, parece que palavras como solidariedade, compaixão, empatia, afeto e perdão perderam o sentido, ou não fazem parte da grande maioria dos habitantes do planeta Terra.

Vivemos num mundo árido. Carente de tudo que se chama vida. O homem não tem mais tempo para o amigo. Eu cheguei a ver num restaurante numa mesa com 6 pessoas todas teclando no whatsapp.

Eu tinha um amigo na adolescência, era o meu melhor amigo. Não me esqueço nunca uma noite perto ano novo de 79/80, nós estávamos sentados em folhas de coqueiros contemplando as estrelas em Calhetas, e começamos a falar do infinito que estava ali, bem pertinho da gente. Do sentido da vida, de nos despojarmos de tudo e seguir uma vida mais plena, mais em contato com a natureza.

Esse meu amigo era poeta. Anos mais tarde ele me disse que tinha matado o poeta que existia dentro dele. Acho que foi a pior coisa que ele fez na vida. Hoje ele não atende mais os meus telefonemas. E recentemente eu matei esse amigo dentro de mim.

Acho que temos que ter dignidade. A amizade é uma via de mão dupla. Insisti durante muito tempo nessa amizade, mas ela só existia da minha parte.

Acho interessante a mudança que ocorre em nós ao longo da vida e não percebemos. Pude sentir isso com o filme "Coração de Cristal", de Herzog, que quando o vi pela primeira vez aos 19 anos era fantástico. Quando o revi com 47, procurei aquele encanto todo e não achei. O filme era o mesmo, eu é que havia mudado.

Como dizia Heráclito: "Não é possível banhar-se no mesmo rio duas vezes. Afinal, as águas que correm no leito do rio nunca são as mesmas, nem nós somos os mesmos."

Hoje quase ninguém tem mais saco pra ler um texto longo. Eu entrei no Twitter por insistência de um amigo meu, mas nem abro. Sai do face já tem alguns meses, não suportei a egolatria dominante. Faço questão de não ter whatsapp.

Ainda me encanto com as belezas da natureza, e isso me dá um certo consolo, pois mostra que a sensibilidade ainda é uma coisa muito importante dentro de mim. Me encanto com pequenas coisas, como os olhos de um bebê, o sorriso de uma criança. Um ipê todo florido. O canto do sabiá. O sol nascendo no mar. A lua que não para de me inspirar. Essa cidade que eu amo tanto.

Dentre todas as coisas que eu me encanto a maior de todas é sentir a presença do Criador, ah isso é melhor do que a própria vida!

Amigos vem, amigos vão. É necessário aceitar as mudanças. Não podemos viver do passado.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

POEMA PARA TUA BOCA, poesia de Itárcio Ferreira



"A fome de um dia poder
morder a carne desta mulher."
(Milton Nascimento e Fernando Brant)

Fruta madura,
prestes a cair da árvore
que o galho já quase não retém.

Pronta para ser devorada,
com os dentes ser mordida
de leve,
para não machucá-la.

Com a língua e lábios ser
provada,
tocada,
roçada,
saboreada com o paladar,
e a alma
agradecida por tua existência.

Açucarada boca,
tentação do homem
que se vê menino
a cobiçar os frutos
da árvore alheia.

"Cravo e canela" - Fiorella Mannoia e Bituca