"Não tem porque interpretar um poema. O poema já é uma interpretação." (Mário Quintana)
Aos Mestres, com carinho!

Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
QUERO DANÇAR!, poema de Itárcio Ferreira
Quero dançar!
É insuportável manter este meu corpo parado,
Por mais um minuto que seja.
Arde em mim uma chama desconhecida,
Uma alegria incalculável,
Uma fortuna, um desejo, um gosto, um mimo,
Tudo junto numa festa.
Quero dançar!
Nem mais um segundo de tristeza.
Posso parecer um louco, um bêbado, um desvairado,
Mas meu corpo clama pela liberdade,
Por um bailado, um frevo, um samba,
Por um simples toque ou batuque que seja.
Quero dançar!
Despir o meu corpo de qualquer pudor,
De qualquer regra,
Libertá-lo das amarras do medo,
Da sedentariedade, da poliomielite, da vergonha.
Incrivelmente livre, busco imitar movimentos,
Respirar, transigir, alcançar o inalcançável...
A vida... A morte!
Visitem o blog do poeta: Itárcio Ferreira, poemas
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
Elegia Nº 1, poema de Mauro Mota
Vejo-te
morta. As brancas mãos pendentes.
Delas agora, sem querer, libertas
a alma dos gestos e, dos lábios quentes
ainda, as frases pensadas só em certas
tardes perdidas. Sob as entreabertas
pálpebras, sinto, em teu olhar presentes,
mundos de imagens que, às regiões desertas
da morte, levarás, que a morte sentes
fria diante de todos os apelos.
Vejo-te morta. Viva, a cabeleira,
teus cabelos voando! ah! teus cabelos!
Gesto de desespero e despedida,
para ficares de qualquer maneira
pelos fios castanhos presa à vida.
Delas agora, sem querer, libertas
a alma dos gestos e, dos lábios quentes
ainda, as frases pensadas só em certas
tardes perdidas. Sob as entreabertas
pálpebras, sinto, em teu olhar presentes,
mundos de imagens que, às regiões desertas
da morte, levarás, que a morte sentes
fria diante de todos os apelos.
Vejo-te morta. Viva, a cabeleira,
teus cabelos voando! ah! teus cabelos!
Gesto de desespero e despedida,
para ficares de qualquer maneira
pelos fios castanhos presa à vida.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2017
Steve do meu coração
Por Elaine Tavares
Ele
me chegou sem eu nem querer. Vinha da rádio, num cálido dia de
abril, por esses caminhos de areia que o Campeche ainda tem. Então o
vi, no portão de uma casa. Chorava um chorinho miúdo, olhando pra
dentro do pátio, agoniado. Era um pedacinho minúsculo de vida, todo
pretinho. Estaquei diante da cena. Era de doer. Fiquei parada em
frente à casa, esperando que alguém saísse para pegar o pequenino.
Nada. Uma mulher finalmente assomou na janela. “Tá querendo
entrar”, falei, penalizada. Ela redarguiu, seca: “Não é nosso”,
e fechou a janela.
O
bichinho seguiu com seu chorinho e fui andando com o coração aos
pedaços. Entrei num caminho e continuei a ouvir o choro. Olhei pra
trás e lá estava ele, agora olhando na minha direção. A súplica
era para mim. Olhei para um lado e para outro. Ninguém. “Foda-se,
vou pegar”. Voltei às pressas e peguei a bolinha preta.
Aconcheguei ao coração, bem apertado. Ele cessou o choro e se
apertou de encontro a mim. Vim pelos caminhos conversando e fazendo
carinho. Pensava nos gatos em casa, o que achariam?
Quando
cheguei e o tirei do colo a blusa estava tomada de carrapatos. Ele
mesmo estava cheio dos bichinhos. Provavelmente fora abandonado há
um ou dois dias, era muito bebê. Então, lá fui eu comprar remédio
e comidinha de cachorro. Como já tinha um gato preto de nome Zumbi,
o batizei com o nome do grande lutador sul-africano, Steve Biko. Por
conta dos carrapatos ele ficou com uma sequela, uma tremurinha na
perna. Mas, o demais, tudo bem. Tem sido uma adorável companhia
desde então. Nove anos. Adquiriu inúmeros modos dos gatos,
família que o acolheu. Dorme em cima da mesa, com a cabeça
pendente, igual aos irmãos felinos. E escala o muro tal e qual.
Hoje
cheguei do mercado e ele estava ali, na rua, como sempre. Fica
olhando, bem paradinho, até que me reconhece, então vem pulando,
balançando o rabinho. Tem nove anos, mas é um galgo. Pula o muro
quantas vezes bem quer, adora a rua. Agora, que ela está calçada,
virou uma perigosa armadinha. Mas, como prendê-lo? Impossível. O
coração fica apertado quando ele alça o pulo e se vai. Faz um
salseiro na rua, acendendo toda a cachorrada, e passa pra lá e pra
cá no portão, olhando pra dentro de casa, como a dizer: ó, to
aqui.
Depois,
pula o muro de volta e vem esfregar a bundinha na gente, olhando com
aqueles mesmos olhos doces que tinha quando o encontrei no caminho.
Essas criaturinhas nos enchem de ternura.
OS POBRES, poema de William Carlos Williams
É
a anarquia da pobreza
que me encanta, a velha
casa amarela de madeira recortada
em meio às novas casas de tijolo
casa amarela de madeira recortada
em meio às novas casas de tijolo
Ou
uma sacada de ferro fundido
com gradis representando ramos
folhudos de carvalho. Isso tudo combina
com as roupas das crianças
com gradis representando ramos
folhudos de carvalho. Isso tudo combina
com as roupas das crianças
que
refletem cada período e
estilo da necessidade -
Chaminés, telhados, cercas de
madeira e metal numa época
estilo da necessidade -
Chaminés, telhados, cercas de
madeira e metal numa época
sem
cercas delimitando quase
coisa alguma: o velho
de suéter e chapéu preto
a varrer a calçada -
coisa alguma: o velho
de suéter e chapéu preto
a varrer a calçada -
os
seus três metros de calçada
na ventania que inconstante
virou-lhe a esquina para vir
tomar conta da cidade inteira
na ventania que inconstante
virou-lhe a esquina para vir
tomar conta da cidade inteira
William Carlos Williams
Tradução de José Paulo Paes
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
ODE AO ATEÍSMO, poema de Itárcio Ferreira
Quero
excluir deus de todos os meus poemas.
Da bíblia ao corão, do Bagavadguitá ao Torá,
da infância e da idade da razão.
Quero excluir deus da cachaça, do cigarro
do suor, do trabalho e da rebelião.
Quero excluir deus de toda a minha pequena existência:
do meu câncer, do meu infarto e da minha depressão.
Não posso creditar a tal figura invisível
a minha dor ou a minha felicidade.
Tudo depende de mim?
Tudo depende do sistema em que vivo:
o cruel Leviatã.
Assim pensam o filósofo, o bêbado, o perdedor,
o ateu e o socialista
que existem dentro de minha inconsciência.
Da bíblia ao corão, do Bagavadguitá ao Torá,
da infância e da idade da razão.
Quero excluir deus da cachaça, do cigarro
do suor, do trabalho e da rebelião.
Quero excluir deus de toda a minha pequena existência:
do meu câncer, do meu infarto e da minha depressão.
Não posso creditar a tal figura invisível
a minha dor ou a minha felicidade.
Tudo depende de mim?
Tudo depende do sistema em que vivo:
o cruel Leviatã.
Assim pensam o filósofo, o bêbado, o perdedor,
o ateu e o socialista
que existem dentro de minha inconsciência.
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sábado, 18 de fevereiro de 2017
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
AO DENUNCIAR O GOLPE, RADUAN LAVA ALMA DO BRASIL
Discurso
do escritor Raduan Nassar, autor de Lavoura Arcaica (1975), Um Copo de Cólera (1978) e Menina a Caminha (1994), ao receber o Prêmio Camões Literatura
2016, a cerimônia foi realizada hoje, dia 17/02/2017:
"Excelentíssimo
Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.
Senhor
Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.
Senhora
Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.
Professor
Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.
Saudações
a todos os convidados.
Tive
dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo
voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro
ter sido contemplado no berço de nossa língua.
Estive
em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a
Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses,
fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios
acadêmicos lusitanos.
Portanto,
Sr. Embaixador, muito obrigado a Portugal.
Infelizmente,
nada é tão azul no nosso Brasil.
Vivemos
tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos
Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan
Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a
prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos
Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática
ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre
de Moraes.
Com
curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por
omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima
inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um
partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua
fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo
Tribunal Federal.
Os
fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor:
contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra
universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa
e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao
neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que
vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.
Mesmo
de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado
pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.
Prova
da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias,
quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas,
acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única
delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado,
a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio
superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter
barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas
medidas
É
esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com
seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a
reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então
presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o
processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto
popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.
O
golpe estava consumado!
Não
há como ficar calado.
Obrigado".
PALAVRAS, poema Sylvia
Golpes
De
machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
A
seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha
Que
cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro
Essas
palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.
Bater de cascos incansável.
Enquanto do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.
Sylvia Plath
Tradução
de Ana
Cristina César
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
O valioso tempo dos maduros
Contei
meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a
frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que
futuro.
Sinto-me
como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras,
ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o
caroço.
Já
não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em
reuniões onde desfilam egos inflados. Inquieto-me com invejosos
tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares,
talentos e sorte.
Já
não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já
não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da
idade cronológica, são imaturos.
Detesto
fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de
secretário geral do coral. As pessoas não debatem conteúdos,
apenas os rótulos.
Meu
tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem
muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana, que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua
mortalidade…
Só
há que caminhar perto de coisas e pessoas de verdade. O essencial
faz a vida valer a pena.
E
para mim, basta o essencial!
Mário
Pinto de Andrade
Acalanto, poema de Paulo Henriques Britto
Noite
após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,
despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;
e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos
em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, um dia a menos.
E cada mundo apaga seus contornos
ao aconchego de um outro corpo morno.
Paulo Henriques Britto
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,
despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;
e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos
em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, um dia a menos.
E cada mundo apaga seus contornos
ao aconchego de um outro corpo morno.
Paulo Henriques Britto
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Para refletir (66)
Gore Vidal
"Se
as resoluções saídas do Tribunal de Nuremberg fossem aplicadas,
então todos os Presidentes norte-americanos pós-1945 teriam de ser
enforcados. Com isto quero eu dizer que todos eles cometeram o mesmo
tipo de crimes que aqueles que foram condenados à morte pelo
Tribunal de Nuremberg."
(Gore Vidal, romancista, dramaturgo, ensaísta, roteirista e ativista político estadunidense)
O GATO DE KAFKA, poema de Itárcio Ferreira
Todas as
sextas-feiras,
aos finaizinhos das
tardes,
assomam em mim
vibrantes explosões da alma.
Serão também explosões
do corpo?
Um enxame de flores,
sensações e insetos,
desembocam num rio que
trago escondido no peito.
Apenas Emília,
amor maior da minha
infância, teve acesso às suas águas.
Mas Emília,
branca como um anjo de
uma asa só,
morreu...
Um dia, depois ler
Kafka,
tomar uma limonada e
sonhar:
transformou-se em
pássaro.
Um pássaro mais lindo
que o amanhecer em
Pontas de Pedra;
mais lindo que os
sorrisos
de Claras, Rosas,
Lourdes...
Inebriante pássaro,
mais lindo que o próprio sorriso de Emília!
Mas uma noite,
enquanto cantava,
um gato a devorou...
Meu Deus...
Apenas Emília e o mar
faziam-me felizes.
Nessas horas, nesses
instantes de lembranças, saudades e medos,
vibro-me, uma corda
retesada, um epilético,
um quase morto.
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
MAIS DE 300 FILMES ALTERNATIVOS LEGENDADOS PARA ASSISTIR ONLINE
Via IdeaFixa
A Filmoteca Online foi criada há quase três anos com o objetivo de facilitar o acesso a filmes que estão fora do circuito comercial.
“Sempre assisti muitos
filmes e tenho um espírito um pouco arqueológico para o cinema, gosto de
desenterrar coisas raras e pesquisar sobre filmes que caíram no esquecimento. “
Um catálogo riquíssimo e com uma curadoria primorosa,
com filmes de mais de 40 países. Porém, para conseguir ver os filmes você
precisa criar um perfil no VK, uma espécie de Facebook russo (é rápido e vale a
pena pelo catálogo de filmes) ou consultar outras formas alternativas de assistir
aqui.
As imagens do início do post são filme "Suspiria", do
italiano Dario Argento. Um filme de terror com um visual que vai encanta
qualquer fã do Wes Anderson.
Para explorar o catálogo, clique aqui.
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