Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O vazio da minha voz, por Roque Braz (20040606dm)*


Apenas um domingo, fim de manhã,
Mas quanta coisa se deixa para trás.
Somente o vazio da minha voz a me perseguir
E eu, cada vez mais, me distanciando.

Na nebulosa em que se adiantou a minha alma
– Ou o que quer que, em mim,
Corresponda a tal fantasia –
Não há espaço a percorrer
De volta ao ponto de partida
Porque, se bem entendo o mecanismo da vida,
Ainda não saí do ponto de partida.
Mesmo porque, como eu disse,
Não creio, necessariamente, ter uma alma.
Alma é coisa para quem merece
Ou pretende um futuro julgamento
Diante de Deus.
Não creio que os meus atos
Sejam suficientemente altos ou baixos
Para merecerem um julgamento
Da parte de Deus ou de quem o represente.

Não. Diante do espelho da vida mínima
Que tenho levado até agora,
Jamais me imagino sendo julgado por Deus.
Nunca regi multidões;
Grandes dinheiros, meus ou de muitas pessoas,
Nunca estiveram sob minhas ordens;
Nunca estive presente nas grandes decisões
Sobre guerras ou sobre qualquer
Outro destino da humanidade;
Nunca tive o poder de,
Com uma simples atitude ou uma simples palavra,
Alterar o maniqueísmo diário
De qualquer parcela da sociedade...

Se Deus tiver de julgar as pessoas
Que já se encontraram, encontram-se
E se encontrarão nas situações aqui descritas,
Por que, finalmente, olharia para mim?
Eu apenas perguntaria:
– Se não fui eu quem engendrou tudo isto,
Por que ser julgado por uma vida que já encontrei pronta?

Não; eu não quero ter alma – eu não tenho alma.
Quero somente a bruma em que se adiantou a fantasia
Que, nos outros, corresponde à alma,
Deixando tudo para trás,
Num final de manhã de domingo,
Seguido apenas pelo vazio da minha voz.

* recifePE
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