Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Gal Costa e Elis Regina, dois grande amores do poeta Itárcio Ferreira

TERROR E GAL

Deus nos deu uma América Latina
                    que se afoga nas lágrimas de seu povo.
                   
Que adormece com o choro
                    convulsivo e faminto
                    de lindas e delicadas
                    raquíticas crianças.

Um bando de heróis
                    que venderam nossas terras
                    e corpos aos gringos
                    e suas almas ao Diabo.

Deus nos deu a impotência do grito.
                    A surdez e a cegueira a muitos,
                    além, é claro:
                    das ditaduras em brasa,
                    da fome feito serpente,
                    das doenças como lençóis de insetos,
                    do tédio ao meio-dia
                    e do amor carnal e cansativo feito luta.

Mas nos deu a voz de Gal para compensar,
                    que ninguém é de ferro. 

(1983)

*****

POEMA PARA ELIS

Sei que dói,
dói em mim a tua morte.

Talvez doa mais naqueles que te conheceram,
te tocaram, te falaram,
talvez doa mais,
talvez.

Mas o que dói mais, Elis,
é a morte daqueles
que nada deixaram gravado,
nada deixaram escrito,
nada deixaram.

O que mais me dói, Elis,
e sei que também doía mais em ti,
é a morte daqueles que morrem famintos,
(de pão e de justiça)
sim, Elis,
parece incrível,
todos os dias.

(1983)