Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Revisitando o documentário "Muito Além do Cidadão Kane"

Por Wilson Roberto Vieira Ferreira, Via Cinema Secreto: Cinegnose

Aos 50 anos do golpe militar de 1964 é necessário revisitarmos o documentário “Muito Além do Cidadão Kane” (Beyond Citizen Kane, 1993), dirigido por Simon Hartog para o Channel Four da Inglaterra. A Globo venceu na justiça e o filme foi banido do País, mas acabou assistido e debatido nos meios universitário e acadêmico. Tornou-se um documento fundamental para conhecermos o Brasil e a nossa TV. Ficou famoso internacionalmente pelas suas denúncias sobre as manipulações do telejornalismo da Globo e o favorecimento econômico da emissora de Roberto Marinho desde o início do regime militar. Mas o documentário de Hartog diz mais, que só o olhar de um estrangeiro poderia ver: os detalhes que contribuíram para a Globo formar a primeira rede de TV do país, capaz de criar um conteúdo tão genérico que passou por cima da diversidade cultural e regional brasileira. “A estranha combinação” do entretenimento dominical, a TV em cores e o projeto de modernidade e integração nacional dos militares e o condicionamento da vinheta do plim-plim e da linguagem do globês que alterou a identidade idiomática do brasileiro.

Às vésperas dos 50 anos do golpe militar de 1964, é oportuno fazermos uma revisita ao lendário documentário televisivo britânico Muito Além do Cidadão Kane. Produzido e distribuído pelo canal privado Channel Four em 1993 e dirigido por Simon Hartog, o documentário foca as relações entre a grande mídia e o poder no Brasil e detalha a posição monopolista da rede Globo que cresceu à sombra do regime militar. Analisa a figura do proprietário Roberto Marinho, suas relações políticas com o Estado (aproximando-o do personagem Charles Foster Kane, personagem criado por Orson Welles para o filme Cidadão Kane de 1941) e o poder da emissora em formar e manipular a opinião pública.

A ideia da produção do documentário surgiu quando Hartog visitou o Brasil nos anos 80 e ficou impressionado com o império midiático da Globo, Roberto Marinho e o seu pragmatismo político. Hartog  fazia parte de um grupo de cineastas de esquerda da London Coop. Antes de produzir Muito Além do Cidadão Kane ele já havia realizado Brazil: Cinema, Sex and the Generals  (1985) sobre o papel político das pornochanchadas na época do regime militar. Para os amigos, Hartog confidenciava a surpresa pelos brasileiros até então nunca terem feito um documentário sobre o poder da Globo.

Muito Além do Cidadão Kane ficou famoso nos meios universitários e acadêmicos pelas denúncias de manipulação das notícias (o desprezo pelas “Diretas Já”, a manipulação da edição do debate entre Collor e Lula em 1989 etc.) e por descrever didaticamente as relações simbióticas entre os interesses econômicos da Rede Globo e os políticos da ditadura militar (1964-1985).

Sem falar as batalhas judiciais que envolveram o documentário, começando no Reino Unido que fizeram adiar em um ano o seu lançamento: a Rede Globo contestou a produção do Channel Four devido ao uso de fragmentos da programação da emissora. E o banimento no Brasil com apreensões de cópias no MAM/RJ e no Museu da Imagem e do Som de São Paulo em 1994.

Revisitando Muito Além do Cidadão Kane percebemos que Simon Hartog quis dizer muito mais: seu olhar de um estrangeiro originário do Reino Unido onde a maior emissora (a BBC) possui controle público revela o espanto ao ver um país onde a maior emissora é privada e que não só cresceu fora do controle do Estado como também interferiu em momentos cruciais da história política nacional.

Os fatores determinantes políticos (o acobertamento pelos militares das origens ilegais da emissora com o acordo Globo/Time-Life em 1967 e a liberalidade com que foi tratado os negócios da Globo durante o regime militar), econômicos (a concentração do mercado publicitário na TV) e pessoais (a origem familiar de Roberto Marinho estava no jornalismo) apenas explicam parcialmente o sucesso de uma emissora que entrou na adolescência do mercado televisivo brasileiro e deu-lhe um novo rumo.

As bases imaginárias da construção de uma rede


"Olimpíadas do Faustão" e "Fantástico":
a "estranha combinação no lazer do domingo.
Uma das chaves da construção de uma
rede nacional de TV
Tudo isso seria insuficiente se a grade de programação da emissora (que o documentário dá destaque à grade dominical), a sua linguagem e o chamado “padrão Globo de Qualidade”, não tivessem penetrado tão profundamente no psiquismo do brasileiro. A grade formada pelo trinômio Telejornalismo/Novelas/Futebol e a linguagem televisiva que praticamente recriou a língua portuguesa (“do português ao globês”, como fala o publicitário Washington Olivetto a certa altura no documentário) foram as verdadeiras bases imaginárias que ajudaram a consolidar um inédito sistema de comunicação em rede via satélite.

O que caiu como uma luva no projeto do regime militar de integração nacional através da unificação cultural e a construção de um ideal de modernidade onde a televisão colorida teria um papel-chave.

O documentário de Hartog inicia mostrando os números do monopólio da Rede Globo: números de emissoras afiliadas, alcance no território nacional e concentração das verbas publicitárias. Colocados esses números o documentário inicia a investigação do por que desses números impressionantes.

E não é por acaso que dá destaque ao conteúdo da programação dominical com as “olimpíadas bobocas” do Faustão e o “carro-chefe” do Fantástico em um “domingo típico com uma estranha combinação de elementos” – o mix de notícias policiais sobre estupradores, musicais, Disneyworld e matérias sobre as próprias telenovelas da Globo. Ao mesmo tempo mostra como “a Publicidade era melhor que o País” ao oferecer nos intervalos publicitários produtos e serviços que a maioria dos brasileiros não podiam consumir.

Simon Hartog toca no ponto nevrálgico do sucesso da integração nacional por meio da construção gigantesca rede de televisão: em pleno regime de exceção, AI-5 e censura, a popularização da TV dava às pessoas uma impressão de igualdade, uma aparente socialização integral, sem barreiras e liberdade em pleno espaço privado da sala de jantar. E o domingo com o show de variedades numa “estranha combinação” reforçava essa impressão de variedade e liberdade de oferta de conteúdos.

Maria Rita Kehl no documentário: a repetição do
mito do "self made man" nas novelas da Globo
A TV cumpria a importante função de cimento ideológico do domingo que preparava o espírito para enfrentar a semana que se iniciava – como até hoje. E a oferta publicitária de bens e serviços caros só reforçava a ideologia meritocrática que as telenovelas exibiam em horário nobre (como fala a psicanalista Maria Rita Kehl no documentário “a repetição do mito do self made mando princípio do capitalismo”). Os produtos se oferecem para você na tela da TV. Basta você vencer na vida para comprá-los. Ideologia meritocrática que ocuparia papel central na mentalidade da nova classe média que surgiria com o chamado “Milagre Econômico” do início da década de 1970.

Mas essa ilusão de participação através da TV enfrentava duas grandes dificuldades: uma de natureza técnica e outra cultural.

O efeito comportamental do “plim-plim”


Como o documentário destaca, em 1969 a Embratel acabara de inaugurar o sistema de microondas que permitiria à Globo emitir sinais simultâneos para Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Curitiba. Eram as condições técnicas que permitiram a Globo lançar o Jornal Nacional, o primeiro telejornal brasileiro em rede. Mas, ao longo do tempo, a emissora enfrentou o problema técnico de sincronização das afiliadas: todas deveriam sair simultaneamente dos intervalos publicitários para a exibição do sinal emitido da matriz no Rio de Janeiro.

A solução técnica foi a famosa vinheta do “plim-plim” para avisar as afiliadas quando haveriam intervalos, e com isso todas estariam sincronizadas. Em 1971 José Bonifácio, o “Boni”, encomendou a vinheta que foi implantada durante o Festival Internacional da Canção. Boni queria um som que pudesse ser ouvido a quadras de distâncias para fazer a família voltar para diante da TV – o documentário relata que os telespectadores “salivavam” ao ouvir o som do “plim-plim” criado pelo austríaco Hans Donner.

Mas ao longo dos anos 1970 publicitários e profissionais de mídia começaram a perceber que a sonora vinheta, tornada ainda mais marcante com a remodelagem de Hans Donner em 1975, estava dificultando a recepção dos intervalos publicitários do horário mais caro da emissora. Simplesmente o sinal transformou-se num comando comportamental para os espectadores se levantarem, irem para qualquer cômodo da casa para retornarem depois do novo “plimplim”.

Sob um regime militar de censura e repressão política, sabendo-se que a TV Globo e Roberto Marinho tinham ótimas relações com os presidentes generais, tal percepção ficou restrita a boca pequena ajudando a manter os altos valores de inserção no horário nobre, vital para o crescimento da rede.
A vinheta do plim-plim nos anos
1970: efeitos comportamentais

O outro fator foi o cultural: a grande extensão territorial do País e diversidade de hábitos, gostos que faziam parte da história da população regional. Como o documentário destaca, ovideotape já havia acabado com as programas ao vivo e a produção local, facilitando a centralização da nova rede. Mas a diversidade cultural brasileira era uma barreira para estabelecer a fusão da identidade nacional com o mercado meritocrático publicitário.

O pesquisador Renato Ortiz dá o exemplo dos estados do tradicionalismo de estados como o Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Por exemplo, o interior gaúcho ainda possuía emissoras locais que se desenvolveram antes da fase da “integração nacional”, mantendo uma cultura tradicionalista que seria uma óbvia barreira de uma programação em rede. A solução foi o “toque” local a partir da construção da figura do “gaúcho”, da “mineiridade” e assim por diante, principalmente por meio dos personagens de telenovelas. As antigas identidades locais (hoje inviáveis em face das transformações sociais e do cosmopolitismo da sociedade de massas) foram como que desmontadas para depois serem reconstruídas por meio da culinária, arquitetura e “tradição” (no sentido museológico do folclore).

Do português ao “globês”


Mas o elemento decisivo da “integração nacional” (identidade nacional + mercado publicitário) foi a criação de uma arquinorma linguística, aquilo que o publicitário Washington Olivetto declara no documentário de que “o brasileiro em certo momento deixou de falar o português para falar o ‘globês’”.

Washington Olivetto: do português ao globês
A linguagem da TV Globo acabou criando uma nova identidade idiomática não tanto por alguma intencionalidade conspiratória, mas pela própria exigência técnica de um sistema de comunicação em rede cujo conteúdo generalista deveria ser compreensível a todas as diferenças regionais. Como criar um conteúdo generalista para um país que na verdade contém diversos países: culturas, tradições, falas etc.?

Muitos pesquisadores na área de Fonética e Fonoaudiologia estudam como a TV Globo criou uma arquinorma televisiva irradiada como, por exemplo, a limitação da pronúncia de vogais pretônicas e neutralizações de traços opositivos vocálicos aberto/fechado. Segundo a pesquisadora Regina Silveira , “as bases da pronúncia da arquinorma televisiva da Globo constroem, para seus telespectadores, representações mentais sonoras-tipo que ficam armazenadas em suas memórias de longo prazo, social” (veja SILVEIRA, Regina Célia P. “A Questão da Identidade Idiomática: a pronúncia da vogais pretônicas na variedade padrão do português brasileiro”).

Essa arquinorma passou a ser aceita pelo seu prestígio não tanto por ser “norma culta”, mas pela marca do simbolismo da modernidade dentro do projeto ideológico dos militares no qual a necessidade do monopólio Rede Globo estava inserido.



Embora seja uma produção de 1993, Muito Além do Cidadão Kane continua atual: embora o sistema político tenha se democratizado, o sistema midiático continua com a mesma estrutura idealizada pelo regime militar. Quando veremos a produção de Simon Hartog como um documento histórico de uma época que passou?

Ficha Técnica

Título: Muito Além do Cidadão Kane (Beyond Citizen Kane)
Direção: Simon Hartog
Roteiro: Simon Hartog
Elenco: Leonel Brizola, Walter Clark, Chico Buarque de Hollanda, Dias Gomes, Lula, Washington Olivetto, Armando Nogueira
Produção: Channel Four
Distribuição: Channel Four
Ano: 1993
País: Reino Unido