Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

LUÍS CARLOS PRESTES



Vejo tua foto numa revista semanal,
reportagem sobre os cem anos da
República.
Olho-te com carinho,
como costumo olhar
as fotos de meus filhos,
de meus pais,
de parentes que amo,
de amigos distantes ou ausentes.

És, ainda, na foto, um jovem
com barbas e sonhos,
mas não apenas sonhos, matéria efêmera,
também ações.

Na foto, és um jovem
como sou hoje eu,
como somos muitos no nosso país.
Mas há uma diferença
entre ti e mim,
entre ti e alguns jovens de nosso país,
ontem e hoje,
és imprescindível,
daqueles homens de quem fala
um poema de Brechet.

Eu, e sinto necessidade de fazer-me
revelar:
apenas um fraco? um egoísta? narciso?

Admiro-te, e onde minha coragem ante teu exemplo?
Preocupa-me mais o meu emprego,
a minha casa, o meu carro.
Não que viver bem
não seja necessário,
mas não apenas o meu viver bem,
mas o de todos.

Admiro-te, admiro a tua vida
e a de teus companheiros:
a dedicação à luta, a um ideal
que compartilho,
mas que não tenho coragem suficiente
de levantar como bandeira
(fraco? egoísta? narciso?).

Vejo-te hoje velho e sempre digno
(ah se estivesses vivo...),
o que não podemos dizer de todos os homens
de nosso país.

Mas há alguns que nos fazem renascer
a esperança.
Hoje temos a esperança de eleger Lula
em quem temos fé,
uma fé racional.
Cremos neste novo homem
que, como tu, tem desejo, vontade e ação.

Hoje, como ontem,
temos a esperança,
hoje temos Lula e seus companheiros,
jovens e velhos brasileiros,
como ontem te tivemos,
como sempre te teremos,
Cavaleiro da Esperança.

Olinda, 02.12.89

(Itárcio Ferreira)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

ÚLTIMO POEMA

(Isadora Duncan - 1877/1927)



Que meu último poema,
depois de tanta vida vivida,
que é o mesmo que dizer:
depois de tanta vida sofrida,
fosse um poema dançante.

Um poema como um corpo
que bailasse livre
de amarras sociais
e da poliomielite.
Um poema com a cara da Isadora Duncan.

Um poema que saísse
alegre e louco
das páginas do livro
mal ouvisse o Lago dos Cisnes
de Tchaicovski
ou um frevo de Capiba. 


(Itárcio Ferreira)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

EL SALVADOR



Nos acampamentos guerrilheiros em El Salvador,
as balas norte-americanas
são como as flechas do cupido:
apaixonam o povo cada vez mais
por seu país,
por sua liberdade.


(Itárcio Ferreira)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

IMPROVISO PARA OS SEM-TERRA


                 

Para o MST e Dom Pedro Casaldáliga


Que a terra,

mãe de todos nós,

seio generoso e abundante

que se oferece

para saciar a fome de seus filhos,

sejam quantos forem,

torne-se livre.



Precisamos agir,

pois, só se plantarmos, colheremos o fruto,

e gritar,

gritar a canção dos que se unem

e festejam a união

de caminhar num só sentido de lutas

e esperanças.



Que a terra seja liberta das cercas

que ferem as mãos calejadas dos homens.


Precisamos plantar,

não grilhões,

mas a árvore do alimento

             e do amor,

porque a fome é a primeira barreira

             a vencer,

e com a sua derrubada

o amor fluirá do homem,

companheiro nosso

na luta pela alegria,

             como um olho d’água vazado

             que forma um rio.



E a alegria é justiça e pão,

e a justiça e pão é paz,

             e a paz é o amor e o amor é Deus,

e Deus é a terra sua criação,

e a terra é de todos.



(Itárcio Ferreira)

                                                      1989

quarta-feira, 16 de junho de 2010

REFLEXO NO ESPELHO OU ITINERÁRIO PARA UM DESCONHECIMENTO


O meu quarto são quatro paredes brancas
me refugio.

fora, os ruídos,
as inacabáveis batalhas pela vida.

Eu continuo ferido,
enquanto a morte não vem.

Lembranças da infância cada vez mais nebulosas
e distantes.

A fumaça do cigarro do homem
que está ao meu lado,
nesta gravura na parede,
incomoda-me os pulmões.

Repetem-se os sons
como a repetição da vida,
nas tempestades de ânimos em que se afundam
meus navios.

Busco-me
- como busca o sol a trepadeira,
minha língua, tua língua,
o suicídio, o aposentado –
nos meus livros empoeirados
como um mágico à fantasia de espelhos,
noites, beijos e bombas,
sons, cores e seres.


(Itárcio Ferreira)


segunda-feira, 14 de junho de 2010

NA ROTINA DAS MANHÃS





Na rotina das manhãs,
       o mesmo rosto no espelho,

       o mesmo jato de urina,

       o mesmo cheiro.



O pão, a manteiga, o café.

O mesmo poema cansado,

o mesmo livro debaixo do braço,

a mesma vontade matinal de ir ao banheiro.



No amor mal feito,

       no desejo esquecido na esquina,

       no grito – de gol? – amarrado no peito,

       na dose de estriquinina – para o amante ou o rato?



Na carne estragada na geladeira,

       no copo de cerveja quente,

       no sol que racha minha cabeça,

       no tempo perdido na máquina batendo um ofício




ao Exmo. Sr. Filho da Puta,

       no romance não lido de Loyola

       na solidão sempre lembrada e eterna

- Deus?



Caminho – inútil caminhar? – homem metafísico

       através da manhã e do poema,

       entre o ser genético e seus códigos

       e o ser divino e o horror da eternidade.


(Itárcio Ferreira)



terça-feira, 8 de junho de 2010

VINTE ANOS



Primeiros acordes desafinados da manhã.
O sol não tocará meu coração,
mas queimará a minha pele:
ficarei bonito e infeliz.

À manhã, ao sol e à vida
tudo falta:
ritmo, harmonia, melodia,
criatividade, improviso.
A vida é uma péssima música.

Nesta manhã tediosa,
nesta tarde tediosa,
meu coração não digerirá o ódio
que eu teimo em criar
contra ratos, baratas e homens.

No entanto, a esperança,
abstrata e misteriosa,
não me abandonará,
por mais fraco que meu corpo esteja,
por mais desespero de minha alma,
de meu sopro, de minha animação.


(Itárcio Ferreira)

segunda-feira, 7 de junho de 2010

SE NÃO CANTO, PELO MENOS GRITO

(Edvard Munch)

Meus poemas não cantam amores utópicos.
Não são instrumentos da falsa
moral.
Não apóiam a d
e
c
a
d
e
n
t
e sociedade.

Meus poemas são tiros
nos corações,
são bombas,
bombas de esperança,
são gritos,
gritos de dor,
de ré
volta,
de fome.

Canto os desencantos,
canto o verdadeiro amor,
canto a luta,
canto a não-derrota.

Meus poemas são feitos de palavras
que traduzem
as vossas palavras.

São feitos de palavras
que, de repente,
a garganta expulsou,
num momento de honestidade,
num momento de grito.

Canto e grito:
eis o poema.

Grito mais do que canto,
canto menos do que grito,
se não canto, pelo menos grito.


(Itárcio Ferreira)