Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sábado, 29 de agosto de 2020

Meia noite meio poema, poema de Antônio de Pádua

Imagem: Amanda Perobelli/Reuters
 

Meia noite meio poema

A outra metade

Meta 

Apenas amanhã

Quem sabe 

Valha a pena

...

Manhã 

De um dia propício

Eis aqui tudo isso 

O início

.

A tarde corre

A ideia vai atrás

Foge 

Pra nunca mais

Quem quiser se perder

Nunca é tarde demais


Quem dera 

Ora quem dera

Fosse o leite

Mas agora

É o sangue 

derramado 

Que se chora


PÁDUA

 

Pádua é autor do livro de haikai “Menos, menos, menos”

sábado, 22 de agosto de 2020

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Fruta Estranha, poema de Lewis Allan

 

Árvores do Sul
Dão fruta estranha;
Folha ou raiz,
Em sangue se banha;
Corpo de negro
Balançando, lento;
Fruta pendendo
De um galho ao vento.

Cena pastoril
Do Sul celebrado;
A boca torta
E o olho inchado;
Cheiro de magnólia
Chega e passa;
De repente o odor
De carne em brasa.

Eis uma fruta
Pra que o vento sugue,
Pra que um corvo puxe,
Pra que a chuva enrugue,
Pra que o Sol resseque,
Pra que o chão degluta,
Eis uma estranha
E amarga fruta.

Lewis Allan (Psedônimo de Abel Meeropol)

Versão Carlos Rennó

Sobre o autor ler aqui: Abel Meeropol, vale a pena.

sábado, 8 de agosto de 2020

Morre Dom Pedro Casaldáliga (1928 - 2020)

 

Via CFFB

“Ser o que se é 

Falar o que se crê 

Crer no que se prega 

Viver o que se proclama 

Até as últimas consequências”.


Poemas e Livros de DOM PEDRO CASALDÁLIGA para baixar

Todos os livros e poemas do Poeta e Profeta para baixar gratuitamente.
 

Dom Pedro completou  90 anos de vida no dia 16 de fevereiro.

A pedido de Dom Pedro Casaldáliga, um grupo de seus amigos próximos organizou a uma biblioteca  online, onde estão todos seus escritos disponíveis a qualquer pessoa.

Dom Pedro Casaldáliga,  nascido em Balsareny, província de Barcelona, 16 de fevereiro de 1928 é um bispo católico radicado no Brasil desde 1968. Atualmente, é bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia.

Ingressou na Congregação Claretiana (Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria) em 1943, foi ordenado sacerdote em Montjuïc, Barcelona, no dia 31 de maio de 1952. Após sua ordenação lecionou  em um colégio claretiano em Barbastro, e foi assessor dos Cursilhos de Cristandade e diretor da Revista Iris.

Em 1968, transferi-se para o Brasil fundando uma missão claretiana no Mato Grosso, uma região com um alto grau de analfabetismo, marginalização social e grande latifúndios, muitos conflitos de terra, onde eram comuns os assassinatos.

Foi nomeado administrador apostólico da prelazia de São Félix do Araguaia (Mato Grosso) no dia 27 de abril de 1970. O Papa Paulo VI o nomeou bispo prelado de São Félix do Araguaia , no dia 27 de agosto de 1971. Foi sagrado bispo em 23 de outubro de 1971, pelas mãos de Dom Fernando Gomes dos Santos, Arcebispo de Goiânia; de Dom Tomás Balduíno, OP; e Dom Juvenal Roriz, CSSR.

Na década de 1970, ajudou a fundar o Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
Defensor dos povos indígenas e dos camponeses,  adotou como lema para seu serviço pastoral: Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar. É poeta, autor de várias obras sobre antropologia, sociologia e ecologia.

sábado, 20 de junho de 2020

Chico Buarque, o Grande Brasileiro.

Foto de Bel Pedrosa

Por Arnobio Rocha, em seu blog
“E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado”

Ora, se Milton Nascimento desafia a lógica com sua voz, que tantas vezes me faz pensar que se existissem anjos, eles teriam a voz de Milton. Com Chico Buarque a complexidade é ainda maior, a beleza estética seduz o mais contidos dos homens, nem posso imaginar o que provoca na mulheres. Ah, aqueles olhos, aquele charme, o sorriso sempre largo e verdadeiro, que timidez, nada tem.
O Francisco Buarque,  filho de dois grandes intelectuais do Brasil, Sérgio Buarque e Maria Amélia, deve ter nascido e crescido com esse “peso”, ao mesmo tempo, com a dádiva de um DNA impar, superar, especialmente o pai, ser filho de Sérgio, não parece ter sido fácil, olhando daqui de longe. Depois, Sérgio virou o pai do Chico.
Cada um de nós, de nossa idade e acima, como também para os mais jovens, tem o “seu” Chico Buarque, a sua forma de identificação com o maior compositor brasileiro, da segunda metade do século XX, do escritor genial, aquele que facilmente transitou da poesia para prosa, e fez o caminho de volta, e novos retornos com a mesma intensidade, que só apenas os gênios conseguem, tendo em nós fãs e admiradores a pedir um “bis”.
Chico entrou em minha vida, se bem me recordo ouvindo as músicas de minha irmã mais velha, em meado dos anos de 1970, entretanto, apenas no começo dos anos 80, definitivamente passei a ter nele a referência musical, intelectual, nesse sentido, Construção foi a música que mudou a minha forma de entender uma poesia, a minha relação com as letras e a compreensão da perfeição poética.
Uma poesia cartesiana, caprichosamente metrificada, sem uma única palavra fora do lugar, feita por um engenheiro, um arquiteto, um matemático, mas, antes de tudo, um filósofo.
Na época dava os primeiros passos no curso técnico de Telecomunicações, entretanto meu viver eram as ruas do movimento estudantil, vindo da periferia de Fortaleza, encantado com a poesia, as moças bonitas e pelo Chico. Ou poderia ser o contrário, inspirado por Chico, olhava as moças, cantava poesia, enquanto ia para as ruas para derrubar a ditadura.
Agradeço ao Chico, por ser parte fundamental de minha vida, de nossa geração heroica e trágica, que venceu uma ditadura, chegou ao governo, decaiu, sem jamais Chico envergar, deixar de ter LADO, o nosso lado, o lado do povo, da sensibilidade humana e da vida.
Viva, Chico, parabéns. Vida longa, lindo e poético como sempre.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Poema do nadador, de Jorge de Lima



A água é falsa, a água é boa.


Nada, nadador!
A água é mansa, a água é doida,
Aqui é fria, ali é morna,
A água é fêmea.
Nada, nadador!
A água sobe, a água desce,
A água é mansa, a água é doida.
Nada, nadador!
A água te lambe, a água te abraça,
A água te leva, a água te mata.
Nada, nadador!
Se não, que restará de ti, nadador?
Nada, nadador.

Jorge de Lima

II - O meu olhar é nítido como um girassol, poema de Alberto Caeiro


II

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
 
Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
 
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
 
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

Alberto Caeiro

terça-feira, 24 de setembro de 2019

ESTAVA EU SENTADO, PERTO DO MAR, por Aldous Huxley


Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso. Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feito de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris... Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração... Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital. Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que nunca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta.

Aldous Huxley