"Não tem porque interpretar um poema. O poema já é uma interpretação." (Mário Quintana)
Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
terça-feira, 7 de maio de 2019
O SEXTO LIVRO, poema de Itárcio Ferreira
Finalmente encontrará a saída
Mas não as voltas, os desígnios
proféticos.
Soma todos os seus triângulos
E terás a perfeita forma do Livro
sexto.
A justiça só é escrita sem o medo
Mas são tantos os pecados já prescritos
Aberto ao meio se dividira em dois
E perecerá ao encontro do Livro Três
Minhas línguas se transformam em mãos
Portanto, leitor, comande os exércitos
E os uno ao vinho e ao amor.
Reflito não um espelho, mas desejos
atônitos.
Itárcio Ferreira
segunda-feira, 6 de maio de 2019
BICICLETA, poema de Herberto Helder
Lá
vai a bicicleta do poeta em direção
ao símbolo, por um dia de
verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
Herberto
Helder
domingo, 5 de maio de 2019
Legenda, poema de Mário Faustino
No princípio
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia.
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se estendia a queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.
Havia então mais sombra em nossa via.
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.
Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga de meu dia —
e mudo sou para contar-te, amigo,
O reino, a lenda, a glória desse dia.
sábado, 4 de maio de 2019
O DIA DOS HOMENS, poema de Lêdo Ivo
Viver é preciso.
Não existe Inferno
nem Paraíso.
Apenas o chão.
E uma persistente
chuva de verão.
Não existe Inferno
nem Paraíso.
Apenas o chão.
E uma persistente
chuva de verão.
Lêdo Ivo
sexta-feira, 3 de maio de 2019
Abandonei-me ao vento, poema de Carlos Nejar
Foto de Voltaire Santos
Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe
quando me levantar e o corpo solte
o seu despojo vão. Em toda a parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.
o seu despojo vão. Em toda a parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.
E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.
Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.
Carlos Nejar
quinta-feira, 2 de maio de 2019
Os ninguéns, por Eduardo Galeano
As pulgas sonham com comprar um cão, e os
ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de
repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem
hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais
que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o
pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos
de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos,
morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam
superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos
humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal,
aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala
que os mata.
— Eduardo Galeano, no livro “O livro dos
abraços”. tradução Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 2002
quarta-feira, 1 de maio de 2019
Itárcio Ferreira - "Pão e vinho"
Pessoal, foi criado um embrião do meu canal de
música autoral no YouTube, Itárcio Ferreira, com o objetivo de
divulgar meus trabalhos musicais solos e em parceria.
Inicialmente o canal terá 15 vídeos, sendo um vídeo
com todas as músicas do CD Macaratu Prá Ela (2002), e os outros as 14 músicas,
do CD, individualmente.
Próximo passo será gravarmos novos vídeos/clipes
com outras composições.
Vá lá no canal e deixe seu like e se inscreva.
Lembramos que nosso trabalho em poesias está no
blog Itárcio Ferreira, poemas e os nossos textos
de políticas no Blog do Itárcio.
Abraços.
Campanha recria foto clássica para mostrar que Machado de Assis era negro
Via DCM
Do Globo:
Embora mais da metade da nossa população seja negra, milhões de jovens brasileiros passam todo o período escolar— e, por vezes, a vida — sem saber que um dos maiores (se não o maior) escritores do país, Machado de Assis, era como eles: negro. Por muitos anos, como se sabe, as imagens do grande escritor foram retocadas — chegando ao ponto de, em 2011, a Caixa escolher um ator branco para interpretá-lo num comercial (depois das críticas, o banco reconheceu o erro e refez o vídeo, agora com um ator negro).
Pois bem. Para reparar essa “injustiça histórica”, a Faculdade Zumbi dos Palmares e a agência Grey lançaram a campanha “Machado de Assis Real”. A partir desta imagem clássica à esquerda, que “muda a cor da sua pele, distorce seus traços e rejeita sua verdadeira origem”, a equipe da campanha criou a foto da direita, respeitando o tom de pele e os fenótipos negros do autor de, entre outros, “Dom Casmurro” (1899). Trata-se de uma “errata histórica feita para impedir que o racismo na literatura seja perpetuado e para encorajar novos escritores negros”, informa a campanha.
A ideia é que cada um entre no site, imprima a foto nova e cole sobre a antiga em seus livros. Há também um abaixo-assinado para que as editoras e livrarias “deixem de imprimir, publicar e comercializar livros em que o escritor aparece embranquecido”.
Primeiro de Maio, poema de Adalberto Monteiro
Nesta
manhã de Primeiro de Maio, Não há por que invejar o sol.
Éramos algo sem nenhuma importância coletiva,
Indivíduos, nada mais.
Nos transformamos num gigante coração
A marchar pelas avenidas.
Nossas reivindicações eram apenas pedidos,
Menos do que isso, gemidos,
Aguardando audiências e despachos.
Agora a voz de cada um faz parte
De um canto cantado por um coral de milhares.
Não somos indivíduos nem multidão,
Somos um povo unido.
Adalberto Monteiro
Éramos algo sem nenhuma importância coletiva,
Indivíduos, nada mais.
Nos transformamos num gigante coração
A marchar pelas avenidas.
Nossas reivindicações eram apenas pedidos,
Menos do que isso, gemidos,
Aguardando audiências e despachos.
Agora a voz de cada um faz parte
De um canto cantado por um coral de milhares.
Não somos indivíduos nem multidão,
Somos um povo unido.
Adalberto Monteiro
terça-feira, 30 de abril de 2019
O QUINTO LIVRO, poema de Itárcio Ferreira
Havia homens, mulheres, páginas
Tinta e
entrelaçar de pernas e dedos.
Olha a sua mão e os seus cinco dedos
no centro encontra-se o Livro
O nome de Fátima é bendito
E todos os cinco sentidos
Têm medo de encontrá-lo em pesadelos.
Em suas páginas a Perfeição perseguida
pelos Deuses e alcançada por Hórus
Apenas ele e suas muralhas em volta de
seu corpo.
Após cinco dias nasce o milho
E o olho esquerdo passa a guiar seus
passos.
Nunca deves voltar ao ponto que era
escuridão.
Itárcio Ferreira
segunda-feira, 29 de abril de 2019
KARINA BUHR - "Nassiria e Najaf"
NASSIRIA E NAJAF
Dorme antes do míssil passar
Daqui a um segundo
eu posso não ter mais você
Você não mais que isso
Nossa casa explodir
Uma arma cravar meu corpo
Um corpo furar sua carne
Mesmo o que a gente não tem mais
pode morrer aqui
Não importam seus amigos anjos,
nem sua vontade de comer um bolo,
nem meu vestido novo,
nem meu vestido velho
Dorme logo antes que você morra!
Dorme logo antes que você morra!
Dorme antes do míssil passar
Daqui a um segundo
eu posso não ter mais você
Você não mais que isso
Nossa casa explodir
Uma arma cravar meu corpo
Um corpo furar sua carne
Mesmo o que a gente não tem mais
pode morrer aqui
Não importam seus amigos anjos,
nem sua vontade de comer um bolo,
nem meu vestido novo,
nem meu vestido velho
Dorme logo antes que você morra!
Dorme logo antes que você morra!
Está chovendo fogo
e as ruas estão queimando
Todo mundo assistindo
à gente desmilinguido
Nosso sangue derretendo
junto com o mundo,
que vai se acabando?
Não deu certo!
Tanto trabalho, tanto tempo,
planeta ser feito, gente ser feita,
não deu certo!
Dorme logo antes que você morra!
Dorme logo antes que você morra!
Essa é pras criancinhas de Nassiria, Najaf, em Bagdá,
uma canção de ninar
Essa é pras criancinhas de Nassiria, Najaf, em Bagdá,
uma canção de ninar
Dorme logo antes que você morra!
Dorme logo antes que você morra!
Dorme logo antes que você morra!
Dorme logo antes que você morra!
KARINA BUHR
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