Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sábado, 18 de março de 2017

Para refletir (72)

Mia Couto

Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra: essa arma chama-se fome.”

(Mia Couto, escritor moçambicano)

Luiz Melodia - "Juventude transviada"

sexta-feira, 17 de março de 2017

Amor Depois Amor, poema de Derek Walcott



Tempo virá
quando, com euforia,
você irá se cumprimentar chegando,
a sua própria porta,
em seu próprio espelho
e cada um sorrirá ao seja bem-vindo do outro
e dirá, sente-se aqui. Coma.
Você vai de novo amar o estranho que era você mesmo.
Ofereça vinho. Ofereça pão. Devolva seu coração
a si mesmo, para o estranho que amou você
toda a sua vida, quem você ignorou
por outro, que conhece você de coração.
Derrube as cartas de amor da estante,
as fotografias, as notas desesperadas,
descasque sua própria imagem do espelho.
Sente-se. Celebre a sua vida. 

Derek Walcott *

Tradução de Salomão Rovedo

* Derek Walcott, prêmio Nobel de literatura em 1992, morreu, hoje, aos 87 anos em Santa Lúcia, seu país natal.

Os Primeiros Tempos da Tortura, poema de Alex Polari



Não era mole aqueles dias
de percorrer de capuz
a distância da cela
à câmara de tortura
e nela ser capaz de dar urros
tão feios como nunca ouvi.

Havia dias que as piruetas no pau-de-arara
pareciam ridículas e humilhantes
e nus, ainda éramos capazes de corar
ante as piadas sádicas dos carrascos.

Havia dias em que todas as perspectivas
eram prá lá de negras
e todas as expectativas
se resumiam à esperança algo cética
de não tomar porradas nem choques elétricos.

Havia outros momentos
em que as horas se consumiam
à espera do ferrolho da porta que conduzia
às mãos dos especialistas
em nossa agonia.
Houve ainda períodos
em que a única preocupação possível
era ter papel higiênico
comer alguma coisa com algum talher
saber o nome do carcereiro de dia
ficar na expectativa da primeira visita
o que valia como um aval da vida
um carimbo de sobrevivente
e um status de prisioneiro político.

Depois a situação foi melhorando
e foi possível até sofrer
ter angústia, ler
amar, ter ciúmes
e todas essas outras bobagens amenas
que aí fora reputamos
como experiências cruciais.

Alex Polari

Aqueles e aquelas dos picos e Céu

Stevie Wonder - "I Wish"

quinta-feira, 16 de março de 2017

Para o golpista mor


A negra gorda indo às compras, poema de Grace Nichols


Comprar no inverno londrino
é um porre para uma mulher negra
indo de loja em loja
em busca de roupas confortáveis
e tão frio lá fora
Observa os manequins gelados e magricelos
olhado para ela sorrindo
e os lindos rostos das vendedoras
trocando rápidos olhares
achando que ela não percebe
O senhor está injuriado
Nada macio, reluzente e volumoso
para fluir a luz do sol ventosa
quando ela passa
A negra gorda xinga em Suahili/Iorubá
e línguas nacionais sob sua arfada
toda essa pernada
A negra gorda chega à conclusão
que quando se trata de moda
a escolha é esguia
Nada além do 42

Grace Nichols


NO ENTANTO, poema de Sylvia Beirute



tão especiais os homens de acção
e esta liberdade de poder alongar o verso até ao extremo sem ter de prestar contas ao Criador, 
sem ter de ser realmente especial. 
e é concebível que um desses homens 
venha parar a este meu jorro, à ousadia 
de ter certezas muito desenvolvidas, certezas, também elas, 
até ao extremo absoluto da personalidade colectiva, às 
decisões pelos velhos hábitos. 
se assim é, meus senhores: sentem-se, bebam um café 
que o meu próximo poema servirá com as leis 
da consciência já alteradas, com encontros fora de prazo.
para já: entretenham-se com os meus olhos 
e corrijam o que entenderem. 
Sylvia beirute

O que é o amor? (2)

Anais Nin


"O amor não é nada além da aceitação do outro, o que quer que ele seja."


(Anais Nin, escritora francesa)


Seleção Maria Popova via “Brainpickings”

Edilza Aires - "O Eterno "Deu" Mu Dança"

quarta-feira, 15 de março de 2017

ESQUERDA TÚNICA

Ainda uma vez — Adeus, poema de



I

Enfim te vejo! — enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!

II

Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!

III

Louco, aflito, a saciar-me
D'agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esp'rança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!

IV

Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.

(trecho)

Gonçalves Dias

Angela Ro Ro e Luiz Melodia - "Tola foi você"

terça-feira, 14 de março de 2017

Ainda hei de fazer uma canção, poema de Carlos Maia



Ainda hei de fazer uma canção
De amor pra ti Recife,
Recife, dos rios dourados pelas
Luzes da noite.
Recife, dos flamboyants e das acácias.
Recife, das auroras em Boa Viagem
Após porres homéricos na Rua da Moeda.
Recife, das putas adolescentes da Conselheiro Aguiar.
Recife, dos pedintes nos sinais
Recife, dos pôr-dos-sóis no Capibaribe.
Recife, de tanta miséria
Recife, de tanto prazer
Recife, das pontes inumeráveis
Recife, dos poetas espoliados.

Carlos Maia

Para refletir (71)


Transumanismo


Romy Martínez - "Cuitelinho"

segunda-feira, 13 de março de 2017

DESCULPA, MAS COMO NÃO TE AMAR?, poema de Itárcio Ferreira

                      
Desculpa, mas como não te amar?

Tua voz é canção,
às vezes erótica, às vezes de ninar.

Teu olhar,
confundo-o sempre com o teu sorriso,
brilhantes.

Teu corpo... Ah o corpo!
O que faz teu corpo ser belo?
As formas?
Preciso ler mais Adorno!
O calor? Teus desejos secretos?

Desculpa, mas como não te adorar?

Itárcio Ferreira

Purahéi Trio - "Tocando em frente"