Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sábado, 26 de fevereiro de 2011

CANTO A UM HERÓI GUERREIRO




                                  
                                  Para José Maria Menezes Ferreira





Meu pai é de carne, osso e espírito,

mais espírito que tudo.



Sempre foi um guerreiro, sempre lutou,

sempre foi meu herói.



De mãos vazias lutou.

Lutou jovem, sofreu jovem,

jovem amou, jovem venceu.



Trazia nos pulmões o ar de Carpina,

que é muito bom.



Enfrentou monstros de trinta pernas,

vinte olhos e cem mãos.



Enfrentou sobretudo os homens,

a ganância, os generais da política,

e venceu todas as batalhas.



Que espécie de guerreiro é meu pai

que não sabe caçar?

Fazer guerra não sabe.



Será guerreiro expulso de alguma tribo

ou um ser de outro planeta?



Uma flor que virou homem

ou talvez um louco fugido de um hospício?



Um poeta?



Chamem a polícia,

os bombeiros, o oficial de justiça,

o dono da venda, o carteiro, o padre, o prefeito, o ladrão.



Que espécie de guerreiro é meu pai?

Quem o saberá?


(Itárcio Ferreira)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

PAISAGENS ANIMADAS



As pequenas casas da beira da estrada correm
com tudo que há dentro delas.

As árvores também correm,
as árvores secas, as carnaubeiras.

Correm as mulheres vadias e as lavadeiras,
as mulheres feias, as bonitas, as magras, as gordas.

Os homens fortes com pesadas enxadas correm,
os homens fracos correm menos.

Uma igrejinha de uma porta só
corre...

Correm os bares:
o Boi na Brasa, o Garfo de Ouro...
Até o Bar São Francisco corre,
só eu não corro.


(Itárcio Ferreira)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

POÉTICA III



Minha poesia cheira
ao povo brasileiro.
Cheira
a suor e a sangue
de negro, de branco, de índio.

Cheira a fome minha poesia,
por isso a faço pequena,
medrosa e rouca,
como a realidade brasileira.


(Itárcio Ferreira)


Obs.: Poema escrito à época da ditadura fascista implantada, em 1º de abril de 1964, no Brasil.