Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sábado, 5 de novembro de 2016

CLASSE MÉDIA, poema de Geraldino Brasil



Um médico.
Ótimo na família

Um executivo.
Ótimo

Um engenheiro.
Um arquiteto.
Um magistrado.
Ótimo

Um poeta.
Melhor na família dos outros

Geraldino Brasil

ENVIO AO LEITOR, poema de Basil Bunting

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Do cimo da lua
ao fundo dos peixes
não há quem conheça
meu secreto coração.
Vocês acham mesmo
que o publicaria?
Que soletrava um peido
e o imprimiria?


Madre Paula de Odivelas – Uma madame!


Madre Paula de Odivelas de seu nome Paula Teresa da Silva e Almeida, foi a amante mais famosa de El Rei D. João V, de quem teve vários filhos, era neta de um alemão, guarda do imperador Carlos V, que se estabeleceu em Lisboa como ourives e de um marinheiro Napolitano, porque sim nessa altura Lisboa era uma cidade cosmopolita, o pai de Paula seguiu a profissão de ourives e tinha então 3 filhas, a Paula Teresa, a Maria Micaela e a Leocádia Felicia.

A Maria Micaela tornou-se noviça, a Leocádia Felicia, passou por lá mas não professou como freira tendo-se casado com um Morgado (assim o grau mais baixinho da nobreza), Paula Teresa decidiu ir também para o Convento de São Dinis em Odivelas, com 16 anitos, parece que foi escolha do pai.

Acontece que o Convento de Odivelas era assim tipo o Casino do Estoril ou coisa que o valha na época, e a nobreza frequentava o local por tudo e por nada a começar por fazer grandes festas, pela altura em que se tornou a moça freira existiu lá uma festa, Desagravo do Santíssimo Sacramento, com um jantar magnifico a que assistiu toda a nobreza, entre eles D. Francisco de Portugal, 8º Conde do Vimioso que catrapiscou logo a moça, fresquinha, mas o Rei também lá ia porque tinha como amásia outra freira, Madalena, de quem teve um filho, mas quando viu Paula Teresa, o Conde do Vimioso teve de dar de frosques começando assim um romance, o Rei disse-lhe “Deixa a Paula e dou-te das freiras à escolha!”, assim como assim mais vale duas na mão do que uma a avoar…

Teresa Paula passou a ser amante do Rei, foi promovida a Madre, conseguiu benesses para si e para a família toda, borrifava-se para os deveres religiosos, era uma moça de resposta pronta na ponta da língua e ficou conhecida por uma certa arrogância, parece que uma vez que umas senhoras nobres não se levantaram à sua passagem como deviam fazer a uma Madre Superiora disse logo “Não se levanta de graça quem se deita por dinheiro!”

Pronto o Rei atribui-lhe de pensão a ela e seus descendentes 210 mil reis anuais, que para a época era um dinheirão, atribuiu ao pai dela a Ordem da Cruz de Cristo e mandou construir dentro do Convento uns aposentos para a moça que têm direito a registo na Biblioteca Nacional, talhas douradas de fartura, “leito da moda”, assentos de veludo amarelo, santos de prata maciça, cortinas bordadas a ouro, roupas de cama e corpo do melhor, inclusive uma banheira de prata dourada maciça… para além disso tinha 9 criadas!

Os aposentos não ficaram para a posteridade foram destruídos pelo sismo de 1755, o Rei manteve-a como amante até ao final dos seus dias e quando ele morreu ela continuou a beneficiar de da pensão e dos aposentos, só passou a cumprir os deveres religiosos, tiveram vários filhos que ficaram todos bem encaminhados na vida, o mais famoso foi D. José de Bragança, um dos meninos de Palhavã, ou seja o Palácio na zona onde agora está mais tijolo menos tijolo a Embaixada de Espanha, onde os bastardos reconhecidos de el Rei eram educados para serem religiosos a fim de expiarem os pecados dos pais (bonito ein?), ora neste caso o Zézinho levou isso a peito e exerceu o cargo de Inquisidor-Mor!

Madre Paula morreu com 67 anos e de certeza com melhor vida do que se não tivesse ido para freira, acresce dizer que a Rainha Maria Ana de Áustria era feia e assim descrita por todos os compêndios, por outro lado era mais velha que D. João, que é descrito como bem-apessoado, Paula é mencionada em vários relatos históricos, biografias, romances, inclusive no “Memorial do Convento” de José Saramago, sempre descrita como muito bela e de personalidade forte.

Recebido por e-mail. Desconheço a autoria

Opera Company of Philadelphia - "Bravi TuttiI!" (La Traviata)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Heidegger por Abujamra

O CACTO, poema de Manuel Bandeira

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Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais. 

Um dia um tufão furibundo abateu-os pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia: 

- Era belo, áspero, intratável.



Pequeno comentário sobre Toda Colheita

foto Lorena Lira
 


Por Nonato Gurgel
 

O livro Toda Colheita, de Itárcio Ferreira, reúne a obra poética do autor pernambucano, produzida de 1983 até 2015. Autor moderno de filiação drummondiana e com influência bandeiriana (Aos mestres com carinho, Autorretrato, Abro-me ao mundo ... ), o poeta de Carpina-Pe ostenta uma infinda porção romântica. Essa porção pode ser configurada em temas e musas como a morte, a dor, a perda, o medo, e os amores infindos que movem os seus versos brancos e livres repletos de vigor estético e mini roteiros afetivos e biográficos.

A modernidade romântica do autor pode ser também mensurada em sua dicção cética. Dicção de timbres ideológicos e revolucionários que resgatam o olhar do poeta maldito, sujeito deslocado na sociedade e no tempo. Nesse resgate, ele cultua as derivas de Dionísio, o vinho, a música e as mulheres, como podemos aferir em poemas como Cesta de Maçãs: "Fumo e bebo em busca do êxtase"

No poema Onde mora o amor?, o autor dá pistas da sua formação existencial e cultural:"Pirei/ Misturei filosofia com cachaça,/ história com maconha,/ crenças com poesia." Essa mistura de informações e vivências possibilita a construção de uma poética, cujo vigor pode ser aferido  nos produtivos intertextos com a tradição literária.  Esse vigor pode ser lido também no empenho de estetização Do poeta e sua função, como lemos no livro Apocalipse e outros poemas: "...alimenta com sua poesia/ a fome de justiça/ e do prazer estético. "

Para refletir (55)

Urna Chahar Tugchi - "Hodoo"

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Sociedade dos Poetas Mortos

Trago verdades.

VOO, poema de Itárcio Ferreira

 

Voo sempre em direção 
a ela,
tentando tocar com minhas
mãos
a mão desta arte: 
a Poesia.

Mas ela dá vôos rasantes,
Enquanto eu mal consigo
me pôr sobre as pernas:
pesa
a força da idade
e da poliomielite.

Mas o que mais pesa
mesmo,
de um peso descomunal,
titânico,
é o peso da incerteza:
o
 destino final!


Visitem o blog do poeta: Itárcio Ferreira, poemas

FOGO E ÁGUA, poema de Mia Couto



Cansa-me
ser quem serei
porque em tudo
esse outro se parece
com o que sou.
 

Cansa-me
o adeus de quem nasce.
 

E a viagem,
à nascença,
morre de fadiga.
 

Resto eu em ti
terra ardente,
água de fogo.
 

Só a tua alma me lava.
 

Abraça-me
Abrasa-me.




Se você gosta de Charles Bukowski,... Então precisa conhecer Bret Easton Ellis


"Abaixo de zero" é o aclamado livro de estreia de Bret Easton Ellis. Lançado em 1985, é um retrato visceral da geração perdida dos anos 80. Clay, o protagonista, de férias da faculdade, volta para a casa dos pais em Los Angeles. Juntamente com os amigos da época do colégio e uma antiga namorada, entra numa espiral de drogas, sexo e dinheiro que acentua o vazio existencial de toda essa geração. Esse destino incerto é retomado pelo autor 25 anos depois em "Suítes Imperiais", no qual mostra esses mesmos personagens, já adultos, confrontando suas experiências passadas.

Com seu primeiro livro, Bret Easton Ellis – que, na época do lançamento, tinha praticamente a mesma idade dos personagens – chamou a atenção para a passividade e a inconsequência dessa juventude e delineou aquela que seria a temática central de sua obra: como as cicatrizes da adolescência podem ser profundas e difíceis de apagar. (Editora L&PM)

António Zambujo - "Algo Estranho Acontece"

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

FINADOS

Ahhhhh... Que se foda!!!!!

Foto: 🙈🙉🙊 desculpem o palavrão 😊😂😂😂😂

saí de casa sem sutiã, poema de regina azevedo

bom dia, gente. a pré-venda do meu livro “carcaça” está um sucesso, gracias, e aconselho garantir logo o seu. até quarta, por 15 reais. depois de impresso, 20. a tiragem é mínima e não vou colocar em livraria nem em canto nenhum pra vender. só internet ou na mão mesmo. mandaí um e-mail pra reginilda12@gmail.com ou uma mensagem inbox, vai.

saí de casa sem sutiã

os hipocampos
derrubaram a prateleira
de cereal froot loops no supermercado

e alguns dragões alados
esculpiram um monumento de fogo
no morro do careca

o prefeito de gravata borboleta
rapidamente desviou o olhar
do próprio umbigo

a fauna e a flora
gritaram
enquanto os jovens caçavam pokemon
na 2ª maior reserva de mata atlântica do estado

acabaram os pedacinhos do céu
no carrinho do picolé de caicó

e uma família de flamingos
dançou sapateado na BR 101
até ficar com calos

mas eu saí de casa sem sutiã
e é isso que importa




Canção, poema de Allen Ginsberg

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O peso do mundo
         é o amor.
Sob o fardo
       da solidão,
sob o fardo
      da insatisfação 

 
      o peso
o peso que carregamos
        é o amor. 

 
Quem poderia negá-lo?
          Em sonhos
nos toca
      o corpo,
em pensamentos
        constrói
um milagre,
         na imaginação
aflige-se
         até tornar-se
humano - 

 
sai para fora do coração
         ardendo de pureza -
 

pois o fardo da vida
          é o amor,
 

mas nós carregamos o peso
           cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
          finalmente
temos que descansar nos braços
           do amor.
 

Nenhum descanso
        sem amor,
nenhum sono
        sem sonhos
de amor -
           quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
           ou por máquinas,
o último desejo
          é o amor
- não pode ser amargo
         não pode ser negado
não pode ser contigo
           quando negado:
 

o peso é demasiado
          - deve dar-se
sem nada de volta
         assim como o pensamento
é dado
         na solidão
em toda a excelência
         do seu excesso.
 

Os corpos quentes
          brilham juntos
na escuridão,
          a mão se move
para o centro
        da carne,
a pele treme
          na felicidade
e a alma sobe
         feliz até o olho -
 

sim, sim,
           é isso que
eu queria,
          eu sempre quis,
eu sempre quis
         voltar
ao corpo
         em que nasci.



Allen Ginsberg

Para refletir (54)

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Marilena Chauí


"Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às ideias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes".

(Marilena Chauí, filósofa e professora universitária brasileira)

Grandes escritores & maconha (4)



Camané - "Quero é viver"


Vou viver
até quando eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver

Amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será
mais um prazer

e a vida é sempre uma curiosidade
que me desperta com a idade
interessa-me o que está para vir
a vida em mim é sempre uma certeza
que nasce da minha riqueza
do meu prazer em descobrir

encontrar, renovar, vou fugir ou repetir

vou viver,
até quando, eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver
amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será mais um prazer

a vida é sempre uma curiosidade
que me desperta com idade
interessa-me o que está para vir
a vida, em mim é sempre uma certeza
que nasce da minha riqueza
do meu prazer em descobrir

encontrar, renovar vou fugir ou repetir

vou viver
até quando eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver,
amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será mais um prazer


António Variações

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Black Mirror da vida real no Brasil pós-Temer

Black Mirror da vida real no Brasil pós-Temer.

Narração, poema de Yorgos Seferis

Resultado de imagem para poema a Narração de Yorgos Seferis

Este homem caminha a chorar
ninguém sabe dizer porquê
às vezes pensam que são os amores perdidos
como aqueles que tanto nos atormentam
à beira-mar no verão com os gramofones.

A outra gente cuida dos seus trabalhos
papéis intermináveis crianças que crescem, mulheres
com dificuldades em envelhecer
ele tem dois olhos como papoilas
como primaveris papoilas cortadas
e duas pequenas fontes na cavidade dos olhos.

Caminha pelas estradas nunca se deita
galgando pequenos quadrados no dorso da terra
máquina de um tormento infindo
o qual acabou por não ter importância.

Alguns outros ouviram-no falar
sozinho enquanto passava
de espelhos quebrados anos antes
de figuras quebradas dentro de espelhos
que já ninguém pode juntar.
Outros ouviram-nos dizer do sono
imagens de horror no limiar do sono
rostos insuportáveis de ternura.

Habituamo-nos a ele bem arranjado e tranquilo
acontece apenas que caminha a chorar continuamente
como os salgueiros à beira do rio que vês do comboio
quando acordas mal disposto numa alba cheia de nuvens.

Habituamo-nos a ele não representa nada
como todas as coisas às quais vocês se habituaram
e falo-vos dele porque não encontro
nada a que vocês não estejam habituados;
as minhas vênias.

Yorgos Seferis

7 dicas de Steven Pinker para escrever melhor

 (Foto: Pixabay/Domínio Público)
O guia de escrita do psicólogo e linguista mais famoso do mundo acaba de chegar ao Brasil
Psicólogo rockstar”. É assim que a Forbes define Steven Pinker, professor do departamento de psicologia da Universidade Harvard, gênio das ciências cognitivas e da linguística, dono de um simpático cabelo cacheado, agora grisalho, e autor de livros de divulgação científica impecáveis – que deixam pulgas atrás da orelha em vez de dúvidas.

Pinker é um cara tão legal, diga-se de passagem, que quando o mundo parou para decidir de qual cor era o agora célebre vestido azul e preto – ou será branco e dourado? –, ele se prontificou e deu a explicação. Mas isso é assunto para outro post.

O fato é que ele é um cara muito bom em uma coisa que interessa a muita gente: colocar informação no papel. E em 2014 decidiu compartilhar sua cartola de truques com o livro Sense of Style – que agora chega ao Brasil como "Guia de Escrita" (Editora Contexto, R$ 49,90). A GALILEU separou algumas dicas valiosas – e o livro está cheio de muitas outras.

1. Esqueça essa história de que antigamente as pessoas escreviam melhor.

Se uma pessoa está na face da Terra há muito tempo, é natural que se incomode com mudanças culturais. Mas você não pode deixar suas tradições e opiniões transformarem seu texto em um autêntico José de Alencar. A verdade é que a língua muda rápido, e desde que o mundo é mundo professores e acadêmicos estão reclamando da decadência moral e linguística. Pinker faz até uma coletânea de exemplos de várias épocas. Em 1478 o tipógrafo William Caxton afirmou que "nossa língua tal como é usada hoje difere de longe daquela que era usada e falada quando eu nasci". Já um anônimo de 1917 foi categórico: "Nossos calouros não sabem soletrar, não sabem pontuar. Todos os colégios estão desesperados, porque os alunos desconhecem os rudimentos básicos".

2. Fuja do jargão de sua área do conhecimento. Rápido. 

Já tentou ler um texto jurídico? Ou o manual de instruções para a instalação de um roteador em casa?  Ou mesmo um dos artigos científicos que a GALILEU lê todos os dias para te atualizar? Pois é, a redação é indecifrável em grande parte dos casos. Pinker afirma que é difícil para uma pessoa saber como é para outra pessoa não saber o que ela sabe. Em outras palavras, quando você entende tudo de um assunto, tem a impressão de que todo entende pelo menos um pouquinho. A consequência é o que ele denomina "maldição de conhecimento". Em resumo: evita abstrações demais, e use palavras que todo mundo conhece. Não vai doer nada, e vai te ajudar a enviar sua mensagem ao maior número possível de pessoas. 

3. Evite transformar verbos em substantivos.

O fechamento brusco da peça pode ocasionar a quebra de suas dobradiças. Não é difícil topar com um aviso como esse na caixa de um produto qualquer. Soa péssimo, e o pecado está em não assumir as ações. Por que usar "ocasionar a quebra" se "quebrar" é tão mais simples? Pinker chama esse tipo de substantivo de "zumbi", e dá uma boa sugestão: trazer todos de volta à vida verbal: Fechar a peça bruscamente pode quebrar suas dobradiças.

4. Diminua a distância entre palavras relacionadas entre si.

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas... De um povo heróico o brado retumbante.

Que tal colocar na ordem? As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico. Ufa! Vamos do hino nacional a Os Lusíadas, de Camões.

As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

O sujeito são "as armas e os barões assinalados". O verbo, "cantando".

Você não viu o verbo na estrofe acima? Pois é. A não ser que você seja Camões, separar os dois dessa maneira não é uma boa maneira de escrever um e-mail para seu chefe. À proposito, ele está destacado na estrofe abaixo, 14 versos depois. 

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

5. Use as vozes passiva e ativa para dirigir o olhar do leitor para o que interessa.

voz passiva é considerada por alguns gramáticos e revisores uma grande inimiga de uma boa redação. Não seja tão radical. Como você pode perceber pela frase anterior — que está em voz passiva — começar uma frase por seu objeto é um ótimo jeito de chamar a atenção do leitor para o que realmente interessa. O contrário pode até dar certo: Alguns gramáticos e revisores consideram a voz passiva uma grande ... Mas tiraria o foco do assunto da frase. 
Pinker também lembra que ela pode tirar do caminho sujeitos que não interessam para quem lerá a frase. Em helicópteros foram levados ao local do incêndio, o ouvinte não precisa saber quem são os pilotos. Políticos e jornalistas sabem muito bem disso, e podem usar a passiva para omitir o sujeito quando, na verdade, ele é de interesse público, como em R$ 25 milhões foram desviados de uma empresa estatal em vez de João da Silva desviou R$ 25 milhões de empresa estatal.

6.  Use sinônimos para não repetir palavras, mas não exagere na dose.

Não é uma boa ideia repetir uma palavra vezes demais. João é legal. João foi à escola. Lá, João falou com seus amigos. É por isso que no gênero jornalístico uma instrução comum é não repetir palavras essenciais para a matéria na mesma página. Buscar sinônimos, porém, pode te levar a construções desconfortáveis.

Isso acontece, em primeiro lugar, porque não há tantos sinônimos assim: gato pode ser trocado por bichano ou felino, mas seu nome científico, Felis catus, já seria um exagero fora de um texto especializado. Outro é que é preciso tomar cuidado para usar palavras na sua ordem de abragência. Dá para dizer O ônibus acelerou. As pessoas caíram dentro do veículo. Já O veículo acelerou. As pessoas caíram dentro do ônibus não deixa claro que o veículo em questão é um ônibus. A categoria "veículo" engloba muitas coisas, entre elas, ônibus.

7. Tome cuidado com ambiguidades sintáticas.

A polícia cercou o ladrão do banco na rua Santos. Afinal, o ladrão do banco da rua Santos foi cercado em um lugar qualquer ou o ladrão de um banco qualquer foi cercado na rua Santos? Quando conhecemos uma história, o significado de uma frase parece óbvio. Tão óbvio que não temos o costume de revisar para ver se alguém poderia entender algo completamente diferente. 


* Com supervisão de André Jorge de Oliveira.

António Variações

Não tem que respeitar religião porra nenhuma


"Entendam o ponto de vista d’ O Biscoito Fino e a Massa sobre isso: tem que respeitar religião porra nenhuma. Tem que acabar com essa história de que, todas as vezes que apontamos a misoginia, a homofobia, os estupros de crianças, a guerra anticiência, os séculos de lambança obscurantista, sempre aparece alguém para dizer "ah, tem que respeitar minha religião". (Idelber Avelar)