Aos Mestres, com carinho!

Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Links: 30 dos 100 melhores contos da literatura universal




Via Homo Literatus
  1. Deriva – Horacio Quiroga
  2. Óleo de cão – Ambrose Bierce
  3. Diante da lei – Franz Kafka
  4. Bola de sebo – Guy de Mauppassant
  5. Casa tomada – Julio Cortázar
  6. Continuidade dos parques – Julio Cortázar
  7. Corações solitarios – Rubem Fonseca
  8. Diga que não me matem – Juan Rulfo
  9. O afogado mais bonito do mundo – Gabriel García Márquez
  10. O travesseiro de penas – Horacio Quiroga
  11. Um artista no trapézio – Franz Kafka
  12. O barril de Amontillado – Edgar Allan Poe
  13. O capote – Nikolai Gogol
  14. O coração delator – Edgar Allan Poe
  15. O aniversário da infanta – Oscar Wilde
  16. O escaravelho de Ouro – Edgar Allan Poe
  17. fantasma de Canterville – Oscar Wilde
  18. O gato preto – Edgar Allan Poe
  19. O gigante egoísta – Oscar Wilde
  20. O imortal – Jorge Luis Borges
  21. O presente dos reis magos – O. Henry
  22. Um som de trovão – Ray Bradbury
  23. Acender uma fogueira – Jack London
  24. A dama do cachorrinho – Anton Tchekhov 
  25. A última pergunta – Isaac Asimov
  26. Os assassinos – Ernest Hemingway
  27. Os mortos – James Joyce
  28. Os nove bilhões de nomes de deus – Arthur C. Clarke
  29. Missa do Galo – Machado de Assis
  30. Nenhum caminho para o paraíso – Charles Bukowski

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Para refletir (113)


Somos parte de um continente; se um simples pedaço de terra é levado pelo mar, a Europa inteira fica menor. A morte de cada ser humano me diminui, porque sou parte da humanidade. Portanto, não me perguntem por quem os sinos dobram: eles dobram por ti.”

(John Donne, poeta inglês, séc. XVI)

Silvio Cesar - "Pra Você"

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Ozymândias, poema de Percy Bysshe Shelley


Ao vir de antiga terra, disse-me um viajante
Duas pernas de pedra, enormes e sem corpo,
Acham-se no deserto. E jaz, pouco distante,
Afundando na areia, um rosto já quebrado,
de lábio desdenhoso, olhar frio e arrogante
Mostra esse aspecto que o escultor bem conhecia
Quantas paixões lá sobrevivem, nos fragmentos,
À mão que as imitava e ao peito que as nutria
No pedestal estas palavras notareis:
"Meu nome é Ozimândias, e sou Rei dos Reis: 
Desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!"
Nada subsiste ali. Em torno à derrocada
Da ruína colossal, areia ilimitada
Se estende ao longe, rasa, nua, abandonada.

Percy Bysshe Shelley

(Tradução  Eugenio da Silva Ramos)

domingo, 28 de julho de 2019

EPÍLOGO, poema de Sebastião Alba



Fui
hóspede desta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.

O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.

Essa ave em que o Outono
se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.

Sebastião Alba

sábado, 27 de julho de 2019

SONETO ANTIGO, peoma de Cecília Meireles



Responder a perguntas não respondo. 
Perguntas impossíveis não pergunto. 
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando. 

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.
Cecília Meireles

segunda-feira, 22 de julho de 2019

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Chuva de vento, poema de Mauro Mota



De que distância
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?

Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.

(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)

De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?

Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?

Estendo-lhe a mão: a chuva fria.


Mauro Mota

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Cidade de orgias, poema de Walt Whitman



Cidade de orgias, passarelas e gozos!
Cidade em quem vivi e cantei em seu meio, que um dia farei ilustre,
Não os seus pajens – não são seus tableaux inconstantes, seus espetáculos que me compensam;
Não as suas fileiras intermináveis de casas – não os navios nos cais,
Não suas procissões nas ruas, nem suas claras janelas, com suas mercadorias;
Nem dialogar com pessoas instruídas, ou trazer a minha parte na festa ou banquete;
Não isso – mas, enquanto passo, Ó, Manhattan! seu relâmpago frequente e ligeiro de olhos que me oferecem amor,
Que oferecem resposta ao meu próprio – estes me compensam;
Amantes, contínuos amantes, apenas, me compensam.

Walt Whitman

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Luiz Vaz de Camões, poema (belíssimo) de Carlos Nejar

                                                     Foto de Voltaire Santos

Não sou um tempo
ou uma cidade extinta.
Civilizei a língua
e foi resposta em cada verso.
E à fome, condenaram-me
os perversos e alguns
dos poderosos. Amei
a pátria injustamente
cega, como eu, num
dos olhos. E não pôde
ver-me enquanto vivo.
Regressarei a ela
com os ossos de meu sonho
precavido? E o idioma
não passa de um poema
salvo da espuma
e igual a mim, bebido
pelo sol de um país
que me desterra. E agora
me ergue no Convento
dos Jerônimos o túmulo,
que não morri.
Não morrerei, não
quero mais morrer.
Nem sou cativo ou mendigo
de uma pátria. Mas da língua
que me conhece e espera.
E a razão que não me dais,
eu crio. Jamais pensei
ser pai de santos filhos.

Carlos Nejar


sexta-feira, 28 de junho de 2019

GOSTO DOS AMIGOS, poema de Sebastião Alba


Gosto dos amigos
Que modelam a vida
Sem interferir muito;
Os que apenas circulam
No hálito da fala
E apõem, de leve,
Um desenho às coisas.
Mas, porque há espaços desiguais
Entre quem são
E quem eles me parecem,
O meu agrado inclina-se
Para o mais reconciliado,
Ao acordar,
Com a sua última fraqueza;
O que menos se preside à vida
E, à nossa, preside
Deixando que o consuma
O núcleo incandescente
Dum silêncio votivo
De que um fumo de incenso
Nos liberta.

Sebastião Alba

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Soneto, poema de Mário de Andrade


Tanta lágrima hei já, senhora minha,
Derramado dos olhos sofredores,
Que se foram com elas meus ardores
E ânsia de amar que de teus dons me vinha.
Todo o pranto chorei. Todo o que eu tinha,
caiu-me ao peito cheio de esplendores,
E em vez de aí formar terras melhores,
Tornou minha alma sáfara e maninha.
E foi tal o chorar por mim vertido,
E tais as dores, tantas as tristezas
Que me arrancou do peito vossa graça,
Que de muito perder, tudo hei perdido!
Não vejo mais surpresas nas surpresas
E nem chorar sei mais, por mor desgraça!
Mário de Andrade

terça-feira, 25 de junho de 2019

Talidomida, poema de Sylvia Plath


Oh, semilua –
Semicérebro, luminosidade –
Negro, mascarado de branco,
Suas escuras
Amputações rastejam e assustam –
Aranhiças, inseguras.
Que luva
Que espécie de couro
Me protegeu
Daquela sombra –
Os botões indeléveis,
Nós nas omoplatas, os
Rostos que
Empurram para ser, arrastando
O podado
Âmnio sangrento das ausências.
Toda noite eu teço
Um espaço para o que me é dado,
Um amor
De dois olhos úmidos e um grito.
Branca secreção
Da indiferença!
Os frutos escuros giram e caem.
O vidro se espatifa,
A imagem
Foge e aborta como gotas de mercúrio.
Sylvia Plath

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Pastoral, poema de Mauro Mota



Não disse de onde veio. Apenas veio 
quase flutuante pela madrugada. 
A flauta e um zelo musical em cada 
ovelha e em todas do seu pastoreio. 
Toca. (Para o rebanho?) A sua toada 
interrompe-se às vezes pelo meio. 
Dela não quer somente o vale cheio: 
quer levá-la mais longe. Quando nada 

houver mais dos cordeiros e dos pastos, 
do viço matinal, dos brancos rastos 
de lã, dos guizos de uma ovelha incauta, 

fique a lembrança do pastor fugace, 
que foi pastor só para que ficasse 
nas colinas a música da flauta.

Mauro Mota

terça-feira, 11 de junho de 2019

Itárcio Ferreira - "Trem da vida"

A Base de Toda Metafísica, poema de Walt Whitman


E agora, senhores,
Uma palavra eu lhes dou para permanecer em suas memórias e mentes,
Como base, e fim também, de toda metafísica.
(Também, para os alunos, o velho professor,
No final de seu curso apinhado.)
Tendo estudado o novo e o antigo, os sistemas grego e alemão,
Kant tendo estudado e exposto – Fichte e Schelling e Hegel,
Exposto o saber de Platão – e Sócrates, maior que Platão,
E maior que Sócrates buscado e exposto – Cristo divino tenho muito estudado,
Eu vejo reminiscentes hoje aqueles sistemas grego e alemão,
Vejo as filosofias todas – igrejas cristãs e princípios, vejo,
Sob Sócrates claramente vejo – e sob Cristo o divino eu vejo,
O caro amor do homem pelo seu camarada – a atração de amigo por amigo,
Do marido bem-casado e a esposa mãe de crianças e os pais,
De cidade por cidade, e terra por terra.
Walt Whitman

domingo, 9 de junho de 2019

SOCIEDADE DA VIRTUDE: "O FABULOSO TARANTULA-MAN"

Velhas Árvores, poema de Olavo Bilac



Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!


Olavo Bilac

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Discreta e formosíssima Maria, poema de Gregório de Matos




Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca o Sol, e o Dia:
Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:
Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.
Ó não aguardes que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.
Gregório de Matos

Saindo de casa | Uma tragicomédia

Ruy Maurity - "Pelo Sinal"

terça-feira, 4 de junho de 2019

ITINERÁRIO, por Itárcio Ferreira



O despertador do celular tocou, como sempre, às 6 horas. A mesma dificuldade de levantar toda manhã, ressaca do ansiolítico e do antidepressivo para o sono pegar.

Levanto. Lava o rosto e a boca. Adio o banho para depois do café. Primeiro um pequeno café para despertar, depois algo leve para comer.

Já não dirijo há 5 anos. O trânsito é de estressar um morto. Às 8 horas chega o rapaz que sempre me leva e me traz do trabalho.

Durante o percurso, uns 40 minutos, conversamos sobre qualquer coisa. Já somos amigos, serei seu padrinho de casamento que ainda não está marcado.

No trabalho abro a minha sala. Trabalho sozinho, mas, sempre recebo a visita de amigos.

Sala aberta, computador ligado, mais um café de máquina e mãos à obra para produzir relatórios sobre a fiscalização das contas dos governos estadual e municipais.

Servidor público. Trancado numa sala com ar condicionado. Fazendo, há mais de 20 anos, relatórios e relatórios, é fácil prever que a rotina, a repetição e a idade são fardos diários e pesadíssimos.

Enfim a hora do almoço, onde entre um colega e outro podemos jogar conversa fora e descansar para o segundo tempo.

O segundo tempo é sempre mais lento. Às 4 da tarde os aparelhos de ar condicionado são desligados, por medida de economia. Quinze minutos depois já estou suando à beça.

Novamente espero o rapaz que me traz de volta para casa. Já são 7 da noite.

Chego em casa cansado, às vezes janto, outras, apenas um banho e cama.

Dormo para acordar e de novo (o eterno retorno?) repetir meu itinerário. 

Anitta - "Zé do Caroço"

sábado, 1 de junho de 2019

Cântico, poema de Carlos Nejar

                                                             Foto de Voltaire Santos

Limarás tua esperança
até que a mó se desgaste;
mesmo sem mó, limarás
contra a sorte e o desespero.
Até que tudo te seja
mais doloroso e profundo.
Limarás sem mãos ou braços,
com o coração resoluto.
Conhecerás a esperança,
após a morte de tudo.
Carlos Nejar

Elis Regina - Conversando no Bar (Milton Nascimento & Fernando Brant)