Capitão Falcão conta a história de um super-herói Português ao serviço do Estado Novo. Juntamente com o seu parceiro, Puto Perdiz, Falcão combate todas as ameaças à Nação Lusitana, respondendo a um homem apenas, António de Oliveira Salazar. Mas estranhos acontecimentos e uma ameaça democrática começam a invadir a capital. Conseguirá Capitão Falcão salvar o dia?
"Não tem porque interpretar um poema. O poema já é uma interpretação." (Mário Quintana)
Aos Mestres, com carinho!
Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
domingo, 24 de maio de 2015
sábado, 23 de maio de 2015
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Günter Grass e Eduardo Galeano vão para os eternos campos de caça

Por Flávio Aguiar, via Boitempo
Novamente o noticiário me leva, nestas crônicas, para longe do reino da cozinha. Saio dele para ir, desta vez, à biblioteca.
Percorro os volumes silenciosos. Eles hoje, 14 de abril de 2015, me parecem mais silenciosos do que de costume.
Livros choram?
Sim, choram. Também há momentos em que riem, outros em que ficam sisudos, pensativos, outros tem coceiras se acariciados, ainda outros fazem sexo conosco quando os apalpamos e cheiramos.
Há livros carrancudos, cheios de ódio: Minha luta, Mein Kampf, por exemplo. Outros há cheios de paixões tumultuadas, como Narciso e Golmund, de Herman Hesse.
Mas nesta minha biblioteca há alguns livros mais silenciosos do que outros.
Recolho um deles. É O tambor, de Günter Grass (em alemão Die Blechtrommel, “O tambor de lata”). Dele me sai esta preciosidade:
“Até mesmo os maus livros são livros e, portanto, são sagrados”.
Pego outro, igualmente cabisbaixo. É uma edição em espanhol, Diario de um Caracol, do mesmo Günter Grass, e leio, traduzindo em voz baixa para não perturbar demasiado o silêncio desta biblioteca:
“A melancolia deixou de ser um fenômeno individual, uma exceção. Transformou-se num privilégio de classe do trabalhador assalariado, um estado mental de massas, que se instala onde quer que a vida seja governada por índices de produtividade”.
E:
“Se o trabalho e o lazer logo se tornarem subordinados ao princípio utópico do absoluto negócio, então a utopia e a melancolia coincidirão: [veremos] a aurora de uma era sem conflitos, sempre tomada por ocupações – e sem consciência”.
Günter Grass era um homem de grande coragem. Demorou, mas confessou de motu próprio ter pertencido, na juventude, à Waffen-SS, o braço militar da odiosa organização nazista. Repudiou-a, depois. Recentemente, em plena Alemanha, publicou um poema criticando o governo de Israel (que muita gente aqui considera “intocável”, “incriticável”, como se isto existisse) pelo tratamento dispensado aos palestinos e pela posse de armas nucleares. Foi acerbamente atacado, acusaram-no de antissemitismo, coisa que ele rejeitou com veemência – e com razão.
Depois de procurar consolar estes livros acariciando-os, observo logo adiante um outro livro cabisbaixo. Perto dele, não muito longe, um outro livro, este muito grande e pesado, chora perdidamente: é a enciclopédia Latinoamericana. Não sei se ela chora por ter perdido um pai ou um filho, quem sabe um irmão. Mas tomo nas mãos o primeiro: é O livro dos abraços, de Eduardo Galeano. Na sua capa, sempre me saudava, cada vez que eu o fazia sair de seu nicho, um menino alegre tocando um tambor (seria o do Günter Grass?). Mas agora o menino me olha tristonho. Seu tambor está silente. Mas como se fora um convite, ele começa a tocar seu instrumento, naquele toque plangente, ritmado, se juntando ao silêncio das gentes, com que o surdo da escola de samba leva à última morada o passista que morreu.
Mas ouço naquele toque que irrompe na biblioteca transformada em câmara de velas ardentes um convite para abri-lo. E o faço. E leio, logo no primeiro texto:
“O mundo
Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus.
Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
– O mundo é isso – revelou –, um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo”.
Tive a graça de conhecer Galeano pessoalmente. Entrevistei-o várias vezes na TV Carta Maior, durante os Fóruns Sociais Mundiais. Ele tinha um jeito peculiar de falar. No começo amarrava a cara, como se estivesse de mau humor. Quem sabe estava? Galeano detestava estrelismos, e uma câmera de TV pela frente sempre lembra, de algum modo, esta condição estelar e inoportuna. Mas logo em seguida ele cativava quem o ouvisse não só pelo brilho de seu pensamento, como pelo otimismo cauteloso, nunca panfletário, que emanava de suas palavras. Sua voz de tom medianamente grave infundia serenidade de mistura com o caráter apaixonado, ardente mesmo, de sua relação com a beleza literária e com a busca da justiça social na nossa América Latina de tantas injustiças.
Me veio à lembrança também a imagem de seu irmão de sangue (assim eles se tratavam) e de espírito, o jornalista Marcos Faerman, o Marcão da Faculdade de Direito da UFRGS e das peladas de futebol do Veludo, em Porto Alegre. O Marcão foi a Buenos Aires, onde então Galeano se exilava, entrevista-lo para o jornal Ex-, um dos alternativos de São Paulo. Lá encantou-se com a revista que Galeano dirigia, Crisis. E o Marcão editou algo parecido no Brasil, a Versus, uma das revistas mais criativas do nosso jornalismo.
Bem que eu notara que um pouco mais adiante da Latinoamericana meus exemplares sobreviventes de Versus e Crisis estavam abraçados, compungidos.
Num movimento repentino, sem pensar, abri as janelas da biblioteca, para que a luz violasse aquela penumbra. A manhã berlinense me recebeu com seu gélido hálito habitual. Mas o sol entrou, e logo transformou aqueles silentes livros num enxame de vozes que, como pássaros recém-despertos, homenageassem a vida dos que partiram – há tempos, como o Marcão, ou há pouco, como Grass e Galeano.
A entrada do sol na penumbra que se dissipava me confirmou a assertiva: é impossível se aproximar destas pessoas, destes livros, destas revistas, sem pegar fogo, mesmo que serenamente.
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Em tempos de ódio nas redes sociais, de agressões físicas a quem usa camisa vermelha e da pregação de segregação política da grande mídia, ler Spinoza é um grande antídoto.
"Odiar é admitir nossa inferioridade e nosso medo; não odiamos ao inimigo que podemos confiadamente dominar. Os que desejam vingar-se reciprocando ódio, viverão miseravelmente. Mas o que procura combater o ódio com o amor, luta com prazer e confiança; resiste igualmente a um ou a mais homens e escassamente necessita da ajuda da sorte. Os espíritos são conquistados não com armas mas com grandeza de alma".
SPINOZA, Baruch de. Ética. Apud DURANT, Will. História da Filosofia. Vida e Ideias dos Grandes Filósofos. Tradução: Godofredo Rangel e Monteiro Lobato. São Paulo: 1966, p. 182.
Aventura na Casa Atarracada
Movido
contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.
Ao
que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.
quarta-feira, 20 de maio de 2015
ONANISMO

Por que sentimos
às vezes
que o amor mais completo
é quando somos
amante e amado,
sujeito e objeto?
Será por que nos conhecemos
tão certo?
Ou por que nos falta
escolha,
afeto?
terça-feira, 19 de maio de 2015
O Último Poema

O
que está por trás do poema e da poesia do poema
é
o homem e sua vida
sua
sobrevida
sua
suada subvida
o
homem e suas circunstâncias
plantado
no espaço
no
tempo que vai passando
O
homem e suas (in)finitudes
um
olhar breve – e vão
um
apito – longo – de locomotiva
um
passeio à tarde – de bonde
Antônio Girão Barroso
segunda-feira, 18 de maio de 2015
O Divino Plágio

Por George Bourdoukan, em seu blog
A Divina Comédia de Dante Alighieri, quem diria, é um plágio. Foram necessários quase seiscentos anos para que isso fosse descoberto e a revelação viesse a público. Talvez este tenha sido o mais longo e fascinante plágio de que se tem notícia. O autor da façanha foi um dos maiores eruditos europeus do fim do século 19 e inícios do 20, o professor e arabista espanhol Miguel Asin Palácios, cuja obra La Escatologia Musulmana en la Divina Comédia, publicada 1919, despertou enorme inquietação e uma viva polêmica.
E muita indignação dos italianos que tudo fizeram para que ela não fosse editada na Itália.
A obra, que até hoje é ignorada no Brasil, está dividida em 4 capítulos, com 33 subdivisões e mais de 100 intertítulos. A que está em meu poder é uma segunda edição, com 611 páginas - 468 sobre o plágio e 143 sobre a repercussão e, naturalmente, a polêmica.
O professor Asin Palácios, que era membro da Real Academia Espanhola, não satisfeito em demonstrar as semelhanças entre os textos de A Divina Comédia e dos autores muçulmanos, ainda se deu ao luxo de transcrevê-los e compará-los, quando necessário, em latim, espanhol e árabe. Além desse perfeccionismo, ele explica como os textos islâmicos teriam chegado até Dante. Outro trabalho de pesquisa primoroso mostra como aconteceu a absorção do Islam pela Europa Cristã. E mais: com minúcias, descreve as estreitas analogias entre Dante e o sufista cordobês Ibn Masara, para concluir que A Divina Comédia é na verdade uma compilação de textos dos místicos e filósofos muçulmanos e não “uma genial fantasia criadora de Dante”. Ou “um monumento solitário em meio dos desertos medievais”, como gostam de se referir a ela os cultores das orelhas de livros.
Outro ponto fascinante da obra é o que diz respeito à polêmica. São dezenas de argumentos e contra-argumentos, envolvendo os maiores eruditos europeus da época, que desfilam um saber raramente visto nos dias atuais. É uma obra de leitura difícil. Exige um mínimo de conhecimento do Alcorão e de autores islâmicos como Ibn Masara, Ibn Arabi, Ibn Al Muqqafa, Al Ghazali, Qazwini, Al Jahiz, Damiri, Abu Bakr Ibn Abu ad-Dunya, Abdallah Ibn Dinar, Abd-Ar-Rahman Ibn Said Aslam. Isto, para citar os mais conhecidos.
As “semelhanças” são totais. Ali se encontram o mesmo inferno, o mesmo paraíso e até as viagens. A ascensão de Dante e Beatriz, por exemplo, através das esferas do Paraíso, é uma cópia literal da ascensão alegórica de um místico e de um filósofo que se lê em Futuhat, obra do grande sufista murciano Ibn Arabi.
E para que não paire nenhuma dúvida sobre sua infatigável pesquisa, Asin Palácios não satisfeito em reconstituir os passos percorridos por Dante em busca da “inspiração”, cita ainda os tradutores do árabe para o latim, francês e espanhol das obras dos filósofos muçulmanos, a data em que aquelas traduções teriam ocorrido e a pedido de quem. A tradução para o castelhano, por exemplo, foi feita pelo médico do rei Afonso, o Sábio, Abraham Alfaquim, a pedido do próprio rei. A tradução para o latim foi feita por Bonaventura de Siena.
De qualquer forma e independentemente do fato de A Divina Comédia ser um plágio, nem por isso o nome de Dante Alighieri deve ser atirado ao limbo. Não deixa de ser positivo em plena Idade das Trevas, alguém utilizar textos islâmicos. O que deve ter irritado o professor Asin Palácios, profundo conhecedor da literatura árabe, é a insistência de alguns considerarem A Divina Comédia como uma “obra original”. O que confirma mais uma vez que tudo aquilo que chamamos de original é, na verdade, produto direto de nossa ignorância. Insisto. La Escatologia Musulmana en la Divina Comédia, não é uma obra fácil e não pode ser lida de forma burocrática. É uma obra para ser lida, relida e estudada. Com certeza o leitor ficará, além do mais, deslumbrado com as revelações contidas nas entrelinhas que os místicos muçulmanos nos legaram.
A propósito, o professor, erudito, arabista e membro da Real Academia Espanhola Miguel Asin Palácios era padre.
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