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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

AO DENUNCIAR O GOLPE, RADUAN LAVA ALMA DO BRASIL


Discurso do escritor Raduan Nassar, autor de Lavoura Arcaica (1975), Um Copo de Cólera (1978) e Menina a Caminha (1994), ao receber o Prêmio Camões Literatura 2016, a cerimônia foi realizada hoje, dia 17/02/2017:

"Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.

Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.

Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.

Saudações a todos os convidados.

Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua. 

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.

Portanto, Sr. Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.

Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.

Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.

Os fatos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com sua escandalosa concentração da riqueza, o que vem desgraçando os pobres do mundo inteiro.

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.

Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com foro privilegiado, a blindagem ao alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um de seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

O golpe estava consumado!

Não há como ficar calado.

Obrigado".

sábado, 4 de junho de 2016

Paulista recluso e de obra modesta, Raduan Nassar ganha o Prêmio Camões de Língua Portuguesa

O escritor, vencedor do Prêmio Camões
O escritor, vencedor do Prêmio Camões


O escritor paulista Raduan Nassar foi o 12º brasileiro a ser contemplado com o Prêmio Camões, um dos mais importantes oferecidos a escritores de língua portuguesa, em sua 29ª premiação, na última segunda-feira (30/03). Com este feito, o Brasil se iguala a Portugal no número de escritores premiados – também 12. Outros países lusófonos já contemplados foram Angola, Moçambique e Cabo Verde.

Nomes respeitáveis da literatura brasileira e mundial, como José Saramago (Portugal), Mia Couto (Moçambique), Jorge Amado, Raquel de Queiroz, Rubem Fonseca e Lygia Fagundes Telles já receberam o prêmio. Infelizmente, dos vinte e nove premiados, apenas seis são mulheres.
Raduan Nassar tem uma história, no mínimo, inusitada: atualmente com oitenta anos de idade, lançou apenas três livros, sendo os dois mais conhecidos na década de 1970, ambos adaptados para o cinema: o romance Lavoura Arcaica (1975) e a novela Um copo de cólera (1978). Em 1997, publicou uma coletânea de contos intitulada Menina a caminho e outros textos.

Na década de 80, recolheu-se em sua fazenda, que posteriormente foi doada à Universidade Federal de São Carlos. Reservado e recluso, Raduan Nassar raramente aparece em público ou dá entrevistas. Em uma incomum aparição, no dia 30 de março, Raduan Nassar defendeu a presidenta Dilma Roussef“Os que tentam promover a saída de Dilma arrogam-se hoje, sem pudor, como detentores da ética mas serão execrados amanhã”, afirmou.

O júri que lhe concedeu o Prêmio Camões, no valor de 100 mil euros, destacou “a extraordinária qualidade da sua linguagem” e a “força poética da sua prosa”.  De fato, a prosa extremamente poética é um traço marcante na exígua obra de Raduan Nassar.

Lavoura Arcaica conta a história de André, que escapa da fazenda da família, conservadora, revoltando-se contra as tradições ruralistas e patriarcais. Mais do que a história, o que prende é a escrita embriagante e quase selvagem de Raduan Nassar. As frases, longas, arrastadas, requerem concentração e muito, muito fôlego, como no extrato que se segue. “(…) e ele falou que estando a casa de pé, cada um de nós estaria também de pé, e que para manter a casa erguida era preciso fortalecer o sentimento do dever, venerando os nossos laços de sangue, não nos afastando da nossa porta, respondendo ao pai quando ele perguntasse, não escondendo nossos olhos ao irmão que necessitasse deles, participando do trabalho da família, trazendo os frutos para casa, ajudando a prover a mesa comum, e que dentro da austeridade do nosso modo de vida sempre haveria lugar para muitas alegrias, a começar pelo cumprimento das tarefas que nos fossem atribuídas, pois se condenava a um fardo terrível aquele que se subtraísse às exigências sagradas do dever.”

O mesmo se pode dizer da novela Um copo de cólera: uma trama que se passa em poucas horas; um homem e uma mulher, sem nomes nem características físicas definidos que, após uma intensa relação sexual, têm um acesso de cólera e passam a insultar-se mutuamente. Mais uma vez, a marca são as frases longas e entremeadas de ideias, imagens e devaneios – cada capítulo é composto de um parágrafo, de uma só frase, do narrador introspectivo. “sabe o que penso de mim, comparados um com o outro? (…) confesso que em certos momentos viro um fascista, viro e sei que virei, mas você também vira fascista, exatamente como eu, só que você vira e não sabe que virou; essa é a única diferença, apenas essa: e você só não sabe que virou porque – sem ser propriamente uma novidade – não há nada que esteja mais em moda hoje em dia do que ser fascista em nome da razão.”

O prêmio Camões é dado anualmente a “um autor de língua portuguesa que tenha contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua comum”, segundo seu regulamento. Apesar da obra parca, o prêmio atribuído a Raduan Nassar foi mais do que merecido. Ele já nos presenteou com sua maneira inusitada de escrever em nossa língua.