Aos Mestres, com carinho!

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Drummond, Vinícius, Bandeira, Quintana e Mendes Campos
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terça-feira, 25 de julho de 2017

A poesia de Ñasaindy Barrett, filha da eterna Soledad


Todo o mundo agora pode conhecer o livro “Do que foi pra ser Agora”, a poesia que a ditadura brasileira gerou contra a sua vontade. Os cristãos diriam que é uma bênção o lançamento do livro pela Editora Mondrongo, do editor e poeta Gustavo Felicíssimo. Mas eu digo que é poesia e verdade, no sentido de Goethe. E nesse caso, de resistência e vida também. Entendam por quê. 
A poetisa Ñasaindy Barrett de Araújo é a única filha de Soledad Barrett, a guerreira de quatro povos assassinada no Recife em 1973. Ñasaindy nasceu em Cuba, por força da militância política dos pais,. Soledad Barrett Viedma, paraguaia, e José Maria Ferreira de Araújo, brasileiro. Ambos foram assassinados pela repressão no Brasil. Ele em 1970, em São Paulo depois de preso e torturado. Soledad Barrett em 1973, no Recife, delatada pelo companheiro, o militante infiltrado Cabo Anselmo.
Ñasaindy chegou ao Brasil em 1980, com 11 anos de idade. E viveu entre o choque das diferenças culturais e políticas, mais as dificuldades encontradas por não ter documentos. “Eu era órfã, estrangeira, rebelde e fantasma”, contou um dia. Compreendam. O curto recorte biográfico é necessário, porque a poesia é mais que o poema, sempre. A vida foi presenteada a Ñasaindy como um destino inescapável, como um fruto complexo da sua genética, personalidade e formação. Pois Ñasaindy Barrett de Araújo é a filha do tempo, dos anos mais difíceis da ditadura brasileira. E de tal modo, que a poetisa se perguntar numa poética irônica, numa pergunta que é também de todo jovem hoje no Brasil:
 “E o chip, dentro de nós.
Quem foi que implantou?
O que me faz sonhar?
O que me faz chorar?”
Assim posto, chegamos à hora da poesia pelos poemas, somente pelos poemas, se tal arbitrariedade é possível. Mas tentemos a proeza. Tento e fico a meio caminho, porque a poesia de Ñasaindy nos fala:
“Os homens ainda amam
mesmo na angústia e na dor”.
Não é verdade? Pois de quanta dor, impureza e anormalidade se faz o mais límpido lírio dos campos? E se queremos ficar no reino do poético porque poético só poético, acompanhem a poesia linda, madura e fina que há nestes versos
“Percorre induzida a borboleta seu percurso.
Encontra-se pousando em uma hortênsia azul”.
E não resisto, ao fim, de comparar uma sensibilidade poética que descende em linha direta do que li antes, quando pesquisava sobre a heroína de quatro povos, que recriei em meu livro “Soledad no Recife”. Vejam este documento, uma estrofe dos últimos versos escritos por Soledad Barrett:
“Mãe, não sofras se não volto

me encontrarás em cada moça do povo
deste povo, daquele, daquele outro
do mais próximo, do mais longínquo
talvez cruze os mares, as montanhas
os cárceres, os céus
mas, Mãe, eu te asseguro,
que, sim, me encontrarás!“

A primeira vez em que li esse belo e último poema de Soledad Barrett, escrevi: “Agora vocês entendem a estética que é uma ética e uma profecia em um só poema. A vida que veio depois mostrou esse poema como uma canção de despedida”. Fui precipitado. A canção de Soledad, que se tornou impossível de ser desenvolvida em 1973, ressurge na poesia do livro da sua filha. De modo particular, podemos dizer que existe uma alma semelhante à estética de Soledad Barrett na poesia de Ñãsaindy Barrett de Araújo. Olhem estes versos do livro e o que suas linhas lembram:
“Entre todas as gentes,

sei que tenho um irmão.
E é porque sinto suas dores,
que mesmo sem ter olhos alegres,
mesmo sem ver a verdade ausente
sei que a luz está presente. “

Enfim, “Do que foi pra ser agora” é mais que um livro. Ele é um acontecimento de importância social, uma ordem da vida e renascimento. Como tão bem está escrito em uma de suas páginas: “A chuva caiu tão bela quanto foi a sua espera.” Assim é o livro da filha de Soledad Barrett. Na poesia, a autora alcançou o próprio nome: Ñasaindy Barrett de Araújo, poeta. Sinto que os longos dias de exílio e desencontros deram a Ñasaindy este presente: “Do que foi pra ser agora”. Em pré-lançamento da Editora Mondrongo http://www.mondrongo.com.br/index2.php?pg=noticia&id=144
Toda a gente do Brasil merece conhecer.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Discussão no Face com a neta de um comunista histórico


No relato a seguir não há qualquer ficção. Qualquer semelhança com pessoa viva ou conhecida não é mera coincidência.
Tudo se passou na página do Facebook da neta de um comunista histórico. Ele, um militante já falecido, não tem culpa. E por esse motivo deixo de informar o seu nome, e o da neta, em atenção à memória de um intelectual que honra até hoje o Recife.
Era 29 de dezembro do ano que passou há uma semana. Nessa época, ao se aproximar o dia 31, todos ficamos de repente sentimentais, porque tendemos a ver no fim do calendário a marca do fim de um tempo também em nossas vidas. Daí que a neta se lembrou de Paulinho da Viola, daquela bela canção “Para um amor no Recife”, a cidade mui amada do avô. Daí que eu, em pura e ingênua consciência, uni os dados que se jogavam no Face: post de uma amiga descendente de comunista, composição belíssima de Paulinho, mais a posse da ex-presa política na presidência do Brasil. Então postei nos comentários:
“A propósito, copio do texto ‘A presidenta Dilma, Paulinho da Viola e os brasileiros’, http://blogdaboitempo.com.br/…/a-presidenta-dilma…/:
‘Então houve ‘Para um amor no Recife’. Diziam então que Paulinho fizera essa música para a secretária de Dom Hélder Câmara. As boas e as más línguas (principalmente) acrescentavam que a dedicada senhora vinha a ser a namorada secreta do arcebispo. Entre o sussurro e a maledicência, entre a repressão da ditadura Médici e a resistência serena erguia-se um poema belo, quase autônomo da melodia: A razão por que mando um sorriso e não corro, é que andei levando a vida quase morto. Quero fechar a ferida, quero estancar o sangue, e sepultar bem longe o que restou da camisa colorida que cobria minha dor. Meu amor, eu não esqueço, não se esqueça, por favor, que voltarei depressa, tão logo acabe a noite, tão logo este tempo passe, para beijar você . Essa é uma canção que só fez melhorar ao longo de todos esses anos. A ditadura não existe mais, o seu motivo imediato não mais existe, mas a composição só vem crescendo, apesar da degradação do Recife, que entra quase incidentalmente no título’ ”.
Meus amigos e meus inimigos, a realidade não suporta nem apoia a consciência pura, mais conhecida pelo nome de consciência burra . Eis o que recebi de volta da senhora neta:
“Céus, mas onde é que você foi enfiar o pobre Paulinho?”
Ao que eu, com um leve pé atrás, respondo:
“Em lugar muito próprio: na resistência contra a ditadura”.
E a esta altura recebo o comentário mais claro da netinha:
“Um lugar que não é eterno, como se nota hoje. Logo ela, que apoia outras ditaduras…”.
Olhem, a patada era tão imprevisível, que li e não vi – aquele reflexo em que vemos e nos negamos a ver, porque não acreditamos no que os olhos mostram – e apenas aceitei a primeira parte da frase “Um lugar que não é eterno”. E respondi logo, no automático:
“Longa é a arte”.
Ao que, depois de me dar conta da frase inteira, completei:
“Me surpreende muito este seu comentário: ‘Dilma apoia outras ditaduras’.”
E a senhora neta, à beira da raiva, mas ainda conservando as aparências:
“Não sei por que o surpreende. Mas o fato é que postei uma música linda que nada diz respeito a Dilma. E ponto”.
Então fomos à definição dos termos, e postei:
“Eu relacionei o post com a ditadura, – tem a ver, não? – e com a presa política Dilma, que acalmava as companheiras torturadas com essa música de Paulinho. Alguma reação a esses fatos históricos e humanos?”.
Então a neta biológica se fez mais pura e somente herança de sangue:
“Vou pedir sua licença para apagar todos esses comentários. Afinal, o post é meu e me dou o direito – com razão, a meu ver – de não suportar Dilma. Será só o tempo de lê-lo que tiro todos. O fato de ter sido presa política não é um título honorífico, muito menos vitalício – vide Zé Dirceu e seus cúmplices”.
É claro que nos limites de um post não cabia a discussão que mostrasse uma justiça política, de réus condenados antes do julgamento, em um processo que a mídia chamou de “mensalão”, fenômeno batizado assim por um corrupto dos mais canalhas da República. E talvez até coubessem algumas linhas, se os genes irados não exibissem o nível em que se encontram, quando chamam de ditadura a Venezuela, Cuba e outros países do “eixo do mal”. A neta do comunista histórico do Recife não era a pessoa que a consciência burra pensava que fosse. Então comentei por fim:
“Não se aperreie não. Eu pensei que a neta herdasse também o espírito socialista do avô. Fui, e pelo visto, já vou tarde”.
O verbo “aperrear” acima foi escrito como uma senha de pernambucano, de nordestino, para alguém cosmopolita. (Vocês nem imaginam que haja recifenses longe da terra que se desejam de outros mundos.) O fato é que rompemos uma amizade que nunca havia existido. E tudo a partir da música de Paulinho e do elogio para a presidenta Dilma. Sei que isso contado parece absurdo, incrível, mas foi assim. Contei o caso como caso foi.